Elize é condenada a quase 20 anos de prisão por matar e esquartejar marido

Polícia

Elize é condenada a quase 20 anos de prisão por matar e esquartejar marido

O executivo da Yoki conheceu Elize em um site de garotas de programa, eles se casaram e tivera uma filha, hoje com 5 anos; crime aconteceu em 2012

Elize foi condenada por matar o marido Foto: Reprodução/ Record

A bacheral em Direito Elize Matsunaga foi condenada a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão em regime fechado pelo homicídio de seu marido, o empresário Marcos Kitano Matsunaga, executivo da Yoki, além da destruição e ocultação de cadáver. A sentença terminou de ser lida às 2h08 desta segunda-feira, 5, no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Os advogados de defesa disseram que vão recorrer da sentença.

O Conselho de Sentença entendeu que o recurso que impossibilitou a defesa da vítima foi a única qualificadora aceita e, assim, os jurados derrubaram as de motivo torpe e meio cruel. Na interpretação do júri (formado por quatro mulheres e três homens) – que coincide com a tese da defesa -, o crime não foi cometido nem por vingança nem por dinheiro. Para eles, também não ficou provado que Marcos estava vivo quando foi esquartejado.

Os sete dias do julgamento foram marcados por discussões e trocas de desaforos entre acusação e defesa no plenário. Várias vezes, os comentários atravessados arrancaram risadas da platéia, composta principalmente por estudantes de Direito. Em algumas ocasiões, o juiz Adilson Paukoski, que presidiu o julgamento, precisou intervir.

O advogado Luiz Flávio D’urso, assistente de acusação, ameaçou processar o advogado Luciano Santoro, que defende Elize, no episódio de maior tensão entre as partes. Em plenário, Santoro afirmou que D’urso estava tentando intimidar sua testemunha.

Na ocasião, era ouvido o perito Sami El Jundi, o único especialista que defendeu que a morte de  Marcos foi instantânea. O advogado de acusação entendeu que houve desrespeito à vítima e protestou após o depoente usar expressões como “só se ele tivesse dois ânus” e “se não for sangue, é catchup”.
A maior parte das discussões, no entanto, envolvia o promotor José Carlos Cosenzo e a advogada Roselle Soglio, que chegaram a trocar ofensas. Em mais de uma ocasião, Cosenzo chamou a advogada de “chata” e “louca”. Fizemos o acusou de ser “machista” e “atormentado”.

Em uma fase conturbada de debates, a acusação investiu em elementos emocionais em torno do crime e no sofrimento que a morte causou à família Matsunaga. “Sem as qualificadoras e com uma pena de seis anos, ela sairá na frente de vocês, como quer a defesa”, chegou a dizer o promotor José Carlos Cosenzo, que usou parte do tempo para recitar poemas e fazer reflexões sobre a morte. “O Brasil todo está esperando uma decisão de vocês.”

“Elize, quando saie do cárcere, encontrará sua Helena. Mas isso jamais acontecerá com a mãe do Marcos”, disse o advogado Luiz Flávio D’urso. Diante do fato de que Marcos Matsunaga traiu Elize com uma garota de programa, outra estratégia da acusação foi afirmar que não era o empresário quem deveria ser julgado. “Quem está no julgamento, aqui, é Elize. Para a acusação, a vingança motivou o assassinato.

A maior dificuldade da promotoria foi rebater a posição trazida pelo médico legista Sami El Jundi, que prestou o depoimento mais longo do julgamento e defendeu que Marcos morreu logo após ser baleado na cabeça – fundamental para definir se houve meio cruel. Para tentar invalidar a tese, a acusação se valeu de uma confusão feita pelo legista sobre o isso atingido pelo disparo.

Já a defesa tentou reconstruir o passado humilde de Elize. A fim de provar que ela havia reagido à uma provocação injusta, os advogados exploraram questões de violência doméstica, apontando Elize como vítima de ofensas da vítima. “Nem sempre a violência é física. O olho roxo desparece; o sentimento, jamais”, afirmou o advotado Luciano Santoro.

Interessada em derrubar as qualificadoras, a defesa chegou a pedir a condenação de Elize por homicídio simples. “Ela merece ser condenada, mas merece ser condenada pelo que cometeu”, disse Santoro.

A defesa também sustentou que a acusação só tinha provas de que havia um assassinado esquartejamento, uma vez que foram confessados pela própria Elize. “Aqui é lugar de certeza – e não de possivelmente.”

O julgamento foi mais longo do que outros casos de repercussão, como o de Suzane Richthofen, Gil Rugai, do casal Nardoni e do Massacre do Carandiru.
Julgamento. À tarde, Elize havia afirmado, sobre o esquartejamento do marido, que “a única forma que eu encontrei foi cortá-lo, infelizmente.” No sétimo dia de julgamento, que começou às 10h30 deste domingo e entrou na madrugada desta segunda, Elize foi interrogada durante quatro horas e meia e houve debate entre acusação e defesa.

No Fórum Criminal da Barra Funda, Elize respondeu, na parte da manhã, aos questionamentos do juiz Adilson Paukoski, mantendo os ombros levemente arqueados para frente. Depois, silenciou quando as perguntas eram da acusação. A defesa tentou mostrar que o crime foi passional e aconteceu num momento de forte emoção.

Elize manteve a voz firme quando falou sobre o disparo que atingiu o lado esquerdo do crânio de Marcos e o esquartejamento, realizado com uma faca de carne no quarto de hóspedes do apartamento, segundo ela. Mas chorou ao relatar seu passado como garota de programa e ao se lembrar da filha e dos xingamentos que ouvia do marido.

Ao juiz Paukoski, Elize disse que chegou a procurar advogados para se divorciar de Marcos por causa das traições, mas que nunca deu início ao processo. Uma das vezes, contou, foi quando descobriu em 2010 que o marido estava saindo com uma funcionária da Yoki. Na mesma época, descobriu que estava grávida de Helena, hoje com 5 anos. “Eu queria que minha filha tivesse uma história diferente da minha. Eu cresci sem o meu pai, não queria que ela crescesse sem o dela.”

Marcos foi morto no dia 19 de maio de 2012, no triplex onde morava, na Vila Leopoldina. No momento do crime, só o casal e a filha estavam em casa. Elize contou que havia retornado de uma viagem de três dias a Chopinzinho (PR), onde nasceu, com a filha e a babá.

Um detetive, contratado por Elize, filmou Marcos traindo sua mulher logo no primeiro dia de viagem. Na volta, a família foi comer pizza em casa, mas o casal começou a brigar. Marcos teria dito que iria para a casa do pai, mas Elize desconfiou que ele voltaria a se encontrar com a amante. “Eu não aguentei, disse para ele parar de mentir. Contei que tinha contratado um detetive e que sabia de tudo.” Segundo Elize, o empresário começou a esbravejar: “Como você tem coragem de fazer isso com o meu dinheiro?” “Ele me chamou de vaca, vagabunda e me deu um tapa no rosto.” Esta foi a primeira agressão física, segundo a ré, mas as verbais seriam comuns.

Após o tapa, de acordo com o depoimento, ela foi para a sala de estar, apanhou sua pistola .380, que havia ganhado de Marcos. “Fiquei com medo, não sabia o que ele ia fazer. Quando olhei a arma na minha mão, me arrependi. Fui para cozinha para ele não me ver com ela.”

Marcos teria a seguido. “Ele ficou surpreso e começou a rir. Falou que eu era uma puta, falou para eu ir embora com a minha família e deixar a filha dele lá. Eu não raciocinei. Eu poderia ter feito inúmeras coisas, um milhão de coisas. Eu não estava normal naquela hora.”

Praticante de tiro, Elize disparou e acertou o marido na cabeça. Ela não teria mirado – só apontado a pistola e apertado o gatilho. “Eu queria que ele se calasse. Queria que tudo aquilo acabasse. Eu não optei pelo tiro. Aconteceu.”

A ré relatou que ficou desesperada. Chegou a pegar o telefone para ligar para a polícia, mas desistiu. Com marido baleado, Elize não pensou em chamar socorro médico. “Ele não se mexia, não fazia nada. Para mim, estava morto.”

Na sequência, Elize contou que arrastou com dificuldade o corpo de Marcos, puxando pelos braços, por cerca de 15 metros, do hall até o quarto de hóspedes. Em seguida, limpou o rastro de sangue com um pano e produto de limpeza.

Sequência do crime. O esquartejamento começou no dia seguinte, entre 5h30 e 6h, após a chegada da babá. “Eu fazia o que aparecia na minha cabeça”, justificou. Ela relatou que começou pelos joelhos, porque sabia que “só tinha articulação”. Depois foram os braços, o tronco e, por fim, a cabeça. Pôs as partes em sacos de lixo, e tudo dentro de três malas. Duas delas foram transportadas no porta-malas do carro e a outra, no banco de trás. As partes foram abandonadas à beira de uma estrada.

“Eu não queria matar o Marcos, não fiz por crueldade”, relatou Elize, quando questionada se gostaria de se defender. “Se eu pudesse, voltaria no tempo. Queria pedir desculpa a todas as pessoas que machuquei por esse ato infeliz. Se eu tiver mentindo, quero que Deus me castigue da pior forma possível.”

Felipe Resk