Os 55 anos do Golpe Militar no Brasil: onze fatos que marcaram o Espírito Santo durante a Ditadura

Política

Os 55 anos do Golpe Militar no Brasil: onze fatos que marcaram o Espírito Santo durante a Ditadura

Completando 55 anos, o 31 de março voltou a ser lembrado com mais veemência neste ano, após uma orientação do Governo Federal para que militares em todo o país realizem cerimônias para marcar o fato histórico

Rafael Silva Freitas

Redação Folha Vitória

O dia 31 de março de 1964 ficou marcado na história do Brasil como o dia do Golpe Militar, que tirou o então presidente João Goulart do poder e deu início ao período de 21 anos em que o país foi comandado por generais das Forças Armadas.

Completando 55 anos em 2019, a data voltou a ser lembrada com mais veemência neste ano, após uma orientação do Governo Federal para que militares em todo o país realizassem cerimônias para marcar o fato histórico como uma data festiva, de celebração. Após forte polêmica, a Justiça Federal, por fim, proibiu comemorações em torno da data ().  

O Folha Vitória aproveitou o retorno do tema para conversar com especialistas e pessoas que viveram o período. A partir dos relatos, recuperamos 11 fatos marcantes da Ditadura Militar no Espírito Santo. Veja a lista.

1. Os porões capixabas da ditadura

Foto: Reprodução

De acordo com os relatos de pessoas presas e torturadas no Espírito Santo, o 38º Batalhão de Infantaria, na Prainha, em Vila Velha, era um dos principais locais utilizados para tortura no estado. À época, era chamado 3º Batalhão de Caçadores, e foi onde a jornalista Miriam Leitão, por exemplo, foi levada após ser presa, no Centro de Vitória.

Além do batalhão, também há relatos de tortura na sede da Polícia Federal, que durante a ditadura funcionava na Avenida Beira-Mar, em Bento Ferreira, e na Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo, que teve pelo menos duas sedes, uma no Centro de Vitória e outra na Reta da Penha.

2. A "péssima herança": o Esquadrão da Morte

Foto: Arquivo Folha Vitória

Além da repressão institucional, grupos paramilitares foram formados em todo o país por oficiais que buscavam “pulso firme” na caça a comunistas. No Espírito Santo, o “Esquadrão da Morte” era composto por policiais militares e civis, além de membros do governo estadual, segundo o livro “Ditaduras não são eternas”, um compilado de depoimentos prestados em uma comissão especial da Assembleia Legislativa do Espírito Santo.

Um de seus membros seria, mais precisamente, o secretário de Segurança Pública José Dias Lopes, irmão do governador Christiano Dias Lopes. "O 'Esquadrão de Morte' é a péssima herança do regime militar. A ele foram atribuídos assassinatos de pessoas consideradas criminosas ou suspeitas, enterradas em cova rasa, na Barra do Jucu, em Vila Velha. A organização teve seu início no Rio de Janeiro e, na década de 1980, tornou-se sucessora da Escuderia Le Coq, cuja estrutura original foi transferida do Rio de Janeiro para o Espírito Santo, sobrevivendo como braço armado do crime organizado”, aponta a publicação, que também contou com a parceria da Universidade Federal do Espírito Santo.

3. O delegado que virou pastor e confessou os crimes

Foto: Reprodução/YouTube

Entre os agentes da repressão do período da ditadura que confirmaram a prática das torturas está o ex-delegado Cláudio Guerra, do DOPS do Espírito Santo. Hoje, com 79 anos e pastor evangélico, Guerra foi membro de uma das equipes do coronel Freddie Perdigão (um dos importantes agentes do Centro de Informação do Exército). Ele confessou participação em casos de execução de presos, desaparecimento forçado e ocultação de cadáver. Fez parte ainda da chamada “Casa da Morte”, um imóvel em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde diversos presos tiveram seus corpos incinerados.

Mesmo sendo delegado no Espírito Santo, Guerra disse que era chamado para realizar “missões” em diversos estados do Brasil. No relatório da Comissão da Verdade, o ex-delegado comenta sua participação na morte de alguns presos, entre eles a estudante Ana Kucinski, irmã do jornalista Bernado Kucinski. Um dos relatos que chama a atenção é da morte de Nestor Vera, em Belo Horizonte. Veja o diálogo:

- Comissão Nacional da Verdade: Esse é o Nestor Vera [a foto é exibida]. Ele o senhor pessoalmente matou?
- Cláudio Guerra: Ele, vamos dizer, já estava morto. Sofrendo. Não estou querendo falar que sou santinho, não. Mas foi um tiro de misericórdia. E ele não podia aparecer. Olha o que foi: ele estava sendo torturado.
- Comissão Nacional da Verdade: Onde ele estava sendo torturado?
- Cláudio Guerra: Dentro da Delegacia de Furtos e Roubos de Belo Horizonte.
Comissão Nacional da Verdade: Por que o senhor estava em Belo Horizonte?
- Cláudio Guerra: Vou explicar ao senhor. Toda vez que o SNI [Serviço Nacional de Informações] me mandava para um lugar, eles arranjavam uma cobertura. Então, a cobertura minha nessa época em que eles estavam me usando [...] era um curso da Academia de Polícia de Belo Horizonte. Eu recebi um telefonema do coronel Perdigão que era para eu ir até a fonte de veículo, que ele estava preso lá e que ele não poderia aparecer de maneira nenhuma, que ia prejudicar. Então, eu cheguei lá. Ele estava mais morto que vivo. Estavam lá o João Metropol, policial civil, e o Saraiva, policial civil.
- Comissão Nacional da Verdade: Ele estava muito torturado, mas ele não estava morto ainda?
- Cláudio Guerra: Não. Pôs no carro deles. Nós fomos. Eles me levaram junto até esse local. Chegou lá, ele estava mais morto, ele sentado, sofrendo preso. Não tinha como socorrer porque não podia aparecer com ele. Porque a ordem é que ele não podia aparecer. Aí foi que eu executei ele.

4. O capixaba que liderou revolta armada no RJ e ES 

Foto: Reprodução/Facebook

O advogado Francisco Celso Calmon, também conhecido como Chico Celso, foi um dos capixabas torturados durante a Ditadura Militar. Com 16 anos, ele era secretário-geral da União dos Estudantes Secundaristas do Espírito Santo (Ueses) quando os militares chegaram ao poder, em 1964.

Perseguido no estado, ele foi morar no Rio de Janeiro onde entrou para a luta armada, em grupo intitulado Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), onde conheceu a então estudante Dilma Rousseff. Sob o comando de Calmon ficava toda a região Sudeste do grupo, que abrangia o Espírito Santo, o Rio de Janeiro e parte de Minas Gerais.

Em entrevista ao Folha Vitória, ele conta que participou de “ações de expropriações”, como a vez em que roubou um suposto cofre do ex-governador de São Paulo Ademar de Barros.

“Nós recebemos a informação que o ex-governador mantinha um desses cofres na casa de uma amante, em São Paulo. O que chegou para a gente era que o dinheiro era de jogo do bicho e corrupção. Também tentei resgatar uma companheira que era mantida presa. Foi nessa ação, depois de uma perseguição, que acabei sendo preso”, conta.

Chico Celso foi preso e levado para o Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi) do Rio de Janeiro. Ficou 11 meses preso, torturado com choques elétricos e agressões.

“Pouca gente teve o privilégio de ser preso e não ser torturado, e comigo não foi diferente. Recebi choques e muita pancadaria. Tive duas vértebras e dentes quebrados. Depois acabei contraindo hepatite na prisão. Muito doente e por conta da influência política da minha família, os Calmon, no Estado e também da Igreja Católica, acabaram me ‘liberando’, me deixando em uma espécie de prisão domiciliar na casa da minha mãe, em Vitória. Toda semana um militar ia me visitar, dizia que eu tinha mentido e que, mesmo doente, iria voltar para a prisão”, lembra.

5. O arcebispo que intercedeu pelos perseguidos 

Foto: Reprodução /Youtube

Nascido em Niterói, Dom João Batista e Albuquerque foi nomeado arcebispo do Espírito Santo em 1958, onde ficou por 26 anos, até sua morte em 1984. A frente da Igreja Católica no estado, ele teria ajudado muitos estudantes perseguidos pela repressão da ditadura na época a fugir. Um deles foi o próprio Francisco Calmon.

“O bispo era muito próximo dos estudantes da Juventude Estudantil Católica (Jec), que eu participava quando era secundarista. Mesmo depois do golpe, eu fazia discursos contra os militares e ele me alertou que eu estava sendo perseguido. Mais tarde, depois de preso, ele também intercedeu para que os militares permitissem que eu voltasse para casa”, lembra Chico Celso.

Um dos nomes a frente da chamada Teologia da Libertação, Dom João Batista também era vigiado pela inteligência militar. Um dos episódios de maior tensão foi quando um de seus assistentes, o padre Waldyr Ferreira de Almeida, foi detido por militares, após sermões críticos ao governo.

6. Pouco se sabe: os mortos, torturados ou desaparecidos 

Foto: arquivo publico

O número de pessoas torturadas pela repressão da Ditadura Militar no Espírito Santo ainda é desconhecido. O que se sabe é que o Arquivo Público do Espírito Santo (Apes) armazena aproximadamente 20 mil fichas de identificação de pessoas e instituições que pertenciam à Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS-ES).

Em um levantamento feito pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pelo menos 90 pessoas com vínculo com a instituição, entre alunos, funcionários e professores foram perseguidos durante a ditadura, de acordo com documentos encontrados na época. Ao menos seis capixabas ainda estão desaparecidos ou com indícios de que foram mortos pela repressão. No Brasil, 362 pessoas, segundo a Comissão Nacional da Verdade, desapareceram ou foram mortas.

Um deles é o jornalista e membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Orlando da Silva Rosa Bonfim Junior, natural de Santa Teresa e que atuou no jornal O Estado de Minas, em Belo Horizonte (MG). Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, Orlando foi morto em 1975, após ser preso pelo DOI-CODI. Ele teria sido executado ao ser obrigado a ingerir um veneno usado para matar cavalos, às margens da Rodovia Castelo Branco. Seu corpo foi lançado na represa de Avaré, em São Paulo.

Outro capixaba que morreu durante a ditadura foi o professor Lincoln Bicalho Roque, de São José do Calçado. Ele chegou a dar aulas no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da (UFRJ), mas, durante o período militar, foi aposentado compulsoriamente. Lincoln fez parte de grupos armados de combate à ditadura e foi morto durante um tiroteio com militares.

Além dos dois, outros quatro capixabas mortos no período faziam parte da Guerrilha do Araguaia. Marcos José de Lima, natural de Nova Venécia, era ferreiro de profissão e se tornou “armeiro” da guerrilha. João Gualberto Calatrone, também de Nova Venécia, foi morto aos 22 anos em uma emboscada, próximo ao Araguaia. De João Gualberto, conhecido ainda como Zebão, pouco se sabe.

Arildo Airton Valadão, natural de Muniz Freire, foi presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Militante do PCdoB foi para o Araguaia e morreu em uma emboscada. Seu corpo foi encontrado por integrantes da guerrilha horas depois, sem a cabeça, que nunca foi encontrada.

Outro capixaba desaparecido foi José Maurílio Patrício, nascido em Santa Teresa. Ele estudava Educação Técnica na Universidade Rural do Rio de Janeiro e integrava a guerrilha. Desapareceu após uma missão onde tentaria resgatar colegas de guerrilha que teriam sido presos.

Na praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, há um monumento em homenagem aos seis capixabas mortos durante o período.

7. Perseguição na Ufes: os anos de chumbo

Foto: arquivo público ES

Segundo o historiador Pedro Ernesto Fagundes, que pesquisa a Ditadura Militar no Espírito Santo, a Ufes foi uma das instituições mais vigiadas pelos militares durante os anos de chumbo. Tanto que poucos dias após o golpe de 1964, o reitor da universidade foi exonerado, colocando um militar para administrar a instituição.

Ao todo, ao menos 90 pessoas entre professores, alunos e funcionários sofreram constrangimentos, entre repressões verbais e torturas, por parte dos militares.

“Em 1971, foi criado um órgão dentro da universidade chamado de ‘assessoria especial de segurança a informação’, que tinha como objetivo vigiar o órgão. Todos os eventos, como formaturas, peças de teatros, panfletos que eram impressos, precisavam do aval desde setor, que funcionou até 1985. Um dos fatos mais marcantes foi uma operação em 1972 que prendeu de uma só vez 30 estudantes da universidade, entre eles a jornalista Miriam Leitão”, conta.

8. A manifestação de 68: a Jerônimo Monteiro transformada em campo de guerra

Foto: arquivo público do es

Não há registro de luta armada realizada em solo capixaba. Contudo, um dos eventos mais violentos se deu em 1968, em uma manifestação em homenagem ao estudante Edson Luis, morto por policiais militares no Rio de Janeiro durante um confronto. O caso gerou comoção em todo o país.

Em Vitória, manifestantes protestavam na frente da antiga Faculdade de Direito de Vitória, que era vizinha do Palácio Anchieta, sede do poder Executivo. Policiais Militares interviram na ação e houve confronto. Relatos da época dão conta que a Avenida Jerônimo Monteiro virou um verdadeiro campo de guerra.

“Lembro de mulheres que deram bolsadas e estudantes que jogaram pedras em policiais armados. O grupo dispersou e se reuniu mais à frente, na Praça Oito, onde voltaram a confrontar os policiais. Na época a Secretaria de Segurança era comandada por José Dias Lopes, irmão do governador Cristiano Lopes. José Dias estava armado na rua, ameaçando estudantes”, lembra Chico Celso.

9. Espírito Santo inaugura a campanha das Diretas Já!

Foto: arquivo público do es

Considerado um dos movimentos que aceleraram o fim da Ditadura Militar, a campanha por eleições diretas para presidente, a Diretas Já!, estreou no Espírito Santo, em um comício realizado em Vitória. O evento, realizado em 1983, aconteceu de maneira improvisada, segundo conta Francisco Celso, e sequer consta na lista “oficial” dos comícios da campanha. Contudo, o Espírito Santo foi lembrado, posteriormente, como o estado que inaugurou a campanha.

10. A influência dos militares na política do Espírito Santo

Foto: arquivo público do es

Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho Lacerda, foi o último governador eleito antes da Ditadura Militar, em 1963. Com o golpe, ele renunciou ao cargo sendo substituído por seu vice, Rubens Rangel, que havia ficado em segundo lugar nas eleições e era membro da Arena, o partido dos militares.

A partir disso todos os outros governadores foram indicados pelo governo militar. São eles Cristiano Lopes Filho (1967-1971), Arthur Gerhardt (1971-1975), Élcio Alvares (1975-1979) e Eurico Resende (1979-1983). Deles, apenas Élcio seguiu na carreira política, sendo eleito senador, entre 1991 e 1994; nomeado ministro da Indústria e Comércio, em 1994, e da Defesa, em 1999. Elegeu-se deputado estadual em 2006 e se reelegeu em 2010. 

Gerson Camata (PMDB) foi o primeiro a ser eleito na reabertura democrática, em 1983.

11. Políticos capixabas cassados durante a ditadura

Foto: Assembleia Legislativa

Dois deputados estaduais do Espírito Santo tiveram seus mandatos cassados durante a Ditadura Militar. Em 1969, José Ignácio Ferreira e Dailson Laranja faziam parte do MDB e foram destituídos do cargo. Ferreira teria sido acusado de subversão após ler em plenário a carta de um padre que reclamava da cobrança de impostos praticada pelo Governo Federal. Daílson Laranja apoiou Ignácio na Assembleia Legislativa do Espírito Santo. No ano passado, eles tiveram os mandatos devolvidos, de maneira simbólica, em uma homenagem do Legislativo.