O episódio de hoje do PodNatureza foi daqueles que fazem a gente se sentir dentro de um laboratório flutuante. Recebi a Samira Costa, veterinária do Instituto Baleia Jubarte e amiga desde a época da faculdade, para falar sobre um universo de curiosidades sobre as baleias-jubarte que quase ninguém conhece.

Samira é capixaba e cresceu longe do mar aberto, mas descobriu ainda na graduação que metade das baleias-jubarte nasce em águas do Espírito Santo, no Banco dos Abrolhos, que se estende do Norte do Estado até a Bahia. Quando ela percebeu que aquelas gigantes também eram capixabas, decidiu que ali estava o seu lugar.

Drones e o mistério do borrifo

Entre as técnicas mais impressionantes que ela usa hoje no monitoramento dessas gigantes do mar, está a coleta do borrifo, o ar condensado que sai do espiráculo da baleia na expiração (e não simplesmente uma água que ela jorra pra fora do corpo).

Com o uso de drones, a equipe se aproxima sem tocar no animal e captura pequenas gotículas em placas de petri. É como coletar uma amostra direta do pulmão da baleia, algo extremamente valioso para estudos de saúde, hormônios e impacto ambiental.

Durante muito tempo, a ciência dependia apenas de carcaças encontradas na praia. Agora, com drones, genética, foto ID e drones nas baleias-jubarte, é possível estudar indivíduos vivos, saudáveis e entender o que realmente está acontecendo no oceano.

Foto ID, a digital da cauda

Outra curiosidade fascinante é o da foto ID. Cada cauda de jubarte é única, variando do preto ao branco, com manchas que funcionam como uma impressão digital. Fotografando essa cauda, os pesquisadores identificam cada indivíduo ao longo dos anos.

Essas imagens alimentam bancos de dados como o HappyWhale, que reúne registros do mundo inteiro. Assim, é possível descobrir que uma baleia vista no Espírito Santo apareceu meses depois na África, por exemplo.

Genética e nomes que viram história

Além da foto, a genética entra como um “crachá invisível”. Através de pequenas biópsias de pele, a equipe cria um portfólio genético que permite saber quem é quem, acompanhar parentescos e monitorar a população ao longo de décadas.

Algumas baleias acabam até ganhando nome. Teve a Rosalina, batizada por causa de uma manchinha em forma de rosa, que depois virou Rosalino quando foi vista cantando, comportamento típico dos machos. Teve o Wando, famoso por suas “serenatas no mar”. Esses detalhes criam laços e mostram que genética, foto ID e drones nas baleias-jubarte não são só técnica, são também afeto.

Muito além das jubartes

O Instituto Baleia Jubarte também atua com golfinhos, botos-cinza e toninhas, espécies residentes no Espírito Santo e extremamente ameaçadas. Muitas vivem próximas à costa, especialmente na foz do Rio Doce, uma região riquíssima em biodiversidade e que ainda carrega marcas profundas do desastre ambiental de 2015.

Os estudos de longo prazo, iniciados em 2004, permitem comparar dados antes, durante e depois do desastre. Samira explicou que esses animais são bioindicadores, o que aparece neles reflete o que está acontecendo com o ambiente e com as pessoas, já que todos compartilham os mesmos recursos.

A ciência que pulsa no peito

No fim da conversa, ela contou que a maior recompensa não é a tecnologia, mas reabilitar um animal vivo e devolvê-lo à natureza. Para ela, isso faz todo o esforço valer a pena. Como mãe de duas meninas, Samira ainda carrega para casa a responsabilidade de transformar conhecimento em atitude, reciclar, reduzir plástico, consumir com consciência.

Genética, foto ID e drones nas baleias-jubarte são ferramentas modernas, mas a essência continua sendo a mesma, cuidar da vida marinha é cuidar da nossa própria história.

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Yhúri Cardoso Nóbrega

Colunista

Doutor em ecologia de ecossistemas, mestre em ciência animal e presidente do Instituto Marcos Daniel.

Doutor em ecologia de ecossistemas, mestre em ciência animal e presidente do Instituto Marcos Daniel.