Autismo
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*Artigo escrito por Pollyana Paraguassú, presidente da Associação dos Amigos dos Autistas do Estado do Espírito Santo (Amaes).

Durante muito tempo, o autismo foi tratado apenas sob a ótica da deficiência, do transtorno e daquilo que precisa ser corrigido. Mas a ciência tem avançado e, com ela, surgem novas formas de compreender o funcionamento do cérebro humano e a diversidade neurológica.

Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, traz uma perspectiva que amplia esse olhar ao sugerir que características associadas ao espectro autista podem estar ligadas à própria evolução do cérebro humano.

A pesquisa analisou o desenvolvimento de neurônios do neocórtex, região do cérebro responsável por funções como linguagem, raciocínio, planejamento e tomada de decisão.

Ao comparar o cérebro humano com o de outros primatas, os cientistas observaram que determinados tipos de neurônios evoluíram de forma mais rápida na nossa espécie. Esse processo evolutivo, que favoreceu habilidades cognitivas complexas, também está associado a genes hoje relacionados ao autismo.

O que o estudo propõe não é romantizar o autismo ou ignorar os desafios enfrentados por pessoas no espectro e suas famílias. Pelo contrário.

A ideia é reconhecer que algumas características, como atenção intensa a detalhes, padrões de pensamento diferenciados e formas únicas de processar informações, podem ter sido importantes ao longo da história da humanidade.

Ou seja, aquilo que hoje é visto apenas como limitação também faz parte da diversidade que construiu quem somos enquanto espécie.

Essa abordagem ajuda a desconstruir a noção de que o autismo é um erro biológico. Ele passa a ser compreendido como uma variação natural do desenvolvimento neurológico, que convive com as mesmas estruturas cerebrais responsáveis pelas grandes capacidades humanas.

Isso reforça a importância de políticas públicas, educação inclusiva e apoio às famílias, baseados no respeito e na compreensão, e não apenas na tentativa de enquadramento em padrões.

Como presidente da Amaes, vejo diariamente como o conhecimento transforma realidades. Quando entendemos o autismo de forma mais ampla, abrimos espaço para menos preconceito, mais acolhimento e mais oportunidades.

A ciência nos mostra caminhos, mas é a sociedade que decide como vai usá-los. Escolher a inclusão é reconhecer que a diversidade neurológica também faz parte da nossa evolução.

Pollyana Paraguassú é presidente da Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (Amaes). Foto: Acervo pessoal