
A Polícia Civil do Distrito Federal investiga a suspeita de que ex-técnicos de enfermagem de um hospital particular de Brasília tenham matado ao menos três pacientes ao aplicar uma substância letal. As mortes ocorreram no Hospital Anchieta, em Taguatinga, nos dias 19 de novembro e 1º de dezembro de 2025, mas o caso só veio a público nesta segunda-feira, 19.
Dois suspeitos, um homem e uma mulher, foram detidos no último dia 11, durante a deflagração da Operação Anúbis. Uma terceira investigada foi presa na quinta-feira, 15, quando policiais apreenderam dispositivos eletrônicos e outros elementos que podem auxiliar as apurações.
As investigações correm sob segredo de Justiça, e a polícia não divulgou os nomes dos envolvidos tampouco das vítimas.
“Mortos pela ação de quem deveria cuidar”
Em entrevista coletiva nesta segunda-feira, 19, o delegado Wisllei Salomão afirmou que as mortes são tratadas como homicídios. As vítimas, segundo ele, eram uma professora aposentada de 75 anos, um servidor público de 63 anos e um homem de 33 anos. “Eles foram mortos pela ação de quem deveria estar cuidando deles”, declarou.
De acordo com o delegado, as provas indicam que os três ex-técnicos de enfermagem injetaram um medicamento indevido nas vítimas.
“É um medicamento comum, usado nas UTIs, mas que, se aplicado diretamente na veia, como foi o caso, provoca parada cardíaca e a morte”, disse. A investigação analisou imagens das câmeras instaladas na UTI, prontuários médicos e colheu depoimentos de outros funcionários do hospital.
Segundo Salomão, um dos técnicos teria se aproveitado de um sistema aberto, logado em nome de médicos para prescrever o medicamento indevido em ao menos duas ocasiões, buscá-lo na farmácia, prepará-lo, esconder a seringa no jaleco e aplicá-lo em três pacientes.
O delegado afirmou ainda que as duas técnicas detidas foram coniventes. “Uma delas o auxiliou a buscar essa medicação na farmácia e também estava presente no momento em que o medicamento foi ministrado.”
Em um dos casos, além do medicamento, o técnico também teria injetado desinfetante. “Quando o medicamento acabou, ele pegou um desinfetante, colocou no copinho plástico, sugou o produto numa seringa e injetou por mais de dez vezes em uma das pacientes”, relatou o delegado.
Hospital diz que demitiu suspeitos
Em nota, o Hospital Anchieta informou que demitiu os três auxiliares e acionou a Polícia Civil após um comitê interno identificar “circunstâncias atípicas” nas mortes ocorridas na UTI.
Segundo a instituição, em menos de 20 dias a investigação interna reuniu evidências envolvendo os ex-funcionários, que foram compartilhadas com a polícia. O hospital declarou solidariedade às famílias das vítimas e afirmou colaborar de forma “irrestrita e incondicional” com as autoridades.
Suspeitos têm entre 22 e 28 anos
Ainda conforme a Polícia Civil, o técnico acusado de aplicar as substâncias letais tem 24 anos, é estudante de fisioterapia e, após ser demitido do Anchieta, continuou trabalhando em uma UTI infantil. As duas técnicas presas têm 28 e 22 anos; uma delas já havia atuado em outros hospitais, enquanto a outra estava em seu primeiro emprego na área.
Os três investigados estão presos temporariamente por 30 dias. “A investigação continua. Vamos identificar se outras pessoas contribuíram para esses crimes e instaurar procedimentos para verificar, nos hospitais onde essas pessoas trabalharam, se ocorreram mortes com o mesmo padrão”, disse Salomão. Segundo ele, celulares e computadores apreendidos também serão analisados para esclarecer a motivação dos crimes.
Procurado, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios informou que, ao receber o procedimento investigatório, avaliará as medidas cabíveis./Com informações da Agência Brasil