Logo no início da nossa conversa no PodNatureza eu já sabia que aquele encontro não seria comum. Recebi a Renata Bonfim, pesquisadora, pós-doutora em literatura capixaba, ambientalista e diretora-presidenta do Instituto Ambiental Reluz, e percebi como a arte pode ser uma porta de entrada poderosa para a proteção da natureza.
Quando uma escritora capixaba transforma poesia em ferramenta de educação ambiental no Espírito Santo, ela mostra que a conservação não nasce só nos laboratórios, mas também nos versos.
Renata é capixaba, cresceu cercada por animais, começou a vida profissional como artista plástica, migrou para a literatura, fez mestrado e doutorado e, em meio a pesquisas no Brasil, em Portugal e na Nicarágua, passou a visitar reservas naturais por onde andava.
O que era curiosidade virou prática, e em 2007, ao lado do esposo Luiz, criou o Instituto Ambiental Reluz e, sem saber, iniciou a trajetória da RPPN Reluz, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural.
A RPPN nasceu do desejo de dar abrigo aos animais e manter as árvores de pé. Com o tempo, vieram os desafios, como o combate à caça, ao tráfico de animais e plantas, e a necessidade de acionar órgãos ambientais. Foi ali que Renata se percebeu de vez ambientalista. Hoje ela se define como ambientalista, escritora, alguém que coloca toda a sua produção literária a serviço da defesa do meio ambiente.
A experiência de gerir uma reserva revelou que apenas a lei não basta. É preciso educar, sensibilizar, conversar. Nas escolas, muitas crianças não sabem sequer em qual bioma vivem. A Mata Atlântica, segundo Renata, não está apenas nas montanhas, ela é o chão que a gente pisa todos os dias. Por isso, ela usa a poesia, a literatura e a conversa como ferramentas de educação ambiental.
RPPNs, legado e amor pela terra
Durante o episódio, ela explicou a importância das RPPNs. São áreas protegidas por iniciativa dos próprios proprietários, registradas em cartório para serem preservadas para sempre. No Espírito Santo, existem cerca de 62 RPPNistas em apenas 25 municípios, um número pequeno para um estado com 78 cidades. Para Renata, cada reserva é um gesto de amor e de legado, um presente para os filhos, netos e para o futuro.
As motivações são muitas, preservar a história da família, homenagear pessoas queridas, proteger um fragmento de floresta. O resultado é sempre o mesmo, mais água, mais biodiversidade, clima mais ameno e municípios mais bonitos.
Educação ambiental que nasce da poesia
O Instituto Reluz transformou esse ideal em projetos como o Reluz na Escola, com cartilhas lúdicas que apresentam a Mata Atlântica e seus animais às crianças, e o Reluz na Estrada, que chama atenção para o drama do atropelamento de fauna, especialmente na BR-262, uma das rodovias com mais registros desse tipo no país. Com apoio de PRF, Polícia Militar Ambiental, Detran, Fundema e Ministério do Meio Ambiente, o instituto defende passagens de fauna e mudanças estruturais que salvem vidas humanas e silvestres.
Renata também falou sobre seus livros, como A Revolução dos Colibris, obra que inspira pequenas transformações capazes de gerar grandes mudanças. Ao final, ela deixou uma mensagem simples e profunda, a natureza não está lá fora, ela é parte de nós.
Encerramos o episódio com um poema em homenagem a Wangari Maathai, símbolo da restauração ambiental no mundo. Foi impossível não pensar que, no Espírito Santo, essa revolução também acontece em versos, porque quando uma escritora capixaba transforma poesia em ferramenta de educação ambiental no Espírito Santo, ela planta sementes que vão muito além das palavras.