A esquerda biquíni feito por Lúcia Magesky e a direita por Fernanda Ferreira (Foto: Arquivo pessoal)
À esquerda, biquíni feito por Lúcia Magesky e è direita, modelo criado por Fernanda Ferreira (Foto: Arquivo pessoal)

O crochê deixou definitivamente de ocupar um lugar restrito à memória afetiva ou ao artesanato doméstico e passou a integrar, de forma consistente, o vocabulário da moda contemporânea, especialmente no verão.

A técnica manual, que por décadas foi associada a toalhas, tapetes e peças utilitárias, hoje aparece ressignificada em biquínis, croppeds, vestidos, calças, saídas de praia, bolsas e acessórios que se espalham pelas praias, vitrines e redes sociais.

Segundo a artesã e criadora da Aloha Crocheteria, Fernanda Ferreira Correa, de 38 anos, que atua há anos no segmento, a tendência não se limita a um item específico.

Nesse verão vai ser usado tudo em crochê: chinelo, biquíni, calça, saia, vestido, brinco, colar, bolsa. Você olha em volta e sempre tem alguém usando alguma peça.

Fernanda Ferreira Correa, artesã e criadora da Aloha Crocheteria

O destaque fica por conta das texturas: tramas mais fechadas, pontos mais encorpados e peças que dispensam estampas, justamente porque o desenho do crochê assume o papel principal no visual.

Essa ascensão não acontece por acaso. Em um cenário marcado pela busca por autenticidade, conforto e singularidade, o crochê se encaixa perfeitamente no espírito da estação mais quente do ano. As peças dialogam com o clima tropical, permitem liberdade criativa e carregam um diferencial cada vez mais valorizado: nenhuma é exatamente igual à outra.

Uma técnica que atravessa gerações

Biquíni e acessórios feitos por Lúcia Magesky (Foto: Arquivo pessoal)
Biquíni e acessórios feitos por Lúcia Magesky (Foto: Arquivo pessoal)

Para quem acompanha essa trajetória há décadas, a mudança é evidente. A artesã aposentada Lúcia Magesky, de 74 anos, aprendeu a fazer crochê ainda na infância, aos 9 anos, ensinada por uma tia idosa. Naquela época, o trabalho manual estava longe de ser reconhecido como moda ou atividade econômica relevante.

O crochê era visto como coisa de gente mais velha, não tinha valor comercial e ainda era considerado brega. Hoje, ver jovens interessados, usando e valorizando essa arte é algo que me emociona. O crochê ganhou espaço, reconhecimento e virou tendência.

Lúcia Magesky, artesã e aposentada

Segundo Lúcia, o verão potencializa essa visibilidade. As peças artesanais, além de funcionais, carregam identidade e personalidade, algo que conversa diretamente com o comportamento atual do consumidor.

No verão, o crochê aparece com muita força em biquínis, vestidos, quimonos, pantalonas, tops e bolsas. São peças que unem moda, conforto e história.

Lúcia Magesky, artesã e aposentada

Do afeto ao mercado

Roupas feitas por Fernanda Ferreira (Foto: Arquivo pessoal)
Roupas feitas por Fernanda Ferreira (Foto: Arquivo pessoal)

Se antes o crochê era feito quase exclusivamente para uso próprio ou para presentear familiares, hoje ele ocupa espaço também no mercado da moda e da economia criativa. Fernanda Ferreira acompanha de perto essa transformação. Para ela, o verão é disparado o período mais intenso de produção e vendas.

Fernanda explica que a técnica deixou de ser vista apenas como algo artesanal e passou a ser desejada justamente por isso. A exclusividade do feito à mão se transformou em valor agregado, especialmente em um mercado saturado por produções em larga escala.

Influência das redes e das famosas

Famosas apostam em biquínis para o verão 2026 (Foto:Instagram @virginia/@lexa/@brunagriphao)
Famosas apostam em biquínis para o verão 2026 (Foto:Instagram @virginia/@lexa/@brunagriphao)

A popularização do crochê também passa pelas redes sociais e pela adesão de celebridades e influenciadoras. Peças usadas por nomes como Virgínia, Anitta e outras figuras públicas impulsionam o desejo, criam tendências e ajudam a reposicionar o crochê como item fashion — inclusive no segmento de luxo.

A gente vê vestidos de crochê na internet que chegam a custar quase quatro mil reais. Claro que ali tem marca, visibilidade e marketing, mas também mostra como o crochê passou a ser visto como algo valioso.

Fernanda Ferreira Correa, artesã e criadora da Aloha Crocheteria

Na produção artesanal local, os valores são mais acessíveis. Um biquíni de crochê, por exemplo, pode custar a partir de R$ 120, variando conforme o modelo, o fio utilizado e o nível de complexidade da peça.

Produção sob demanda e ritmo intenso

Biquíni e bolsa feitos por Fernanda Ferreira (Foto: Arquivo pessoal)
Biquíni e bolsa feitos por Fernanda Ferreira (Foto: Arquivo pessoal)

Ao contrário da moda industrial, o crochê exige tempo, técnica e dedicação. No verão, esse processo se intensifica. Fernanda explica que o período de maior demanda começa no fim do ano e segue até depois do Carnaval.

A produção começa forte no Natal e só desacelera depois do Carnaval. Um biquíni pode levar de 7 a 15 dias para ficar pronto, dependendo do modelo. No verão, a gente praticamente não para.

Fernanda Ferreira Correa, artesã e criadora da Aloha Crocheteria

As encomendas mais frequentes incluem biquínis, croppeds, saídas de praia, shorts, tops e calças mais amplas, como pantalonas. Muitas clientes buscam peças personalizadas, ajustadas ao corpo e à identidade de quem vai usar — algo que o crochê permite como poucas técnicas.

Cores, texturas e comportamento

A cartela de cores do verão reforça ainda mais a presença do crochê. Tons vibrantes, como verde-bandeira, amarelo e azul, dividem espaço com cores neon, como rosa-choque e laranja. O off-white segue como clássico absoluto, agora frequentemente combinado com o marrom, apontado por artesãs como “o novo preto” da estação.

Mais do que as cores, as texturas ganham protagonismo. Tramas mais fechadas, crochês estruturados, fios encorpados e superfícies com relevo substituem estampas e reforçam o apelo visual das peças. O resultado são roupas e acessórios que se destacam pelo acabamento e pela riqueza de detalhes.

Para Fernanda, o crescimento do crochê entre jovens é um dos aspectos mais significativos desse momento. Embora suas clientes mais fiéis ainda sejam mulheres acima dos 30 anos, o interesse de adolescentes e jovens adultos cresce impulsionado por plataformas como TikTok e Instagram.

Hoje tem muita gente nova aprendendo crochê, postando vídeos, viralizando. É algo muito positivo, porque tira o jovem um pouco da tela e estimula criatividade, concentração e até empreendedorismo.

Fernanda Ferreira Correa, artesã e criadora da Aloha Crocheteria

Ela destaca ainda o impacto emocional da técnica. “O crochê é terapêutico. Ajuda a aliviar ansiedade, estresse, depressão. Além disso, pode virar renda e independência financeira. Não é só moda”, afirma.

O fortalecimento do crochê como tendência de verão revela uma mudança mais profunda no modo de consumir moda. Em vez da pressa e da padronização, cresce o interesse por peças com história, identidade e propósito. O crochê, ponto a ponto, representa essa transição: une passado e presente, afeto e mercado, tradição e contemporaneidade.

Sob o sol do verão, ele deixa de ser apenas lembrança das avós e se afirma como símbolo de um novo olhar sobre moda, consumo e expressão pessoal.

Leiri Santana, repórter do Folha Vitória
Leiri Santana

Repórter

Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e especializada em Povos Indígenas.

Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e especializada em Povos Indígenas.