Concha na Praia de Camburi, em Vitória-ES
Concha na Praia de Camburi, em Vitória-ES

Caminhar pela areia e encontrar conchas é uma experiência quase universal. Elas chamam atenção pelas formas, cores e texturas. Quando eu era criança, passava horas procurando os mais diferentes formatos de conchas. Eu particularmente, adorava encontrar aquelas mais arredondadas.

Muita gente recolhe uma, guarda no bolso, leva para casa. Isoladamente, parece inofensivo. O problema começa quando esse gesto se repete milhões de vezes, todos os dias, ao longo de quilômetros de litoral.

O que parece um detalhe vira ausência. E a ausência cobra seu preço.

O que as conchas fazem pela praia

As conchas não estão ali por acaso. Elas são estruturas produzidas por moluscos e compostas, principalmente, por carbonato de cálcio. Quando se quebram e se decompõem, devolvem esse material ao ambiente, ajudando a formar a própria areia e a manter o equilíbrio químico do mar, inclusive o pH da água.

Além disso, conchas são abrigo. São proteção.

Caranguejos-eremitas, por exemplo, não produzem conchas. Eles dependem totalmente das conchas vazias para sobreviver. Outros animais utilizam fragmentos como refúgio, camuflagem ou base para fixação. Algas se prendem a elas. Ovos e filhotes encontram proteção. 

A praia é um sistema vivo, e as conchas são parte da engrenagem.

Tirar conchas da praia é limpeza?

Em muitas cidades, a limpeza da praia vai além da retirada de lixo humano. Máquinas e equipes peneiram a areia para deixá-la visualmente perfeita, homogênea, sem vestígios do que é natural. Nesse processo, conchas, restos de sururu, pequenos troncos e até organismos vivos são removidos e enviados aos lixões.

Na imagem, a limpeza pública acaba retirando conchas da areia da praia (que chegaram lá naturalmente) de forma não intencional. É preciso tomar mais cuidado com essa questão.
Na imagem, a limpeza pública acaba retirando conchas da areia da praia (que chegaram lá naturalmente) de forma não intencional. É preciso tomar mais cuidado com essa questão.

Na imagem, a limpeza pública acaba retirando conchas da areia da praia (que chegaram lá naturalmente) de forma não intencional. É preciso tomar mais cuidado com essa questão.

O resultado é uma praia que parece bonita aos olhos, mas empobrecida ecologicamente.

Essas conchas, especialmente as pequenas como as do sururu, quando chegam à praia por causas naturais, deveriam permanecer ali. Elas seriam reaproveitadas por outros organismos, integrariam o ciclo de nutrientes e ajudariam a manter a estrutura física do ambiente costeiro. Fora dali, viram apenas resíduo.

Projeto Sururu

Em certas ocasiões, quando o sururu é extraído pelos marisqueiros, o acúmulo das conchas em alguns pontos podem tornar-se um problema. Pensando nessa problemática, foi criado o Projeto Sururu. Desenvolvido pelo Instituto Goiamum, o projeto dá destino adequado às cascas de sururu descartadas pelas marisqueiras em pontos específicos de beneficiamento, evitando o acúmulo de resíduos nos manguezais e transformando esse material em insumo regenerativo. 

As cascas passam por pesquisa, beneficiamento e análises laboratoriais que comprovaram seu potencial como corretivo natural de solo, rico em carbonato de cálcio, seguro e livre de contaminantes. O que antes era resíduo se converte em ciência aplicada, renda e regeneração ambiental, fortalecendo a economia azul capixaba.

Catadores de sururu em Vitória-ES
Catadores de sururu em Vitória-ES

É fundamental, no entanto, fazer uma distinção clara. O Projeto Sururu resolve um problema pontual e localizado, relacionado aos resíduos gerados após a coleta do molusco pelas comunidades tradicionais. Isso não significa que as conchas de sururu que chegam naturalmente às praias devam ser recolhidas. 

Essas conchas fazem parte do funcionamento ecológico do ambiente costeiro e precisam permanecer onde estão, cumprindo seu papel como abrigo, substrato e fonte de minerais para o ecossistema. 

Sururu na Ilha do Boi, em Vitória-ES.
Sururu na Ilha do Boi, em Vitória-ES.

Um efeito pequeno que se soma

É verdade que retirar uma concha não causa um colapso imediato. Mas a conservação raramente se perde em grandes gestos isolados. Ela se desgasta na soma de pequenas perdas contínuas.

Milhões de pessoas coletando conchas ao longo dos anos alteram a disponibilidade de abrigo, interferem no ciclo do carbonato de cálcio, aumentam a vulnerabilidade da praia à erosão e empobrecem a biodiversidade local. O impacto é silencioso, progressivo e real.

O que diz a ciência e a lei?

Especialistas em sistemas costeiros explicam que as conchas têm sua função. No Brasil, órgãos como o ICMBio e o Ministério do Meio Ambiente desaconselham a retirada de conchas, corais e outros elementos naturais do ambiente costeiro. A recomendação é clara: levar apenas memórias e fotografias.

A compra, venda e comercialização de conchas, corais e estrelas-do-mar é considerada crime ambiental, sujeita a multa e até detenção. Mesmo quando há interpretações mais permissivas sobre a coleta pontual de conchas vazias por turistas, o consenso técnico é que a prática causa desequilíbrio, quando feita em larga escala.

Uma memória pessoal

Quando eu era criança, lembro de encontrar uma diversidade muito maior de conchas nas praias. Conchas grandes, diferentes, únicas. Hoje, tenho a sensação de que elas diminuíram, especialmente as de maior porte. 

Não tenho um dado científico sobre essa questão, e provavelmente ela pode estar associado a um conjunto de fatores como a crise climática e desequilíbrios provenientes da superexploração dos recursos pesqueiros, porém essa é uma percepção pessoal, construída ao longo do tempo, caminhando pelas mesmas faixas de areia.

E essa sensação se repete em muitas conversas com pesquisadores e moradores antigos do litoral.

O que ajuda o oceano

Se a vontade é cuidar da praia, existe um gesto simples e poderoso. Em vez de recolher conchas, recolha lixo e dê a destinação correta. Bitucas de cigarro, plástico, embalagens, linhas de pesca. 

É importante também cobrarmos nossos políticos no sentido de criarem políticas públicas que tratem da poluição, perca industrial e a crise ambiental pela qual passamos. Isso sim faz diferença positiva.

Deixar as conchas onde estão é um ato de respeito ao ciclo natural. Um compromisso silencioso com os animais que dependem delas. Uma forma de garantir que outra pessoa, talvez uma criança, experimente a mesma surpresa de encontrar uma concha pela primeira vez e admirá-la, para ensinarmos mais uma vez, que da praia, devemos levar apenas boas memórias,

A praia não precisa ser imaculada. Precisa estar viva.

Leonardo Merçon

Fotógrafo de Natureza, Cinegrafista e Produtor Cultural

Fundador e diretor voluntário do Instituto Últimos Refúgios, OSC ambiental/cultural sem fins lucrativos, que atua desde 2011 na divulgação e sensibilização ambiental, estimulando o diálogo entre sociedade, organizações ambientais, instituições privadas e governamentais. Fotógrafo de natureza, documentarista desde 2004, Merçon é focado na proteção da natureza, com Mestrado em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento sustentável pela ESCAS/Instituto IPÊ. Também formado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Estudou fotografia voltada para publicações na Academia de Mídias e Artes, na Alemanha. O colunista acredita e trabalha em atividades de sensibilização ambiental (em especial com crianças) e fomento do turismo relacionado à natureza. Leonardo Merçon também tem dezenas de livros impressos e documentários em vídeo publicados. Realiza trabalhos ajudando a contar histórias por meio de imagens em mídias nacionais e internacionais, como a BBC de Londres e National Geographic Brasil, dentre outras.

Fundador e diretor voluntário do Instituto Últimos Refúgios, OSC ambiental/cultural sem fins lucrativos, que atua desde 2011 na divulgação e sensibilização ambiental, estimulando o diálogo entre sociedade, organizações ambientais, instituições privadas e governamentais. Fotógrafo de natureza, documentarista desde 2004, Merçon é focado na proteção da natureza, com Mestrado em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento sustentável pela ESCAS/Instituto IPÊ. Também formado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Estudou fotografia voltada para publicações na Academia de Mídias e Artes, na Alemanha. O colunista acredita e trabalha em atividades de sensibilização ambiental (em especial com crianças) e fomento do turismo relacionado à natureza. Leonardo Merçon também tem dezenas de livros impressos e documentários em vídeo publicados. Realiza trabalhos ajudando a contar histórias por meio de imagens em mídias nacionais e internacionais, como a BBC de Londres e National Geographic Brasil, dentre outras.