A moda criativa — baseada em produção autoral, pequena escala e forte identidade — tem se consolidado como um dos caminhos mais promissores da economia criativa no Brasil. 

Em um país onde o setor têxtil e de confecção faturou R$ 203,9 bilhões, em 2024, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), e onde o consumo de peças de vestuário cresceu 42%, nos últimos 25 anos, de acordo com o IEMI – Inteligência de Mercado, a oportunidade vai muito além das grandes fábricas e redes varejistas.

A expansão do e-commerce, a busca por conforto, preço justo, identidade e utilidade estão mudando a forma como as pessoas consomem moda — e abrindo espaço para pequenos empreendedores, artesãos, designers autorais e criadores de conteúdo.

Moda criativa passa por transformações significativas tanto na criação quanto no consumo. Foto: Canva

Pequena escala, grande valor

Para a professora de Moda da Faesa Marielle Vasconcellos, a moda criativa nasce justamente desse novo comportamento do consumidor.

Marielle VAsconcellos, professora de moda da Faesa.
Professora defende que produtos artesanais têm valor agregado maior devido à paciência e manualidade implementadas no produto. Foto: Reprodução/TV Vitória

A moda criativa encontra espaço em produções em pequena escala, num processo mais lento, com significado emocional e um toque humano. Isso é reflexo de uma mudança de comportamento de consumo, porque hoje nós temos um consumidor mais consciente, que valoriza a arte, o significado cultural e um processo mais transparente de criação.

Marielle Vasconcellos.

Grande parte dessa transformação no mercado da moda se dá pelo aumento de informações disponíveis sobre o setor. Além disso, a professora destaca que o crescimento das redes sociais e das plataformas digitais ajudou a democratizar o acesso ao conhecimento técnico, o que impulsiona o empreendedorismo.

“Hoje existe um compartilhamento de muitos tutoriais ensinando as pessoas a bordar, a costurar, a fazer modelagem, crochê, tricô. Isso promove o empreendedorismo na economia criativa, porque você pode desenvolver isso em pequena escala.”

Dessa maneira, o tempo e o cuidado agregam valor ao produto, em oposição ao modelo de fast fashion, que reproduz em larga escala opções padronizadas e sem identidade local. Segundo Marielle, “tudo que é feito com mais tempo tem mais valor de mercado.”

Por isso, inclusive, a professora defende que os empreendedores que fazem seus produtos de maneira artesanal devem saber precificá-los, tanto pela sustentabilidade do negócio, quanto pela mão de obra que exige paciência, diferentemente do processo industrial.

Criar com identidade para se destacar

Para transformar a arte em negócio, então, é necessário, além de talento, estratégia. O primeiro passo é identificar vazios e lacunas e buscar maneiras de preenchê-los de forma autêntica e única, diferenciando-se do que já existe.

“A mentalidade de designer busca resolver um problema: atender uma demanda, criar um diferencial. A autenticidade vem quando existe uma identidade criativa. O ponto de partida é essa identidade do autor”, defende Marielle.

O segundo passo fundamental, para a professora, é realizar pesquisas de mercado constantemente, tanto fisicamente, quanto de maneira online. O importante é analisar o comportamento das pessoas. 

“É para buscar o que é excesso de oferta e o que está faltando. Observar o que as marcas têm, os artesãos que já estão produzindo, as comunidades locais e o que as pessoas estão buscando.”

Loja de roupas
Transformar arte criativa em negócio depende de talento e estratégia. Foto: Canva

Marielle também ressalta que esse olhar para os negócios precisa ser estimulado desde a formação. Segundo ela, os estudantes de Moda devem aprender a reconhecer o valor das técnicas artesanais e fazer interpretações contemporâneas delas. 

Ao unir tradição e originalidade, os novos profissionais, então, desenvolvem a capacidade de levar aos produtos história e cultura.

Nós temos um fenômeno muito especial que acontece, que é o encontro de gerações para promover esse design inovador. Muitos alunos têm apoio e orientação dos seus avós, dos seus pais. E eles trazem toda essa história.

Marielle Vasconcellos.

O começo do empreendimento, então, costuma ser simples. Muitos alunos montam ateliês em casa e, a partir disso, trabalham com a criatividade, estimulando o design autoral e as técnicas manuais.

Da máquina caseira à independência financeira

Um exemplo real de como a moda criativa pode mudar vidas é a trajetória de Adélia Barbosa da Silva, a Dilla, ex-aluna da Faesa e dona de uma loja de moda praia, em Vitória.

 Adélia Barbosa da Silva
Dilla começou a costurar em casa e hoje atende clientes em Vitória e na Europa. Foto: Reprodução/TV Vitória.

“Eu comecei na costura, em casa, com uma máquina pequenininha, fazendo blusinha e vendendo. Fui pegando gosto e senti a necessidade de estudar.”

Sem recursos para grandes investimentos, mas já sabendo que gostaria de atuar na área de moda praia, logo após finalizar o curso Dilla abriu uma loja pequena, que cresceu com o tempo.

“Montei aqui bem pequenininha, porque não tinha dinheiro para aluguel caro. E essa experiência está até hoje: tem 17 anos, fazendo biquíni, atendendo (os bairros) Santo Antônio, São Pedro, e até Portugal e Espanha.”

Com organização e reinvestimento dos lucros que conquista, principalmente no verão, ela construiu seu patrimônio e hoje a renda vem dos imóveis que comprou para alugar. 

Com o verão chegando, o faturamento aumenta uns 90%. Meu estoque é grande. Depois do carnaval, tenho margem para comprar carro, casa, o que eu quiser — e sempre escolho imóvel.

Adélia Barbosa da Silva.

Criatividade que fideliza clientes

Além da gestão, o diferencial de Dilla está no produto e na relação com o público.

“Eu brinco muito com a criatividade. Sei exatamente como criar minha coleção. Ligo para o representante e digo: ‘quero tal cor, tal estampa’. Sei o que tem no guarda-roupa das minhas clientes. Quando elas chegam, eu falo o que elas precisam levar.”

Criatividade e entender o cliente ajudam o negócio criativo a crescer. Foto: Canva

A confiança construída ao longo dos anos faz com que muitos clientes nem precisem experimentar as peças. Isso porque, segundo a designer e costureira, a modelagem utilizada é a mesma, apenas com melhorias ano após ano.

Onde estão as oportunidades

A moda criativa vai muito além de costurar roupas. Hoje, o setor oferece caminhos diversos para quem quer empreender:

Produção de peças
– Moda sob medida, moda praia, fitness, infantil, plus size
– Customização e upcycling (transformar peças usadas em novas para agregar valor)

Prestação de serviços
– Ajustes, consertos, consultoria de imagem, produção de moda

Revenda e curadoria
– Brechós, moda importada, marcas independentes

Conteúdo digital
– Instagram, TikTok, YouTube, cursos, e-books e afiliados

Empreendedorismo no setor
– Lojas, consultorias, gestão de redes sociais, eventos, design digital e modelagem 3D

Mercado recompensa quem se prepara

Com um mercado bilionário, consumo em alta e novos hábitos, a moda criativa se consolida como uma alternativa concreta de geração de renda.

Mas, como mostram a professora Marielle e a empresária Dilla, o sucesso exige mais do que talento: passa por estudo, organização, identidade criativa e visão de longo prazo.

Em um cenário onde o consumidor busca cada vez mais significado, transparência e autenticidade, criar moda deixou de ser apenas expressão estética — e se tornou, para milhares de brasileiros, um caminho real de independência e prosperidade.

Julia Camim

Editora de Política

Atuou como repórter de política em jornais do Espírito Santo e fora do Estado. Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa, é formada no 13º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.

Atuou como repórter de política em jornais do Espírito Santo e fora do Estado. Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa, é formada no 13º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.