
O feminicídio é um crime que choca a população e preocupa as autoridades, mas um dado chama atenção em meio ao cenário de enfrentamento à violência de gênero no Espírito Santo: 58 cidades do Estado não registraram feminicídios em 2025.
Na Região Metropolitana, o destaque é a capital Vitória, que completa, nesta quinta-feira (29), 600 dias sem esse tipo de crime. Entre as cidades do interior, destaca-se Vila Pavão, cidade da região Noroeste capixaba, que não registra feminicídios há 3.412 dias, quase 10 anos.
Em nível estadual, houve uma redução nesse tipo de crime: 39 mulheres foram assassinadas por motivos relacionados ao gênero no Estado em 2024. Já em 2025, o dado é de 34 feminicídios.
Já os dados gerais de violência doméstica apresentaram um aumento. Em 2024, 23.848 mulheres foram vítimas desse tipo de crime e registraram ocorrência. Já em 2025, esse número subiu para 26.151, o que representa um aumento de 9,7% no número de casos.
Rede de atendimento fez a diferença em Vitória
Na Grande Vitória, a Capital é a única cidade que não registrou feminicídios no ano passado e completa nesta quinta-feira (29) 600 dias sem casos. Mas o que diferencia Vitória das outras cidades?
A promotora Sueli Lima e Silva, titular da Promotoria de Justiça da Defesa da Mulher de Vitória, atua há 16 anos com casos de violência doméstica na Capital Capixaba e acredita que a queda no número de feminicídios se deve ao bom funcionamento da rede de atenção à mulher que existe na cidade.
“Eu percebo que Vitória tem uma estrutura melhor em relação aos demais municípios. Nós temos um bom acompanhamento, uma rede que funciona de forma ordenada e realmente atende às demandas e assim é possível evitar o crime maior”, afirma Sueli Lima e Silva.
Mas a promotora ponderou que o sistema não é perfeito. Ela acredita que o atendimento psicossocial ainda precisa melhorar.
“A gente vê alguns gargalos. A equipe interprofissional com assistência social, psicólogos, ainda deixa a desejar. As delegacias também. Recentemente, eu fiz uma inspeção na Deam de Vitória e observei uma estrutura precária. Então, sempre há necessidade de se melhorar. Vitória é um município rico, então Vitória pode melhorar”, defendeu.
Aumento no número de denúncias evita feminicídios
Outro fator que contribuiu para Vitória zerar os feminicídios, na avaliação da promotora, foi a conscientização crescente entre as mulheres e o aumento no número de denúncias.
“Há um aumento de denúncias em relação à lesão corporal, perturbação, ameaça. Isso significa o quê? Aumentaram os crimes ou aumentaram as notificações desses crimes? Isso é uma pergunta que fica para a gente refletir. No entanto, o crime maior, que é um crime evitável, que é o chamado feminicídio, por que ele é evitável? Porque se a pessoa percebe essas nuances, esses momentos que antecedem esse crime e denuncia, isso é uma possibilidade de se evitar o dano maior, que seria o feminicídio”, defendeu.
O que diferencia Vitória em relação às outras cidades?
A reportagem do Folha Vitória procurou as prefeituras da Grande Vitória para entender o que diferencia as cidades quando o assunto é política pública de enfrentamento à violência contra a mulher.
Um recurso que é encontrado apenas em Vitória é o Botão Maria da Penha, que, segundo a prefeitura, garante resposta rápida à vítima em situações de risco iminente. Ao ser acionado, o botão envia a localização da mulher à Central de Monitoramento da Guarda Municipal, que direciona uma viatura ao local e acompanha a ocorrência.
O dispositivo tem um recurso que promove a gravação do áudio do ambiente, o que pode servir de prova no processo. Atualmente, 33 botões estão ligados à Central. O sistema atua de forma integrada com o Judiciário, Ministério Público, Polícia Civil e a rede municipal de assistência social.
“O enfrentamento à violência contra a mulher precisa ser uma responsabilidade coletiva. Não se trata apenas de reagir à violência, mas de assegurar direitos e promover a autonomia das mulheres. Cada serviço que se soma à rede é um passo em direção à mudança de cultura e à garantia de que nenhuma mulher esteja sozinha nesse enfrentamento”, disse a comandante da Guarda de Vitória, Dayse Barbosa.
Além da rede integrada e das políticas públicas, por exemplo a Casa Rosa, o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, destaca outras ações como expansão das câmeras de monitoramento e reconhecimento facial, visitas tranquilizadoras e o cumprimento dos mandados de prisão.
“Até um passado recente, Vitória era considerada uma das capitais mais perigosas para as mulheres no Brasil. Hoje, estamos construindo um novo momento de paz, políticas públicas e segurança, com o uso do botão do pânico e ações na Casa Rosa, onde as mulheres são atendidas e ouvidas individualmente”, afirma Pazolini.
Centros de atenção à mulher e atendimento das guardas municipais
De modo geral, a pesquisa entre as prefeituras revelou que as cinco cidades têm alguma estrutura de atendimento às mulheres vítimas de violência. Serra e Vila Velha, assim como Vitória, possuem centros especializados em atendimento a essas mulheres. Essas casas têm atendimento integrado com equipes multidisciplinares que dão atendimento psicossocial e jurídico.
Cariacica não tem uma dessas casas especializadas, mas informou que realiza o atendimento às vítimas nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas) e que a Secretaria da Mulher encaminha a vítima para outras secretarias para acompanhamento integrado.
Viana também não tem um centro especializado, mas a prefeitura informou que as mulheres são atendidas nos Creas e que realiza ações educativas em escolas. Todas as cinco cidades informaram que as guardas municipais estão preparadas para atender os casos de violência doméstica.

Monitoramento de agressores com tornozeleira eletrônica 24 horas
Criado em novembro de 2025, o Programa Mulher Segura, do governo do Estado, monitora agressores de mulheres por meio de tornozeleiras eletrônicas em Vitória, Serra, Vila Velha e Cariacica. A previsão é ampliar a iniciativa para todo o Espírito Santo.
O monitoramento é feito 24 horas por dia por uma central, onde 17 policiais penais atuam de forma integradas com órgãos de segurança com interface direta ao Centro Integrado Operacional de Defesa Social (Ciodes) e à Gerência de Proteção à Mulher (GPM), da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp).
Os agressores passam a ser monitorados pela central a partir de decisão judicial. A vítima recebe da Polícia Civil uma Unidade Portátil de Rastreamento (UPR), um smartphone configurado em modo seguro, que se conecta à tornozeleira do agressor e estabelece uma zona de exclusão móvel com raio de 500 metros.
Caso o agressor se aproxime da área proibida, a tornozeleira emite alertas automáticos. O smartphone da vítima também emite sinais sonoros e vibratórios, exibindo um mapa com a localização do suspeito e a orientando a buscar um local seguro, enquanto viaturas são enviadas para a região.
Para o secretário de Estado da Justiça, Rafael Pacheco, a integração entre as instituições e a resposta rápida são diferenciais do programa.
“Atualmente, 227 pessoas cumprem pena no sistema prisional capixaba por feminicídio ou outros crimes relacionados à violência doméstica e familiar contra a mulher. Isso reforça a importância de políticas voltadas não apenas à repressão, mas principalmente à prevenção. A central de monitoramento presta um serviço qualificado às vítimas, com policiais penais capacitados para esse atendimento”, destacou.
600 dias sem feminicídios: dá para comemorar?
A reportagem do Folha Vitória ouviu dois especialistas para entender se a ausência de registros de feminicídios em muitas cidades capixabas, inclusive em Vitória, é um bom sinal e se dá para comemorar esse dado.
Em 2024, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (Sesp), 1.380 mulheres foram vítimas de violência doméstica e fizeram a denúncia. Já em 2025, esse número foi de 1.728 vítimas, o que representa um aumento de 25%.
O professor Rafael Catão, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), é pesquisador do tema. Analisando os dados de violência doméstica em Vitória nesses 600 dias, ele acredita que a violência doméstica na cidade ainda tem números preocupantes.
“Aparentemente, a tendência é de redução dessas questões mais graves. Contudo, você ainda tem um número muito alto de agressões, um número muito alto de estupro, um número muito alto de tentativas. Entre 2024 e 2025, foram oito tentativas de feminicídio em Vitória. Na hora que a tentativa acontece, a política pública, de alguma maneira, deixou escapar alguma coisa. A gente tem que tentar reduzir essas violências que não são tão extremas, mas que são absurdas. Muito mais que comemorar 600 dias sem feminicídio, precisamos olhar para esses dados, que são uma escadinha e que culminam em questões mais extremas”, refletiu o professor.
Para o especialista em segurança pública Raphael Pereira da Fonseca, a violência contra a mulher ainda é alta em todas as cidades capixabas.
“Embora muitos municípios não tenham registrado feminicídios, a violência doméstica tem acontecido muito. As mulheres têm procurado ajuda em todas as cidades do Espírito Santo, seja o menor, sejam os maiores. A procura de mulheres buscando medida protetiva e até situações flagranciais são diárias”, registrou o especialista.
“Muitos homens não estão aceitando o avanço das mulheres“, diz delegada
Ainda sobre o aumento de denúncias de violência doméstica, que observa-se tanto nos dados de Vitória quanto nas estatísticas estaduais, o Folha Vitória ouviu a sub-gerente de Proteção à Mulher da Sesp, delegada Natália Tenório.
A delegada explicou que existe um debate sobre a causa desse aumento nas denúncias. As discussões buscam responder se têm havido mais registros porque as mulheres estão mais empoderadas ou se há de fato aumento real da violência.
“É possível que exista um aumento real que se dá pelo machismo, pela inconformidade dos homens com os avanços das mulheres. A partir do momento que você vê uma sociedade mudar tanto e mulheres se empoderando da sua vida, tomando decisões, buscando seus direitos, esse é um movimento que a gente está vivendo no Brasil. Em paralelo, nós temos muitos homens que não estão aceitando esse avanço das mulheres. Isso gera uma tensão. Então é possível que nós estejamos vivenciando uma reação conservadora a um avanço”, explicou a delegada.
Desconstrução do machismo e monitoramento de agressores
A delegada também defendeu que as políticas públicas impactam diretamente na queda dos números de violência contra as mulheres. Entre as políticas estaduais, ela destacou o programa “Homem que é Homem”, que já foi aplicado a mais de dois mil agressores.
Nesse programa, os homens passam por um processo educacional voltado à desconstrução do machismo. Segundo a delegada, ao final do programa, é comum observar que os agressores mudaram de pensamento e reviram seus conceitos machistas.
A gerente falou também sobre os kits de tornozeleira eletrônica e smartphone que avisam a vítima quando o agressor está se aproximando. Atualmente, sete vítimas e os respectivos agressores estão utilizando os kits no Estado.
Além disso, Natália Tenório enfatizou que a Polícia Civil dobrou o número de delegadas nas Delegacias Especializadas em Atendimento à Mulher (Deams) da Grande Vitória. Em 2025, o número de delegadas passou de 5 para 10.
O projeto Deam Itinerante também foi lembrado pela delegada. Trata-se de um ônibus da Polícia Civil que roda os municípios registrando denúncias e fazendo palestras em escolas.
Veja a lista das cidades que não registraram feminicídios em 2025:
- Afonso Cláudio
- Água Doce do Norte
- Alegre
- Alfredo Chaves
- Alto Rio Novo
- Apiacá
- Aracruz
- Atílio Vivácqua
- Barra de São Francisco
- Bom Jesus do Norte
- Brejetuba
- Castelo
- Conceição da Barra
- Divino de São Lourenço
- Dores do Rio Preto
- Ecoporanga
- Fundão
- Governador Lindenberg
- Guaçuí
- Ibatiba
- Ibiraçu
- Ibitirama
- Iconha
- Irupi
- Itaguaçu
- Itarana
- Iúna
- Jaguaré
- Jerônimo Monteiro
- João Neiva
- Laranja da Terra
- Linhares
- Mantenópolis
- Marataízes
- Marilândia
- Mimoso do Sul
- Montanha
- Mucurici
- Muniz Freire
- Muqui
- Nova Venécia
- Pancas
- Pinheiros
- Ponto Belo
- Presidente Kennedy
- Rio Novo do Sul
- Santa Leopoldina
- Santa Maria de Jetibá
- Santa Teresa
- São Domingos do Norte
- São Gabriel da Palha
- São Roque do Canaã
- Sooretama
- Vargem Alta
- Venda Nova do Imigrante
- Vila Pavão
- Vila Valério
- Vitória