Complexo militar Fuerte Tiuna, em Caracas, após ataque americano. Foto: STR
Complexo militar Fuerte Tiuna, em Caracas, após ataque americano. Foto: STR

O maior risco em 2026 não é uma guerra específica, mas a maneira como a violência tem deixado de causar espanto e se tornado parte do “novo normal”. O perigo real está na normalização da violência, quando o uso da força passa a ser tratado como ferramenta legítima e até aceitável de poder.

Os conflitos globais se acumulam em diversas regiões, com pontos de tensão na Europa, no Pacífico e na América Latina, com destaque aqui para a Venezuela, com foco potencial de escalada. E não é só a quantidade de conflitos armados que chama a atenção, mas a duração deles e a indiferença que despertam. Essas guerras deixaram de provocar o choque moral que antes mobilizava sociedades e governos.

Esse processo não é neutro nem difuso. Ele avança sobretudo a partir de potências e regimes que passaram a testar, de forma sistemática, os limites da ordem internacional, tratando acordos, fronteiras e normas como obstáculos temporários. A Rússia, ao recorrer à guerra como instrumento de revisão territorial e política, e a China, ao empregar coerção gradual e pressão estratégica como método de expansão de influência, contribuem decisivamente para essa banalização do uso da força. A violência deixa de ser exceção e passa a integrar a lógica cotidiana do poder.

Ao mesmo tempo, é preciso distinguir entre o uso legítimo da força por Estados submetidos a controles institucionais e o emprego arbitrário da violência como linguagem política primária. Quando a força deixa de estar subordinada ao direito, à previsibilidade e à responsabilidade institucional, ela deixa de ser dissuasão e passa a ser intimidação. Estados, milícias e cartéis passam então a recorrer à violência não como último recurso, mas como instrumento central de ação.

O cenário nuclear é emblemático. Em fevereiro expira o New START, último grande acordo de limitação de arsenais entre Estados Unidos e Rússia. Isso ocorre num ambiente marcado por modernizações militares aceleradas e novas pressões de proliferação na Ásia e no Oriente Médio. Armas que por décadas funcionaram como dissuasão extrema voltam a ser tratadas, por diferentes atores, como instrumentos de coerção política.

Quando a força passa a substituir a diplomacia, quando a intimidação vira método e o espetáculo ocupa o lugar da negociação, cria-se uma ilusão de controle, até que ele falha. A história mostra que grandes tragédias raramente surgem de um único gesto extremo, mas da soma de pequenas violações normalizadas, toleradas em nome da conveniência ou do cansaço moral.

O desafio de 2026 não é apenas evitar uma guerra, mas recuperar a capacidade coletiva de reconhecer limites, reafirmar regras e resistir à banalização da violência. Valorizar a diplomacia não significa abdicar da dissuasão, mas recolocá-la a serviço da ordem, da previsibilidade e da paz. É essa causa — menos retórica e mais institucional — que deve ocupar governos, alianças e cidadãos no ano que começa.

Redação Folha Vitória

Equipe de Jornalismo

Redação Folha Vitória é a assinatura coletiva que representa a equipe de jornalistas, editores e profissionais responsáveis pela produção diária de conteúdo do Folha Vitória. Comprometida com a excelência jornalística, a equipe atua de forma integrada para garantir informações precisas, atualizadas e relevantes, sempre alinhada à missão de informar com ética, democratizar o acesso à informação e fortalecer o diálogo com a comunidade capixaba. O trabalho do grupo reflete o padrão de qualidade da Rede Vitória de Comunicação, consolidando o veículo como referência em jornalismo digital no Espírito Santo.

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