“Mais do mesmo” sai vitorioso: veja quem ganha e quem perde no cenário pós-eleições

Por trás dos números da chamada renovação nas câmaras municipais da Grande Vitória e os prefeitos que vão assumir a administração municipal a partir de 2021, estão figuras tradicionais e conhecidas no cenário político municipal e estadual.

“No Espírito Santo, seguindo a tendência do Brasil, sai fortalecido o bloco apelidado de ‘centrão’ que congrega legendas que não se orientam ideologicamente de forma clara e que formam maioria no Congresso, com mais de 280 deputados. A depender da matéria, tais partidos se associam para votar em conjunto, definindo o resultado da agenda”, analisa a comentarista de política, Gabriela Cuzzuol.

Para o mestre em sociologia política Hudson Siqueira, o Republicanos é a sigla que mais sai vitoriosa no Espírito Santo, com uma prefeitura ainda em jogo: Vitória.

“O partido que mais ganha é o Republicanos, que é o do atual presidente da Assembleia e presidido pelo deputado federal Amaro Neto. A sigla ainda pode eleger a candidatura de Vitória. O partido está na base do governo Bolsonaro mas no Espírito Santo não teve nada a ver com a campanha de 2018. Os vencedores foram os partidos de centro e centro-esquerda”, argumenta.

No campo da esquerda, o Partido dos Trabalhadores disputa duas prefeituras em segundo turno: Cariacica e Vitória. Os apoios ainda estão sendo angariados, sem definição, como a do governador Renato Casagrande (PSB).

“No Espírito Santo, o PT segue para a disputa de segundo turno em duas das principais cidades: Vitória e Cariacica e, na capital deve contar com a apoio discreto do governador Casagrande, que se posiciona à esquerda e que saiu fortalecido da disputa eleitoral”, comenta Gabriela.

Siqueira destaca que esta eleição não foi dos radicalismos. “O PT tenta emplacar a prefeitura de Vitória e o PSOL conseguiu eleger a primeira vereadores em 16 anos de partido no Espírito Santo. Nem a esquerda radical nem a direita radical conquistaram espaço nesse pleito”, completa.

Confira a análise de Gabriela Cuzzuol sobre o cenário pós-eleições:

“Em primeiro lugar, a recuperação pós-pandêmica pautou os planos de governo, inclusive, em áreas prioritárias, como educação, economia e, sobretudo, saúde. A covid-19 foi determinante nas eleições na medida que retirou, temporariamente, alguns candidatos da disputa. Em alguns casos, como o do deputado Fabrício Gandini, em Vitória; de Sandro Locutor, em Cariacica; e de Neucimar Fraga, em Vila Velha, o prejuízo causado pelos dias fora das ruas ter influenciado na inviabilização das campanhas.

Outro fator que influenciou os resultados foi o alto índice de abstenções. Acima da média nacional, de 23%, o Estado registrou a ausência de 24,02% dos eleitores, o que significa que 645 mil espírito-santenses não compareceram às urnas, no domingo. Sob esta justificativa, alguns institutos explicaram as reviravoltas que as urnas revelaram em relações a pesquisas realizadas poucos dias antes, como o alto índice de aprovação dos candidatos Lorenzo Pazolini, em Vitória, e Arnaldinho Borgo, em Vila Velha.

No pleito de 2020, as campanhas tiveram de testar novas estratégias, sobretudo, fórmulas novas de comunicação, tanto em virtude do calendário eleitoral reduzido quanto pela reconfiguração das estratégias de conquista do público por meio da comunicação. Por conta da pandemia e do reduzido período de campanha, as redes sociais ganharam força. O tempo de TV voltou a ser importante, o que obrigou as equipes a precisarem testar fórmulas.

No Espírito Santo, seguindo a tendência de todo o Brasil, sai fortalecido o bloco apelidado de ‘Centrão’ que congrega legendas que não se orientam ideologicamente de forma clara e que formam maioria no Congresso, com mais de 280 deputados. A depender da matéria, tais partidos se associam para votar em conjunto, definindo o resultado da agenda.

Nas prefeituras, porém, o Estado não seguiu a tendência nacional: o Cidadania, que no País conquistou mais 21 prefeituras e no ES, 10; e o PSB, ao qual é filiado o governador Renato Casagrande, que conquistou outras 12 prefeituras no ES. O PSB é um partido de esquerda moderada; o Cidadania, de centro, com diálogo consistente com alas da esquerda também moderada. Formaram uma bem sucedida “dobradinha”, com variação na liderança e vice de chapa, bem sucedida no Estado. Nenhuma das duas legendas se orientam à direita.

De acordo com a qual saíram fortalecidos na cena nacional, o partido que mais angariou prefeituras foi do DEM, com a liderança nos municípios de mais 190 prefeituras. Seguido pelo PP, partido mais investigado na Operação Lava Jato e conquistou a liderança de 184 municípios. O PSD vem em seguida, com 12.

No que diz respeito às vereanças, há uma maioria de partidos orientados ao centro e, mesmo entre os que se posicionam de formas mais clara, o nível de organização e consistência dos blocos de oposição aos gestores ainda é incerto.

Em uma legislatura especificamente marcada pela complexidade e necessidade de gestão municipal eficiente, a situação ideal seria bancadas de apoio e oposição com orientações claras, no sentido tanto para apoiar a base quanto para fiscalizar o executivo com o devido rigor e propor projetos que resultem em entregas de qualidade, com a necessária celeridade e enfrentado a queda e arrecadação e dificuldade de geração de emprego e renda que, provavelmente, 2021 trará.

As vereanças espírito-santenses registraram ainda altas taxas de renovação, porém, com baixa representatividade feminina, destoando também da média nacional, no ano em que a eleição de mulheres em prefeitura já aumentou, mesmo sem decisão em segundo turno (do total de 11,6% nos dois turnos em 2016 para 12, 2% só no primeiro turno, em 2020). Os índices não refletem a heterogeneidade do eleitoral capixaba, que tem cerca de 50% composto por mulheres.

Na cena nacional, Jair Bolsonaro perdeu capital político. Seu filho Carlos Bolsonaro, eleito vereador, perdeu votos em relação a 2016 e ficou em segundo lugar, perdendo a liderança para uma vereadora do PSOL. O apoio do Presidente, embora não tenha sido capaz, por exemplo, de segurar a candidatura de Russomano, foi importante para a recuperação de Crivella no Rio de Janeiro, um colégio eleitoral importante.

No Espírito Santo, o PT segue para a disputa de segundo turno em duas das principais cidades: Vitória e Cariacica e, na capital deve contar com a apoio discreto do governador Casagrande, que se posiciona à esquerda e que saiu fortalecido da disputa eleitoral.

O partido, que em 2016, em pleno processo de impeachment elegeu 254 prefeituras, encerra 2020 com 189 e se agarrando ao segundo turno. Uma Vitória de João Coser concederia ao partido a gestão da única capital no Brasil conquistada em 2020 e seria positiva para Renato Casagrande.

Diante da atual composição de prefeituras e vereanças, e do xadrez que se configura no segundo onde há disputa, há uma certeza: as soluções que os desafios dos próximos quatro anos impõem não serão facilmente encontradas. Parece que para a cidadão comum, não será um tempo fácil”.

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