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Hartung diz que vai passar o bastão para a mão de quem o eleitor decidir

Eleições 2018

Política

Hartung diz que vai passar o bastão para a mão de quem o eleitor decidir

Numa conversa de uma hora com a TV Vitória e o jornal online Folha Vitória, o governador do Espírito Santo garante que a definição de quem será candidato é dos partidos e não dele

Alex Pandini

Redação Folha Vitória

O governador Paulo Hartung (MDB) recebeu nesta segunda (16) o jornalismo da Rede Vitória no gabinete dele, no Palácio Anchieta. Durante uma hora, Hartung falou sobre a decisão que surpreendeu a todos, de não concorrer à reeleição, fez uma avaliação da gestão que se encerra, e sobre o que pretende fazer da vida a partir de janeiro do ano que vem. O governador também analisou o quadro político local sem a presença do próprio nome na disputa, e ainda, externou preocupação quanto à política nacional, que indica possibilidades de vitória do candidato Jair Bolsonaro (PSL) para a presidência da república.

Rede Vitória: O senhor disse que é hora de passar o bastão. Duas leituras possíveis são, a primeira, de que o senhor está querendo passar o bastão para um aliado, a outra, de que possa haver uma alternância de poder.

Paulo Hartung: Olha, eu vou passar o bastão. Quem vai definir pra mão de quem irá, é o dono do bastão, que é o cidadão capixaba, que vai eleger democraticamente aquele que vai ficar aqui durante os próximos quatro anos, com a responsabilidade - e é uma baita responsabilidade, é importante dizer - de conduzir as questões do governo do estado do Espírito Santo. Nós não podemos na política formar lideranças que se eternizam no poder. Quando me elegi eu falei isso, que cumpriria o mandato.

Rede Vitória: O senhor fez mandatos que foram muito bem avaliados, os dois primeiros consecutivos, e neste terceiro, apesar de ter uma boa avaliação lá fora, parece que aqui dentro ainda não há essa visão. As pesquisas mostram que não há uma avaliação tão favorável quanto antes.

Paulo Hartung: Eu acho que não, o que se viu nas pesquisas, todas elas, inclusive nas que vocês publicaram, é que o nome era absolutamente competitivo, isso é pouca coisa? Para quem está na função de governo, debaixo da maior crise econômica, política que o país entrou? E mesmo debaixo dessa crise, você pega a sua pesquisa lá, um nome absolutamente competitivo, pega a avaliação do governo, é uma avaliação positiva, diferenciada no Brasil nesse momento atual, é um bom sinal.

Você está comparando mais com o segundo governo (o segundo mandato, entre 2006 e 2010), é o auge das commodities, nós somos um estado que trabalha com commodities, é um momento em que circulou mais dinheiro na sociedade. Queira ou não, num momento como esse você tem a população tendo mais oportunidades, então tem mais satisfação na população. Agora, commodities não é governador que dá preço, nem presidente da república, é o mercado internacional.

Rede Vitória: O senhor está dizendo que o parâmetro de avaliação das pessoas muda. Acha que isso é um pouco injusto?

Paulo Hartung: Acho que não, acho que o que aconteceu é que, em algum momento decisões que nós tivemos que tomar foram incompreendidas. Não tem essa questão de justo ou injusto, foram incompreendidas. Qual é o papel do líder? É fazer o certo, é procurar o caminho certo. Às vezes ter que conviver com a incompreensão faz parte da vida de quem lidera. Não faz parte de quem lidera corretamente é ser maria-vai-com-as-outras. Isso não faz parte, empurrar as pessoas numa direção que agrada num primeiro momento e na verdade leva pro buraco no médio e no longo prazo. Quantas vezes você viu isso no Brasil?

Eu acho que uma coisa que fez o capixaba pensar foi a situação do Rio de Janeiro. Nós somos muito próximos, tem gente que mora aqui e tem parente lá, e conversa sobre o que está acontecendo no Rio. Ali, muita gente começou a refletir. Já no segundo semestre do ano passado, a cada pesquisa publicada o governo estava com uma aprovação popular um pouco maior.

Rede Vitória: Após o anúncio da sua desistência, a base aliada inicialmente manteve um discurso de coesão, mas no final de semana surgiram posições divergentes, o PSD pensando em fazer coligação com PROS e PRB, há rumores de que Amaro Neto pode compor com Rose, Amaro e Ricardo Ferraço tiraram os nomes para a candidatura majoritária, César Colnago parece não agradar a base, e já estaria conversando com o PSB, o PTB deve seguir outro caminho, enfim, o senhor não teme que, sem a sua candidatura essa base possa se enfraquecer?

Paulo Hartung: Eu acho que a partir de agora é papel das lideranças políticas conduzirem o processo. Eu tenho é que agradecer às lideranças desses diversos partidos pelo apoio que deram e estão dando para a condução desse governo. Tenho que agradecer também porque estavam todos eles pedindo para eu ser candidato à reeleição. Isso é um gesto de carinho.

Agora, a construção do caminho pertence às lideranças partidárias, eu não sou líder partidário, são os dirigentes dos partidos que têm que fazer essa construção. O que vai sair desse processo? Vamos ver. Tem que ter paciência. Essa coisa normalmente tem idas e vindas, se fosse eu o candidato também teria, é absolutamente normal. Mas chega um momento em que vai ter que ter convenção, aí tem as coligações, aí você tem o quadro definido. Os quatro nomes colocados são bons nomes, professor Aridelmo, Ricardo, Amaro, o César, são bons nomes. 

O grupo está conversando com a senadora Rose de Freitas também, eu estou vendo pelos jornais. É bom ter esse diálogo. Fundamental é entregar o governo organizado, com políticas públicas funcionando, na área de educação, de saúde, de atenção ao jovem que não estuda e não trabalha, de atenção ao meio ambiente, cuidar de ampliar a coleta de tratamento de esgoto, isso é que é fundamental. O legado desse governo, na minha opinião, pertence ao cidadão capixaba. Não é quem vai sentar aqui (apontando para a cadeira de governador). Quem vai sentar aqui será quem o capixaba achar que está na hora de colocar. E o nome que ele colocar terá o meu respeito, porque eu sou um democrata.

Então, é uma passada de bastão depois de uma jornada bonita, que eu estou transformando em livro onde conto essa experiência de governo. Vou passar o governo mais organizado das 27 unidades federadas do Brasil, com as contas em dia, mas muito mais do que isso, com uma baita inovação na área de políticas sociais. 

Rede Vitória: O senhor diria que este terceiro mandato, com circunstâncias tão adversas, foi o mais desafiador?

Paulo Hartung: Não, o maior foi o primeiro mandato, quando peguei as contas já completamente desorganizadas e uma teia criminosa que caracterizava o crime organizado. Ali, sim, foi o maior desafio que enfrentei na vida. O doutor Alexandre foi assassinado (o juiz Alexandre Martins de Castro Filho) nos primeiros meses do meu mandato. Os salários dos servidores estavam atrasados, não se pagava direitos e vantagens, não pagava progressão e promoção dos servidores, era um rombo nas contas astronômico. Ali foi um desafio político e gerencial maior.

O desafio agora tem uma característica. O Brasil estava entrando numa crise em 2014, eu falava isso e muita gente dizia que eu era pessimista e olha o tamanho da crise que o Brasil entrou. Eu fui das primeiras pessoas a falar isso com clareza. Outro problema que tinha era que o Espírito Santo veio assumindo despesas superiores à capacidade da receita, e além disso tive que administrar debaixo de uma crise hídrica brutal e que não estava no radar de ninguém, e estou tendo ainda que administrar debaixo da paralisação da Samarco. 

Atravessar isso tudo, com o orçamento de 2015 inferior a de 2014, de 2016 menor do que 2015, olha bem. E manter todas as contas em dia, todos os serviços funcionando, manter os fornecedores recebendo em dia, quer dizer, isso é o quê? Isso é gestão. Por que os outros estados não conseguiram isso que nós conseguimos? Diante da crise nacional outros estados foram pro buraco. O Rio diz que foi por causa da indústria do petróleo e gás. Ora, a indústria do petróleo e gás pegou o Rio e pegou o Espírito Santo também, na mesma proporção, por que eles foram parar na UTI e a gente não? É isso que me dá muito orgulho da condução do estado do Espírito Santo, e muito orgulho da equipe que trabalha comigo, que é um timão.

Veja a entrevista completa do Jornal da TV Vitória

Rede Vitória: Em virtude de todas essas questões, por que não tentar a reeleição?

Paulo Hartung: Porque ninguém precisa se eternizar em função pública, não é? Eu acho que tem que abrir espaço para novas lideranças crescerem e se desenvolverem. Volto a dizer, fui bem sucedido nas oito eleições que disputei, sou muito grato aos capixabas, mas também trabalhei duro em cada oportunidade que tive, fui atrás de soluções para problemas desafiadores do estado, você olha o trabalho feito lá no governo passado, oito anos, agora vamos completar quatro anos de trabalho, é intenso, buscando soluções e caminhos para fazer a evolução do estado.

Agora é hora de passar o bastão para uma outra liderança sentar aqui e assumir as responsabilidades, são responsabilidades pesadas, e conduzir o governo por mais quatro anos.

Rede Vitória: Esse é um ano que também tem eleição para presidente da república. O senhor pretende se envolver com a política nacional?

Paulo Hartung:  Eu já disputei oito eleições, sou agradecido aos capixabas, pois foram oito eleições vitoriosas. Eu não vou mais concorrer a cargo eletivo. Vou continuar militando na política, porque eu acredito na política e quero transmitir isso aos jovens. Política é ferramenta civilizatória, se tem coisa errada a gente corrige. 

Vou participar da disputa nacional apoiando um candidato, seguramente. Mas eu faço um alerta, acho que o país nesse momento está flertando com o caminho errado. Eu vejo as pesquisas de opinião, é assustador o que começa a aparecer nas pesquisas para presidente do nosso país (referindo-se a Bolsonaro). O Brasil já andou muito errado nesses últimos anos, se a gente dobrar a aposta que foi feita, no populismo, na ideia de que governo pode tudo, que quando quer intervém, faz e acontece, nós vamos flertar com a Venezuela. Não deveríamos flertar com um descaminho como esse, precisamos é encontrar formas de transformar o imenso potencial que esse país tem em oportunidades para os nossos jovens.

Rede Vitória: O senhor está há 35 anos na vida política. O que pretende fazer sem mandato a partir de janeiro do ano que vem?

Paulo Hartung: Eu vou voltar para a minha profissão, eu sou economista, já fui diretor do BNDES, um dos maiores bancos de fomento da América Latina. Já fiquei sem mandato anteriormente, em 2010, quando terminamos aquela jornada bonita, na qual tiramos o Espírito Santo das mãos do crime organizado, reorganizamos o estado, eu não disputei eleição, abri mão dessa possibilidade e fiquei quatro anos trabalhando na vida privada. Fiz parte de dois conselhos de empresas privadas (foi membro dos Conselhos de Administração da EDP e da Veracel), foi uma experiência interessante na minha vida. 

E o fato de que não vou mais disputar mandatos eletivos não me coloca longe da militância e do debate político. Eu vou percorrer toda a minha vida com presença ativa na militância política, fazendo o bom debate, na sociedade local e no contexto nacional. A prática política no Brasil está no chão, é horrorosa, mas não podemos virar as costas para a política. Precisamos é modernizar as instituições, mas nunca virar as costas nem para a política nem para a democracia. Ouço muita gente falando em intervenção militar. Isso não é caminho, é descaminho.