
A moda ocupa hoje um lugar central no debate sobre sustentabilidade. Apontado como o segundo setor mais poluente do planeta – atrás apenas da indústria petrolífera –, o segmento têxtil enfrenta o desafio de conciliar produção, consumo e preservação ambiental em um cenário marcado pelo avanço do fast fashion, pelo descarte acelerado de roupas e pelo uso intensivo de recursos naturais.
Os números ajudam a dimensionar o problema: conforme dados divulgados pela Agência Brasil, com base em levantamento da consultoria S2F Partners, cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartadas anualmente pelos lares brasileiros.
Somente em 2024, cada residência do País jogou fora, em média, 44 quilos de roupas e calçados. Parte desse material permanece no ambiente por longos períodos: alguns tecidos levam de cinco a dez anos para se decompor, enquanto outros podem demorar centenas de anos.
O impacto ambiental não se restringe ao descarte. O estudo também indica que o setor têxtil seja responsável por entre 2% e 8% das emissões de gases de efeito estufa no mundo e consuma cerca de 215 trilhões de litros de água, por ano, volume equivalente a aproximadamente 86 milhões de piscinas olímpicas.
Para especialistas, esses dados revelam um modelo de produção e consumo que se tornou insustentável.

Diante dessa realidade, cresce o número de iniciativas que defendem uma moda criativa e consciente: capaz de gerar renda, inovação e inclusão social sem ampliar os danos ao meio ambiente.
O lixo fashion
A designer de moda Pandora da Luz, especialista em sustentabilidade, economia circular e ASG (ações ambientais, sociais e de governança), avalia que o problema se agravou ainda mais com a popularização das roupas de poliéster e com a lógica do fast fashion.

Depois do sistema petroquímico, a maior poluidora é a moda, principalmente com o advento das roupas de poliéster, porque o reaproveitamento delas é complicado. O fast fashion produz uma quantidade imensa de roupas, três vezes mais do que seria necessário para vestir o mundo inteiro.
Pandora da Luz.
Pandora relata que seu interesse pela sustentabilidade surgiu inicialmente pela falta de acesso a recursos durante a formação em moda, mas logo se transformou em uma escolha consciente diante da dimensão do problema.
“Eu percebi que não era só um greenwashing, um ‘vamos fazer algo ambiental’. A coisa é muito séria”, diz. Para ela, a lógica de produzir em excesso para vender rapidamente gera consequências graves, muitas vezes invisibilizadas.
Um dos exemplos citados pela designer é o descarte de roupas em regiões afastadas dos grandes centros. “No deserto do Atacama, por exemplo, existem toneladas de roupas descartadas, jogadas ali como lixo. Várias praias e países da África também recebem essas roupas, que acabam poluindo mares e ecossistemas”, relata.
No deserto do Atacama, no Chile, são descartadas, de forma clandestina em meio às paisagens naturais, por ano, quase 40 toneladas de roupas. Um relatório da Global Fashion Agenda mostra que, nos últimos anos, o acumulado ultrapassa 92 milhões de toneladas de resíduos da indústria têxtil.

Pandora critica ainda práticas adotadas por grandes marcas para impedir o reaproveitamento das peças. “Em muitos casos, as roupas são cortadas antes de serem descartadas para que ninguém possa usar. Isso revela a ganância de parte da grande indústria da moda.”
Apesar das críticas, Pandora ressalta que existem caminhos possíveis. “Não estou falando de toda a moda. Há muita gente produzindo moda consciente”, pondera.
Economia circular como alternativa
Entre as alternativas possíveis para uma moda mais sustentável, Pandora destaca o fortalecimento dos brechós, a distribuição de roupas para projetos sociais e parcerias entre grandes marcas, ateliês e iniciativas comunitárias.
Existem várias possibilidades, desde que as pessoas estejam dispostas a contribuir com o mundo, gerar renda e trabalho para pessoas em vulnerabilidade, sem poluir o planeta.
Pandora da Luz.
A urgência dessas mudanças, segundo a designer, é reforçada pelos compromissos globais de sustentabilidade. “Quando surgiram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a ideia era avançar até 2030. Mesmo com a ampliação desse prazo, as pessoas e as indústrias ainda não tomaram a consciência necessária. Parece conveniente usar, abusar e não deixar nada para a próxima geração”, afirma.
O nosso objetivo, de quem trabalha com isso, é ainda deixar um planeta para a geração que virá.
Na mesma linha, a professora da Faesa Bruna Dezan, especialista em design sustentável e ético, destaca que o impacto ambiental da moda ocorre ao longo de toda a cadeia produtiva. Segundo ela, a poluição começa na indústria, mas também passa pelo consumo doméstico. “Até ao lavar uma roupa a gente polui, pelos resíduos que vão para a água.”

Para Bruna, a resposta passa pela adoção efetiva da economia circular, com foco no reúso, no upcycle e no aproveitamento de resíduos. O upcycle, segundo ela, consiste em agregar valor a uma peça de menor valor, tornando-a mais atrativa para o mercado. Na prática, esse conceito já vem sendo trabalhado na formação de novos profissionais.
Com os alunos, a gente desenvolve projetos que não utilizam matéria-prima comprada, apenas reutilizada. Pegamos resíduos têxteis e transformamos em novas roupas.
Bruna Dezan.
Além da criação, a professora ressalta que a sustentabilidade pode ser incorporada desde a gestão. “É possível mudar desde o setor administrativo, evitando a impressão de papéis desnecessários, desenvolvendo modelagens ou primeiras peças diretamente dentro de sistemas, evitando muita confecção de peças, que também é um problema do setor”, afirma.
Para ela, tais estratégias, somadas, ajudam a reduzir resíduos e estimulam uma reflexão mais profunda sobre o consumo, essencial em um contexto marcado pelo fast fashion e facilidades como as lojas online.
A cada momento as redes sociais estão bombardeando a gente de necessidades que a gente não tem. E aí eles criam essa necessidade e você vai lá e quer consumir aquele produto. Mas aquele produto faz sentido para você? Ou você só está indo na onda do consumismo?
A fim de propor reflexão, ela questiona: “Será que a gente precisa de mais um look ou pode reinventar o que já tem?”. A professora defende o uso de peças versáteis, com design contemporâneo, que possam ser usadas em diferentes ocasiões, conciliando sustentabilidade e mercado.
Reúso e upcycle na prática
A vivência acadêmica tem mostrado que essa mudança de mentalidade é possível. Alunos da Faesa desenvolveram recentemente um look 100% reaproveitado, utilizando apenas retalhos disponíveis na instituição e peças usadas.
“Foi muito importante começar a trabalhar com isso logo cedo, porque a moda é um dos setores que mais polui”, relata o estudante Ryan Bullerjhan Souza que, após iniciar o curso, passou a consumir mais em brechós e a trocar roupas e acessórios como forma de reduzir o consumo.

O look criado pelos estudantes foi inspirado em uma colega e pensado para uso em festas, com estética mais bruta e “destroyed”. Retalhos de tecido e até um biquíni usado foram transformados em novas peças, reforçando a proposta do upcycle como ferramenta criativa e sustentável. Para os alunos, essa experiência ajuda a preparar o olhar para os desafios que virão no mercado de trabalho.
A Faesa também mantém parcerias que ampliam o alcance social dessas práticas, como o projeto desenvolvido com o Asilo dos idosos de Vitória. O espaço funciona como brechó e bazar, sendo utilizado tanto pela comunidade quanto pelos alunos, que desenvolvem peças a partir do material disponível.
A iniciativa fortalece a economia circular, promove o reaproveitamento de roupas e aproxima a formação acadêmica de ações concretas de impacto social e ambiental.
Em um setor historicamente associado ao excesso, à rapidez e ao descarte, experiências como essas mostram que a moda pode seguir outros caminhos. Entre dados alarmantes e iniciativas locais, especialistas e estudantes defendem que empreender sem agredir o planeta não é apenas possível, mas urgente — e começa pela forma como se produz, se consome e se atribui valor às roupas que vestimos.