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A União Europeia quer flexibilizar regras ambientais. Mas o que isso realmente significa para o futuro da sustentabilidade?

Tenho acompanhado as excelentes publicações da Dra. Denise Curi, e compartilho na coluna.

Autora: Denise Curi, PhD | Mentora e consultora em Sustentabilidade/ESG | Integro impacto e estratégia para resultados reais)

8 de dezembro de 2025

Hoje, a Reuters divulgou que a União Europeia prepara um rascunho para enfraquecer várias exigências ambientais aplicadas às empresas.

  • Menos reporte.
  • Menos sistemas de gestão ambiental.
  • Menos obrigações ligadas ao uso de químicos perigosos.
  • Menos detalhe sobre água, energia e emissões.

A justificativa oficial é a redução da burocracia para aumentar competitividade.

Mas, quando falamos de sustentabilidade, nada é tão simples quanto parece.

Por trás dessa decisão existe um movimento mais profundo — e é isso que precisamos entender.

1. A Europa está entrando num novo ciclo: o da maturidade regulatória.

Durante mais de uma década, a UE foi a vanguarda das ambições ambientais: Taxonomia, CSRD, ESRS, Fit for 55. Parecia haver consenso de que transparência e rigor seriam os pilares de um novo modelo econômico.

Mas… 2025 trouxe um choque de realidade, agravado pelo posicionamento dos Estados Unidos em relação às tarifas de importação e a continuidade da Guerra da Ucrânia, que parece cada vez mais longe de encontrar uma solução.

O resultado é evidente:

  • Empresas pressionadas.
  • Custos subindo.
  • Concorrência feroz de blocos com políticas industriais agressivas.
  • Uma sociedade dividida entre preocupação climática e medo econômico.

Flexibilizar regras não é um retrocesso declarado. É uma tentativa de equilibrar prioridades — e isso revela a tensão que sempre existiu, mas raramente foi admitida:

competitividade versus ambição ambiental.


2. Quando a regulação afrouxa, algo muito importante acontece: o risco não diminui. Apenas fica menos visível.

  • Menos reporte não significa menos poluição.
  • Menos exigência não significa menos impacto.
  • Menos burocracia não significa menos risco.

Significa apenas que o que antes era rastreado, monitorado e comunicado, agora pode ficar escondido nos silos internos, longe dos olhos de investidores, reguladores e sociedade.

E, num mundo onde confiança é o ativo central da economia, reduzir visibilidade é um movimento perigoso.

Quem perde a capacidade de ver, perde a capacidade de gerir.

3. Empresas europeias podem até reportar menos. Mas o mercado continuará a exigir mais.

É aqui que o debate ganha profundidade.

Mesmo que a UE reduza obrigações legais, nada muda para investidores institucionais, bancos, fundos de impacto, organismos multilaterais e para as cadeias globais de fornecimento.

A pressão por dados continuará — e, em muitos casos, aumentará.

  • Planos de transição continuam.
  • Exigências climáticas continuam.
  • Financiamento sustentável continua.
  • Materialidade, due diligence, emissões e rastreabilidade continuam.

Ou seja:

A lei pode pedir menos, mas o mercado não recua.

4. E para países fornecedores — como o Brasil — o efeito é inverso: aumenta a pressão.

Se a Europa decide flexibilizar internamente, ela compensa exigindo mais da sua cadeia global.

É uma lógica simples:

Se eu não controlo tudo dentro de casa, passo a controlar melhor quem entra pela porta.

Isso significa que setores brasileiros — agronegócio, moda, alimentos, mineração, logística, florestal — continuarão sob o radar das exigências europeias.

E a lacuna criada dentro da Europa será preenchida fora dela, com mais:

  • auditorias de risco
  • rastreabilidade
  • comprovação de práticas ambientais
  • monitoramento de emissões
  • requisitos de conformidade ESG

Para consultores brasileiros, isso não reduz demanda. Amplia.

A Europa pode flexibilizar normas domésticas, mas não pode flexibilizar a confiança que exige dos parceiros comerciais.

5. A verdadeira mudança não é regulatória. É estrutural.

Estamos a assistir ao início de uma transição em que:

  • regulação deixa de ser o motor principal da sustentabilidade
  • mercado e geopolítica passam a definir o ritmo
  • autorregulação ganha protagonismo
  • gestão de risco substitui checklists
  • competitividade verde torna-se diferencial estratégico, não obrigação

Isso exige outro tipo de profissional. Não o consultor que responde a formulários, mas o que entende sistemas. Não o que “preenche requisitos”, mas o que interpreta incertezas. Não o que traduz normas, mas o que traduz riscos.

6. Então, o que a decisão da UE realmente nos diz?

Que sustentabilidade entrou numa nova era.

  • Menos burocrática.
  • Mais estratégica. Menos normativa.
  • Mais geopolítica.
  • Menos previsível.
  • Mais exigente.

E, sobretudo, mais dependente de profissionais capazes de navegar contradições.

Porque quando o cenário é claro, todos sabem o que fazer. Mas quando o cenário se torna ambíguo — como agora — quem sabe pensar, analisar e antecipar vira referência.

A pergunta não é se a UE está retrocedendo

A pergunta é: quem vai liderar neste novo terreno em que o regulador recua, mas os riscos avançam?

E, para quem trabalha com sustentabilidade, esta é menos uma ameaça e mais uma convocação.

Celso Bastos

Colunista

Arquiteto e Urbanista, Mestre em Engenharia Civil e Doutor em Engenharia Ambiental, é Sócio fundador da NB Projetos Ltda. (projeto e consultoria), Diretor Técnico da OUT arquitetura & engenharia, Coordenador do Clube de Economia Circular – Vitória (Londres), Ambassador in Brazil of the International Circular Construction Cluster (ICCC). (Eslovênia), Profissional com mais de 40 anos de atuação na área de projetos, e construções, como foco na Sustentabilidade, Economia Circular e Construção Circular.

Arquiteto e Urbanista, Mestre em Engenharia Civil e Doutor em Engenharia Ambiental, é Sócio fundador da NB Projetos Ltda. (projeto e consultoria), Diretor Técnico da OUT arquitetura & engenharia, Coordenador do Clube de Economia Circular – Vitória (Londres), Ambassador in Brazil of the International Circular Construction Cluster (ICCC). (Eslovênia), Profissional com mais de 40 anos de atuação na área de projetos, e construções, como foco na Sustentabilidade, Economia Circular e Construção Circular.