A família de José Arthur Moreto, de 22 anos, que morreu após ser baleado na perna pelo primo, um policial militar, durante uma confusão em Vila Velha, veio a público defender a imagem do jovem e rebater “narrativas” que imputem ao rapaz alguma responsabilidade pelo que aconteceu.
A mãe de José, Kelly Cristina Moreto, disse à reportagem da TV Vitória/Record que o jovem era universitário, trabalhador e não tinha envolvimento com crimes. “Meu filho é um inocente, morreu inocente”, desabafou a mãe.
O advogado da família de José Arthur, Maurício Wernersbach Chaves, reforçou a vontade da família de esclarecer os fatos. “O que queremos é mostrar quem o José Arthur realmente era: um jovem de 22 anos, trabalhador, universitário e sem qualquer histórico criminal”, registrou.

A defesa da família também se manifestou por nota. “Neste momento, a família requer respeito à memória de José Arthur, cautela na divulgação de informações e a abstenção de juízos precipitados, permitindo que a apuração transcorra com a necessária lisura institucional”, diz o texto enviado.
Entenda o caso
O jovem morreu após ser baleado pelo próprio primo, um soldado da Polícia Militar. O crime aconteceu dentro da residência da família durante uma briga na manhã de segunda-feira (5), no bairro Ilha dos Bentos, em Vila Velha.
De acordo com informações colhidas no local, a tensão começou ainda no domingo (4), quando José Arthur foi detido pela Guarda Municipal de Vila Velha, suspeito de envolvimento em um crime.
Na ocasião, não foi detalhado qual era o caso, mas, depois, a família contou que houve uma confusão em uma distribuidora de bebidas por causa de rojões que estariam sendo disparados.
“O problema que teve lá na distribuidora foi um problema, um acaso, o pessoal soltando rojão. Então levaram ele, foi apenas conduzido, mas voltou no mesmo dia”, disse a mãe do rapaz.
A Polícia Civil, porém, chegou a informar que José foi autuado em flagrante por tentativa de lesão corporal, injúria e ameaça devido à confusão ocorrida.
Após José ser liberado da delegacia, a família teria manifestado que o jovem não deveria retornar à residência, onde ele morava com a avó, o tio (sargento da PM) e o primo (soldado autor do disparo).
No entanto, testemunhas relataram que o jovem tentou invadir a casa na madrugada, sem sucesso, retornando na manhã de segunda-feira (5). Ao entrar, ele afirmou que buscaria apenas uma bicicleta e pertences pessoais, mas desistiu de sair, dando início a uma discussão.
Luta corporal e tiro na perna
O primo soldado pediu ajuda ao pai, que é sargento e estava de plantão. Ao chegar à casa, o sargento tentou conversar com o sobrinho, que estaria “transtornado”. Durante a discussão, José Arthur teria desferido um soco no peito do tio, iniciando uma luta corporal.
Alegando que temeu que o primo conseguisse tomar a arma do sargento durante o confronto, o soldado efetuou um único disparo, que atingiu a perna esquerda de José Arthur.
O jovem foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado ao Hospital Antônio Bezerra de Faria, mas não resistiu ao ferimento. De acordo com a Polícia Militar, a arma do soldado foi apreendida, seguindo o procedimento padrão da PM em casos de disparos efetuados por agentes.
A família de José Arthur é composta majoritariamente por militares. Fotos nas redes sociais mostram registros felizes, como a formatura do primo soldado em 2024, onde José Arthur aparece ao lado da mãe e do tio, ambos sargentos da PM.
A mãe do jovem estaria viajando pela Bahia quando recebeu a notícia da morte do filho. O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Vitória para liberação.

Policiais não foram autuados
O sargento e o soldado, tio e primo do rapaz, chegaram a ser conduzidos à delegacia, mas não foram autuados. Detalhes sobre os procedimentos adotados com os dois militares não foram divulgados e o caso segue sob investigação.
A Polícia Militar instaurou um inquérito e abriu procedimentos administrativos internos para apurar a conduta dos dois policiais envolvidos no caso. O advogado da família afirmou que a defesa confia no trabalho das autoridades e que, neste momento, aguarda o andamento das investigações conduzidas pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
A Associação dos Praças da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiro Militar do Espírito Santo informou que lamenta o ocorrido e está acompanhando o caso. A reportagem tenta localizar o soldado e o sargento da PM envolvidos no caso, mas ainda não teve sucesso. O espaço segue aberto para manifestações.
Leia na íntegra a nota enviada pela defesa da família de José:
“A família de José Arthur, por intermédio de seu advogado, vem a público manifestar-se acerca do homicídio que vitimou José Arthur, jovem de 22 anos, excelente filho, irmão, tio, estudante e trabalhador honesto.
Desde o início, a família tem colaborado integralmente com as investigações e confia no trabalho das instituições responsáveis pela investigação.
O ocorrido resultou na perda irreparável de uma vida e demanda apuração técnica, criteriosa e isenta, com base em provas objetivas, laudos periciais e demais elementos produzidos no curso do inquérito.
Registra-se que José Arthur não tinha qualquer intenção de se envolver em conflito ou praticar atos ilícitos, tendo sido surpreendido por uma sucessão de acontecimentos que culminaram em sua morte.
Eventuais narrativas que busquem imputar à vítima conduta justificadora ou concorrente para o resultado fatal não encontram respaldo nos elementos até então conhecidos e deverão ser rigorosamente confrontadas no âmbito do devido processo legal.
A defesa da família acompanhará atentamente todas as fases da investigação, zelando pela correta reconstrução dos fatos, pela responsabilização de todos os envolvidos e pela estrita observância da legislação penal vigente.
Neste momento, a família requer respeito à memória de José Arthur, cautela na divulgação de informações e a abstenção de juízos precipitados, permitindo que a apuração transcorra com a necessária lisura institucional.
Por fim, a família reafirma sua confiança na Justiça e seguirá adotando todas as medidas legais cabíveis para que os fatos sejam plenamente esclarecidos e as responsabilidades devidamente apuradas.“
Maurício Wernersbach Chaves e Diogo Dadalto Suzano, advogados da família da Vítima, José Arthur Moreto Ribeiro.
*Com informações da repórter Rafaela Patrício, da TV Vitória/Record.