
“Cuba e o Cameraman” é um documentário produzido por Jon Alpert, cineasta vencedor de 15 prêmios Emmy. Alpert acompanha por quatro décadas a vida de três famílias cubanas e o impacto da revolução castrista no cotidiano do povo em Cuba. Foram décadas conturbadas nas quais o totalitarismo se fez presente e trouxe maus momentos para as famílias em questão. Terra do rum, esportes ianques como o beisebol, lindas praias e povo acolhedor, a ilha caribenha que conhecemos pelo nome de Cuba sofreu uma revolução, tendo como Fidel Castro o seu principal nome. Castro foi primeiro-ministro de Cuba de 1959 a 1976, e depois presidente de 1976 a 2008.
A saga do jornalista e diretor do documentário começa na década de 70, acompanhando o desenrolar dos fatos após a Revolução Cubana. Portando uma câmera de vídeo portátil, algo bem inovador para a época, Alpert, sua esposa e seu assistente conseguiram entrar em Cuba para documentar o que se passava. Chegaram e estavam presentes no primeiro grande evento de Fidel: o Congresso do Partido Comunista. Pela câmera ser bastante pesada e usarem um carrinho de bebê para carregá-la, não passaram despercebidos nem pelo próprio Fidel, ocasião em que começaram a se aproximar do ditador cubano.
Na primeira visita, Alpert conheceu alguns moradores da cidade, os quais seriam seus companheiros por muitos anos. Calidad era uma menina que o jornalista entrevistou em Havana e sonhava ser enfermeira. Luís era um típico morador da capital, que se via entre bicos e serviços ilegais, como vendas no mercado negro local. E, finalmente, os simpáticos irmãos Borrego – Angel, Cristóbal e Gregório – que viviam em uma área rural próxima de Havana.
Em um primeiro momento e nas primeiras visitas de Alpert, Cuba se mostrava um lugar que funcionava. Saúde, educação, oportunidades e povo feliz. Nada parecia que daria errado. O ditador contava com grande adoração da população e tinha grande popularidade em todas as camadas sociais. As pessoas sonhavam com uma vida melhor e acreditavam que seria possível consegui-la em seu país.
Com o passar dos anos e com as visitas subsequentes, Alpert nos mostra Cuba patinando em gerar progresso para seu povo. Voltando aos personagens que ele acompanhava durante os anos, isso se mostrava com mais clareza. Calidad se casou muito jovem e teve filhos na sequência, desistindo de seu sonho de ser enfermeira. Ao visitar sua casa, não havia água corrente e sua geladeira estava com pouca comida. Ela deixava clara sua insatisfação e sua vontade de sair do país. Luís havia sido preso por continuar trabalhando no mercado negro, prática que grande parte da população se usava na época. Já os irmãos Borrego, sempre muito simpáticos e positivos, trabalhavam muito em sua propriedade rural e já sofriam com certa escassez de alguns tipos de alimentos e itens de necessidades básicas.
Com as frequentes visitas e seu carisma, Alpert foi se aproximando de Fidel e conseguiu por diversas vezes declarações e entrevistas inimagináveis para jornalistas americanos. Para a visita do ditador a Nova Iorque em um discurso da ONU, o cinegrafista viajou no avião cubano e trouxe momentos íntimos de Fidel de uma forma surpreendente.
Porém, o momento de relativa tranquilidade do ditador mudou bastante após a queda da URSS. Com ela, se foram os oito milhões de dólares que eram enviados para Cuba e o comércio existente entre as repúblicas socialistas virou pó. A escassez de todo o tipo de produto se tornava severa, entrega de medicamentos operava com 70% de falta e a pobreza e o caos estavam cada vez mais evidente.
Para as pessoas acompanhadas por Alpert durante todo esse tempo não poderia ser diferente. Calidad conseguiu se mudar para os EUA, conforme seu desejo, e somente seu filho foi encontrado. Ele também aguardava seu visto para encontrar com a sua mãe e estava vivendo uma vida bem complicada. Luís continuava tentando sobreviver de bicos e morando em um local sem saneamento e água encanada. Todavia, os irmãos Borrego pareciam viver a situação mais desesperadora. Com a fome crescente e escassez de alimentos, tiveram todos os animais de sua propriedade roubados e não possuíam meios para continuar produzindo.
Após alguns anos, e depois de ter visto o momento mais miserável da ilha, Alpert volta e se depara com um cenário bem distinto. Cuba havia se tornado um local completamente voltado para o turismo e profissionais capacitados encontravam em artesanatos para turistas sua fonte de sustento. Apesar de parecer um lugar mais próspero na visão dos visitantes, para a população os mesmos problemas continuavam. Cuba havia parado no tempo! Todo tipo de avanço na medicina e tecnologias usadas no cotidiano da época não existiam. A população parecia viver na mesma vida miserável por 40 anos. E a última visita de Alpert ocorre no ano da morte do ditador Fidel, quando se dá por encerrado o documentário.
O desenrolar dos anos mostrados pelo material jornalístico – muito rico, por sinal – é bem esclarecedor para o espectador. Apesar de não mostrar perseguições a liberdades individuais, nota-se um total fracasso da ideologia socialista. Mais uma vez, ao tentar se criar um governo totalitário, o resultado é a miséria, escassez e atraso em todos os sentidos.