
Empreendedores de sucesso nasceram com a dádiva do empreendedorismo? Ou seria possível ensinar, com método e muita disciplina, passos e etapas que, quando cumpridos, aumentam a chance de sucesso de um negócio para qualquer fundador? A obra “Empreendedorismo Disciplinado” traz uma metodologia estruturada para mostrar que sim, o empreendedorismo pode ser ensinado e desenvolvido.
Formado por Harvard e pelo MIT, o atual professor do MIT, Bill Aulet, escreveu essa obra após anos de observação de empreendedores que passaram por suas aulas, bem como de experiências investindo pessoalmente em empresas de tecnologia. O autor teve a intenção de consolidar ensinamentos de diversas fontes em uma única “caixa de ferramentas”, para ajudar tanto empreendedores experientes, quanto os que estão iniciando seu primeiro negócio, a colocar produtos no mercado com mais eficiência.
Já no início da obra, o autor quebra o mito do empreendedor solitário, carismático e naturalmente habilidoso. Na realidade, a maioria das empresas de sucesso foi iniciada por um pequeno grupo, não indivíduo, com habilidades e características complementares. O autor também deixa claro que sua obra não tem o foco de ajudar o empreendedor de negócios tradicionais, locais ou familiares, sem base tecnológica. Pela experiência do autor e pelo ambiente em que ele atua, as ferramentas do livro são focadas em ajudar o empreendedor mais ambicioso e tomador de maiores riscos, que busca criar negócios de abrangência global ou ao menos regional, voltados para a inovação.
Ao longo de vinte e quatro etapas, agrupadas em seis clusters, o autor traz metodologias para organizar o pensamento criativo e atacar problemas de uma maneira sistemática. Apesar da imagem romantizada do empreendedor caótico e desorganizado, que tem sucesso por seu brilhantismo, seguir algum tipo de orientação ou método é uma ótima forma de mitigar riscos. Em uma linguagem simples e fácil, a obra consegue clarear o caminho a ser seguido para que um negócio ou produto seja lançado ao mercado. Mesmo levando os ensinamentos para a realidade de negócios tradicionais, é possível perceber que muitas dessas etapas certamente foram cumpridas antes de a empresa ir a mercado. Desse modo, aprender os termos técnicos corretos, a linguagem do empreendedorismo e do mercado, pode ser muito útil para os fundadores e para os times em situações de diálogos com investidores, gestores de fundos, ou até mesmo em programas de fomento e aceleração, como elenca a obra.
Foco nas Necessidades do Cliente
Um grande ponto chave da obra é o que o autor traz como foco essencial para iniciar qualquer empreendimento: o foco nas necessidades do cliente. É muito comum o surgimento de negócios com base em alguma habilidade específica ou experiência pessoal do fundador. Se essa habilidade não se conectar diretamente com uma necessidade de mercado, uma dor ou um problema a serem resolvidos, dificilmente o negócio irá prosperar. Afinal, “a única condição necessária e suficiente para um negócio é um cliente pagante”. Se não existem pessoas dispostas a pagar pelo produto ou serviço, simplesmente não existirá negócio. Um levantamento mundial da empresa de pesquisas CB Insights feito em 2020 mostrou que a principal causa do fim de uma startup é a aposta em um negócio que não resolve um problema real de mercado. Assim, é criada “uma solução em busca de um problema”, o que não é sustentável.
Por outro lado, se o fundador percebe uma necessidade própria, que também é uma dor de mercado não atendida, com potencial para ajudar muitas outras pessoas, esse será o chamado “empreendedorismo do usuário”. Ter uma persona do produto ou serviço no time fundador aumenta muito as chances de sucesso do negócio.
Inovação e o Status Quo
O autor também reforça que não necessariamente o empreendedor precisa inventar algo. Na maioria dos casos, basta unir tecnologias e processos já existentes, criando um novo produto único. Esse é o caso de muitas gigantes de tecnologia, como o caso da Apple, por exemplo. Não foi a Apple quem inventou a tela sensível ao toque. Entretanto, combinando tecnologias existentes de maneira singular, o iPhone revolucionou a forma como nos comunicamos e interagimos.
Outro insight valioso tanto para negócios tradicionais, quanto para negócios de base tecnológica, é que muitas vezes o maior concorrente de uma empresa não é uma competidora que trabalha com produtos ou serviços similares. O maior concorrente pode ser o status quo do cliente – simplesmente o cliente não fazer nada, principalmente no caso de um produto totalmente inovador, nunca visto antes.
Por fim, vale frisar que a obra “Empreendedorismo Disciplinado” não tem a intenção de se estabelecer como a única metodologia possível para um empreendimento de sucesso, tampouco garante o sucesso de quem seguir à risca a metodologia. Na prática, a teoria nunca é perfeita para todas as situações. Contudo, esta é uma leitura prática e de grande valor para empreendedores e intraempreendedores, que pode ajudar negócios a vencerem suas curvas de aprendizado mais rápido e com menos falhas, desde que seus líderes se apoiem em método e disciplina.