Casagrande discursa na Ales (foto: Lucas Costa/Ales)
Casagrande discursa na Ales (foto: Lucas Costa/Ales)

Sem citar nomes, mas como quem manda um recado com destinatário certo, o governador Renato Casagrande (PSB) fez um discurso com críticas ao autoritarismo, à polarização política e a uma suposta “volta ao passado”, durante a abertura do ano legislativo na Assembleia.

Citando o Sermão da Montanha e as bem-aventuranças – registrados na Bíblia, mais precisamente no Evangelho de Mateus –, Casagrande afirmou que é preciso buscar a paz, governar com mansidão e combater a “arrogância e a prepotência”.

“Estamos num momento em que é preciso fazer uma força contrária ao excesso de arrogância, prepotência, ao excesso de violência que a gente vê em alguns representantes das nossas instituições”, afirmou, sem citar quais.

Segundo ele, o mundo assiste a um “nível de violência muito intenso” nas instituições de dentro e fora do País e que um dos principais desafios, ao longo dos últimos anos, tem sido lidar com a polarização política.

“Tivemos que enfrentar esses desafios, o desafio maior nesse período é a polarização política, a violência política. A busca permanente de algumas lideranças de comunicar só com uma parcela da sociedade e não ter capacidade de dialogar de forma mais ampla. Cada um na sua instituição enfrenta isso”, afirmou o governador.

Casagrande afirmou que a sociedade não quer uma volta a um passado de autoritarismo.

“Você pode governar com autoridade sendo humilde e tendo capacidade de diálogo, não precisa ser arrogante, prepotente, autoritário, achar que o governo é vertical, de cima pra baixo. A gente tem que compreender que esse é o momento de ter uma sociedade horizontal e o governante tem que estar aberto a dialogar com todo mundo, porque isso é o que a sociedade deseja hoje”. E acrescentou:

“Ninguém quer um retorno ao passado, em que a gente tenha autoritarismo e força para poder manter o controle das instituições. As instituições hoje têm liberdade de conversar, dialogar, expor os seus problemas e, juntos, vamos encontrar um caminho. Esse é o segredo do nosso Estado e por isso esse é o momento mais importante que a gente está vivendo”.

Sessão solene de abertura do ano legislativo (foto: Lucas Costa/ Ales)

A quem se referiu?

Após o discurso, o governador foi procurado pela imprensa e questionado sobre a fala.

Ele disse que estava falando em tese sobre modelos de governo. “Em tese, ninguém mais quer um governo do passado, em que governavam de forma piramidal, de cima para baixo. Nem as pessoas e nem as instituições. As instituições se acostumaram com esse jeito da gente de dialogar, sentar à mesa, ter uma governança e um trabalho compartilhados”.

Sobre estar se referindo a alguém específico, Casagrande descartou. “Estou falando em tese, as pessoas sabem quem tem prática moderna e quem tem prática ultrapassada. Isso faz parte de um conceito que eu sempre defendi, não é agora que eu estou defendendo”.

Defesa do Legislativo

Marcelo Santos discursa na Ales (foto: Lucas Costa/Ales)

O discurso do governador ocorreu após o do presidente da Assembleia, Marcelo Santos (União Brasil), que comandou a abertura dos trabalhos legislativos.

Numa sessão concorrida, que contou com a presença de representantes de todos os poderes e instituições da sociedade civil, Marcelo frisou um pouco do que já havia antecipado na entrevista para a coluna De Olho no Poder.

Ele citou a possibilidade de dar posse a dois governadores – se o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) assumir em abril e, em janeiro, ao governador que for eleito em outubro –; defendeu a Assembleia, afirmando que não há relação de submissão, mas sim de parceria com os demais poderes; e enfatizou o protagonismo do Legislativo, sob o seu comando.

“(A Assembleia) Deixou de ser figurante e passou a ser protagonista. Entendemos algo essencial: diálogo não é submissão. Independência entre os poderes não é conflito permanente. Nossa atuação prova que Executivo e Legislativo podem e devem coexistir com harmonia, como determina a Constituição”, afirmou.

Em tempo: Coincidentemente ou não, chama a atenção que o discurso de Casagrande sobre “não voltar ao passado” ocorra em meio a uma importante mudança de postura de outra liderança política com relação às eleições.

Em entrevistas recentes, o ex-governador Paulo Hartung (PSD) tem admitido a possibilidade de voltar a disputar um mandato eletivo, sem detalhar qual. Desde que deixou o governo em 2018, Hartung não disputou nenhuma eleição.

Em tempo II: A passagem bíblica citada por Casagrande em seu discurso está no capítulo 5 do Evangelho de Mateus.

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Fabiana Tostes

Jornalista graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e acompanha os bastidores da política capixaba desde 2011.

Jornalista graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e acompanha os bastidores da política capixaba desde 2011.