Quando se fala em felinos no Espírito Santo, quase todo mundo pensa direto nela, a dona deste dia, 29 de novembro, Dia da Onça Pintada, responsável também por um dos olhares mais famosos da natureza. Mas o estado abriga um elenco completo de gatos selvagens, com diferentes tamanhos, hábitos e papéis ecológicos. No total, são 6 espécies de felinos silvestres no Espírito Santo, todas com histórias, desafios e comportamentos que ajudam a contar o futuro da nossa Mata Atlântica.
Na conversa com a professora Ana Carolina, coordenadora do Projeto Felinos, o PodNatureza abre a “cortina” da floresta e mostra como esses animais regulam a vida selvagem, se adaptam à paisagem fragmentada e ainda desafiam cientistas, câmeras e fazendeiros.
Quais são os felinos do Espírito Santo
Antes de falar de comportamento, vale apresentar o elenco completo. Segundo a pesquisadora, hoje temos 6 espécies de felinos no Espírito Santo:
- Onça-pintada
- Onça-parda
- Jaguatirica
- Gato-mourisco
- Gato-maracajá
- Gato-do-mato pequeno
A onça-pintada é a estrela, mas não está sozinha. A onça-parda ocupa praticamente todo o Estado, inclusive em áreas mais alteradas, enquanto os outros gatos menores também ajudam a controlar diferentes faixas de presas. Cada um “atua” em um pedaço específico da teia ecológica.
Comportamento e papel ecológico dos felinos
Felinos são predadores por definição. Eles se alimentam de outros animais e, ao fazer isso, regulam uma cadeia inteira de interações. Ao controlar populações de presas, eles:
- Mantêm o equilíbrio entre herbívoros e vegetação;
- Reduzem a quantidade de animais doentes ou debilitados;
- Influenciam a saúde de comunidades inteiras de fauna e flora.
Um ponto importante trazido pela professora Ana Carolina é que os felinos escolhem presas mais frágeis, o que acaba “limpando” a população e favorecendo animais mais saudáveis. Ou seja, além de símbolo de floresta preservada, eles funcionam como uma espécie de “filtro sanitário” das matas.
E tem mais, quando pensamos em todas as espécies de felinos no Espírito Santo, não dá para simplesmente perder uma e achar que as outras vão “dar conta do recado”. Cada espécie atua em um intervalo de tamanho de presa diferente. A onça-pintada foca animais maiores, a parda é mais flexível, e os gatos menores ocupam faixas intermediárias.
Onde estão esses felinos no estado
A distribuição dos felinos no Espírito Santo não é homogênea. A entrevista destaca um contraste importante:
- Onça-parda
- Presente em diferentes regiões do Estado;
- Tolera melhor paisagens fragmentadas;
- Usa áreas alteradas e mosaicos rurais.
- Onça-pintada
- Restrita ao bloco Linhares–Sooretama;
- Depende de florestas grandes e contínuas;
- Forma a última população da espécie no Espírito Santo.
Esse isolamento da onça-pintada torna o quadro delicado. A estimativa inicial feita pelo Projeto Felinos indica algo em torno de 22 indivíduos, um número extremamente baixo para garantir variabilidade genética e futuro populacional.
Outro ponto interessante da conversa é a forma como a ciência conseguiu revelar o mundo oculto dos felinos no Espírito Santo. O Projeto Felinos combina diferentes ferramentas.
Armadilhas fotográficas: o “reality show” da floresta
As armadilhas fotográficas funcionam como câmeras com sensor de presença. No caso da onça-pintada, as manchas funcionam como digitais, permitindo identificar indivíduos e estimar tamanho populacional.
Com o tempo, porém, as onças passaram a evitar as câmeras — especialmente as fêmeas, mais cautelosas.
As equipes também utilizam DNA extraído de fezes frescas para confirmar indivíduos e avaliar variabilidade genética — técnica essencial para populações pequenas.
Sobre “ataques de onça”: o que está por trás das notícias que viralizam
Em momentos recentes, manchetes sobre ataques envolvendo onças viralizaram nas redes sociais, sobretudo no Pantanal. Esse tipo de caso costuma gerar medo e reforçar equívocos, mas a pesquisadora explica que:
- Não é comportamento normal das onças atacar humanos;
- Elas não nos reconhecem como presas;
- Encontros negativos geralmente envolvem:
- fêmeas com filhotes;
- defesa de alimento;
- uso de “ceva” para aproximar animais de turistas;
- Quebrar o comportamento natural reduz o medo do felino e tira a cautela das pessoas.
A presença de onças próximas às cidades também não é invasão, mas consequência direta da perda de hábitat e da busca por novos territórios, especialmente por indivíduos jovens.
Conflitos e convivência possível
Quando um felino predando animais domésticos vira assunto local, a primeira reação costuma ser pedir a remoção do animal. Mas a orientação técnica é outra:
- Proteger criações;
- Evitar atrativos;
- Monitorar a situação;
- Só remover o animal em casos críticos.
A chave é coexistir, entender que os felinos sempre estiveram ali, e que garantir sua presença mantém o equilíbrio ecológico e até favorece atividades econômicas, como agricultura e turismo.
Corredores e o futuro dos felinos no ES
Com populações isoladas — especialmente a onça-pintada — a conectividade entre fragmentos é vital. Corredores ecológicos podem permitir circulação e troca genética, desde que sejam áreas realmente seguras, e não “zonas de risco”.
Muito além da onça: ciência, formação e legado
O Projeto Felinos, ao longo de 20 anos, gerou um grande volume de dados e formou uma geração de pesquisadores. Câmeras registram muito mais do que onças e ajudam a construir estudos sobre aves, répteis e anfíbios. A ecologia aplicada se expande, ganha escala e ilumina caminhos para a conservação a longo prazo.
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