Greve da PM: três anos depois, Estado ainda sofre as consequências do período que registrou mais de 200 mortos

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Greve da PM: três anos depois, Estado ainda sofre as consequências do período que registrou mais de 200 mortos

A greve da Polícia Militar durou 21 dias. As ruas foram tomadas por criminosos e a segurança pública entrou em colapso. O comércio teve um prejuízo de pelo menos R$ 180 milhões.

Foto: Agência Brasil

Três anos após a greve da Polícia Militar do Espírito, a Rede Vitória mostra em reportagem especial  quais foram as consequências da paralisação, que teve início no dia 4 de fevereiro e durou 21 dias. 

Tudo começou na entrada do 6º Batalhão da Serra, onde dezenas de familiares de policiais militares se instalaram e não saíram mais. Eles diziam ser os responsáveis pelo aquartelamento dos PMs. A justificativa era a reivindicação por melhores condições de trabalho, em especial, os salários: R$ 2.646,12. Na época, um dos mais baixos do país.

Sem policiais nas ruas, a segurança pública entrou em colapso. Ao todo, houve 225 homicídios no Estado nesse período. As cidades estavam desertas, a violência cresceu e as negociações pareciam não chegar a lugar algum. 

Prejuízo no comércio

De acordo com a Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio-ES), o comércio capixaba perdeu pelo menos R$ 180 milhões com roubos, arrombamentos, saques e estabelecimentos fechados.

Agora, três anos depois, a greve ainda não acabou nas delegacias e tribunais do estado. Uma força-tarefa foi montada para investigar os supostos crimes cometidos tanto por criminosos quanto por PMs no período. 

Mais de 200 inquéritos

Duzentos e oito inquéritos policiais foram instaurados nas Delegacias de Homicídios de todo o Estado para investigar as mortes cometidas durante a paralisação. A Polícia Civil esclareceu concluiu 148 inquéritos e 60 ainda seguem abertos

Na esfera administrativa militar, mais de 2.600 policiais militares responderam a processos na Corregedoria. Vinte e três foram expulsos e, segundo a Associação de Cabos e Soldados, 10 militares foram presos. No dia 15 de janeiro de 2019, o atual governador Renato Casagrande enviou à Assembleia Legislativa o projeto de lei que previa anistia à todos os militares investigados pela Corregedoria. Vinte e quatro horas depois, o projeto foi aprovado por unanimidade pelos deputados estaduais.

Atualmente, são os crimes cometidos pelos militares que ainda não se resolveram na Justiça comum. Há dois processos principais na 4ª Vara Criminal de Vitória. Um deles aponta 10 militares como organizadores da greve. A Justiça condenou seis dos organizadores por associação criminosa, motim e incitação ao crime. Todos respondem em liberdade.

O outro julga 14 familiares de policiais envolvidos no movimento grevista. Três mulheres foram condenadas por incitar crimes, atentar contra a segurança pública e associação criminosa. Elas recorreram da sentença e também aguardam o julgamento livres.

Caráter político

A face política do movimento se concretizou nas eleições de 2018. Dezessete policiais militares envolvidos na greve se candidataram. Sete estavam diretamente ligados à organização do movimento.

 Capitão Assumção, um dos condenados na Justiça comum, foi eleito em 2018 deputado estadual. Coronel Alexandre Quintino, também foi acusado de apoiar a greve e eleito deputado estadual. E o Coronel Foresti chegou a ser pré-candidato a governador do Estado.

Ação civil pública

Por conta dos prejuízos causados pela greve, uma ação civil pública foi aberta pelo Ministério Público Federal contra quatro associações da Polícia Militar. A ação pede o ressarcimento dos R$ 37 milhões gastos com o envio de tropas federais para o Estado. E ainda, o pagamento de R$ 12 milhões por dano moral coletivo aos residentes do Espírito Santo.

Três anos depois do caos, o atual governo admite que foram necessárias muitas ações devido ao impacto provocado pela greve. Roberto Sá, secretário de Segurança Pública do Espírito Santo, afirma que o cenário ainda não é o ideal, mas que os esforços do governo continuam para que a tragédia gerada pela paralisação jamais se repita.

Com informações da repórter Nathália Munhão, da TV Vitória/Record TV.