Venda de sentença: Hilário recebeu investigados na sede da Polícia Civil, aponta MPES

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Venda de sentença: Hilário recebeu investigados na sede da Polícia Civil, aponta MPES

Uma das pessoas que teriam tido contato com o ex-policial na Chefatura da Polícia Civil foi Valmir Pandolfi, apontado pelo MPES como o responsável por transportar o dinheiro utilizado no suposto pagamento de propina

Rodrigo Araújo

Redação Folha Vitória
Foto: TV Vitória
Hilário Frasson é suspeito de intermediar venda de sentença para beneficiar empresa imobiliária

O ex-policial civil Hilário Frasson, investigado por intermediar uma venda de sentença no Fórum da Serra, em 2017, teria recebido outros suspeitos de envolvimento com o caso na Chefatura da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), em Vitória, sede da corporação.

De acordo com as investigações do Ministério Público Estadual (MPES), os encontros ocorreram em março daquele ano, durante o expediente de Hilário. Na época, ele era assessor do então chefe da Polícia Civil, delegado Guilherme Daré, e trabalhava na chefatura.

Uma das pessoas que teriam tido contato com Hilário na sede da PCES foi Valmir Pandolfi, apontado pelo Ministério Público como o responsável por transportar o dinheiro utilizado no suposto pagamento de propina.

As informações sobre os encontros foram extraídos, pelos promotores do MPES, de conversas telefônicas e por troca de mensagens entre o ex-policial civil e os outros suspeitos.

O órgão ministerial teve acesso aos diálogos após a Justiça autorizar a quebra do sigilo telefônico de Hilário Frasson, que também é acusado de mandar matar a ex-esposa, a média Milena Gottardi, em setembro de 2017. 

Durante investigação sobre o assassinato, os promotores do Ministério Público descobriram ligações do ex-policial civil com um "juiz amigo" da Serra, que depois o MPES descobriu se tratar de Alexandre Farina, diretor do Fórum daquela comarca.

Farina também é suspeito de intermediar a venda da sentença, que beneficiou a empresa Cecato Negócios Imobiliários, de propriedade do empresário Eudes Cecato. A decisão foi proferida pelo juiz Carlos Alexandre Gutmann, que também atua no Fórum da Serra. 

Os dois magistrados foram afastados de suas funções na última quinta-feira (15), por decisão unânime dos desembargadores do Pleno do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES). O afastamento cautelar foi requerido pelo Ministério Público, para evitar que eles atrapalhem a sequência das investigações.

Já Hilário Frasson continua preso, acusado de ser um dos mandantes do assassinato de Milena Gottardi. A previsão é que ele e os demais cinco réus denunciados por esse crime sejam julgados no próximo dia 23 de agosto. Além disso, Hilário foi expulso da Polícia Civil, no ano passado.

Encontros na Chefatura da PCES

O primeiro a ser recebido por Hilário na chefatura da Polícia Civil foi Alexandre Farina, segundo relatório elaborado pelo Ministério Público sobre o conteúdo encontrado no aparelho telefônico do ex-policial.

Foto: Reprodução
Hilário teria encontrado alguns investigados na Chefatura da Polícia Civil, em Vitória

No dia 7 de março de 2017, uma terça-feira, quatro dias após a sentença proferida por Gutmann, Farina pede um encontro com Hilário para tratar do suposto pagamento da propina. Nos dias anteriores, o juiz teria mandado diversas mensagens para o ex-policial, cobrando o dinheiro combinado.

Alexandre Farina:
"Da p encontrar amanhã??? QQ horário"
"Sei irmão mas entenda uma coisa só. Foi dito que: SAIU TA NA MÃO!!! Como disse a vc tem um terceiro que ouviu isso de mim. E agora???"
Hilário Frasson:
"Passa na chefatura as 12:30"
"Vai vir conforme cronograma" 
Alexandre Farina:
"Foi dito inclusive a data ou seja para se programar e não ter erro"
"Tudo bem falamos amanhã na chefatura as 12:30."

De acordo com a troca de mensagens à qual o MPES teve acesso, no dia seguinte, Hilário e Farina realmente se encontram na portaria central da Chefatura de Polícia.

Às 11h56, Hilário escreve para Farina: "15 minutos na portaria central". O juiz, por sua vez, responde com um OK. Às 12h23, o ex-policial diz: "Estou aqui".

O MPES verificou também duas ligações telefônicas entre os dois, no mesmo dia: uma às 12h06 e outra às 12h18.

Ainda segundo o relatório, depois do encontro, Alexandre Farina envia mais uma mensagem a Hilário, utilizando o termo "vaca" para referir-se ao pagamento da suposta propina. 

Alexandre Farina:
"Avise ao amigo para trazer de 3 a 4 vacas sexta-feira"
"Por fv"

No dia 29 de março, os dois trocam mensagens para combinar um novo encontro na chefatura, no dia seguinte, no intuito de acertar o pagamento. 

De acordo com o conteúdo extraído pelo MPES das conversas, Hilário se compromete a pegar o dinheiro com Eudes Cecato, após Farina dizer ao ex-policial que não conseguiria se encontrar com o empresário. 

Hilário afirma que se encontraria com Cecato na manhã do dia 30.

Hilário Frasson:
"Só posso ir as 10:00 "
Alexandre Farina:
"eu heim, é vc que resolve irmão"
"Tudo bem"
"Vc retoma que horas???"
Hilário Frasson:
"Bate e volta"
Alexandre Farina:
"Te encontro as 11h, onde???"
Hilário Frasson:
"Acho que só volto as 12"
Alexandre Farina:
"Na sua casa?"
Hilário Frasson:
"Da tempo não"
Alexandre Farina:
"Te encontro la na chefatura as 12h"
Hilário Frasson:
"Ok"
Foto: Montagem / Folha Vitória
Ministério Público encontrou conversas entre Alexandre Farina (esquerda) e Hilário Frasson

Entretanto, no início da manhã do dia 30, data em que, segundo as investigações, o pagamento seria efetuado, Hilário avisa a Farina que um motorista buscaria o "documento" e que o repassaria para o ex-policial, no município de Fundão.

Hilário Frasson:
"Um motorista meu vai buscar as 08:00 horas pra mim"
"Acho que as 10;00 horas já está de volta"
"Chegando levo até você"
"Vai trazer até fundão e eu vou daqui a pouco a fundão pegar com ele. Dai me adianta"
Alexandre Farina:
"Bom dia."
"Obrigado irmão"
Hilário Frasson:
"Estou quase indo já"
"Buscar o documento rapaz" 
Alexandre Farina:
"Ok"
"Onde???"

Na manhã do mesmo dia, Hilário envia mensagens para Eudes Cecato, informando que uma terceira pessoa buscaria a "documentação" para o "rapaz da serra" — provavelmente em referência a Alexandre Farina. 

Ao ser questionado sobre quem iria buscar o suposto pagamento, Hilário informa que seria Valmir Pandolfi, morador de Fundão. O MPES constatou que o ex-policial civil e o "mensageiro" realizaram seis chamadas telefônicas na manhã daquele dia 30 de março.

As ligações efetuadas por Hilário, segundo o Ministério Público, acionaram a antena de telefonia móvel instalada na Rua José Farias, em Santa Lúcia, Vitória, ao lado da sede da Polícia Civil.

Já as chamadas feitas por Pandolfi teriam acionadas antenas em regiões diferentes. A primeira, às 11h55, foi efetuada na zona rural de Fundão. 

Já a segunda, às 15h56, acionou a antena que fica ao lado da chefatura, dando a entender que os dois se encontraram naquela região. No entanto, não há comprovação de que o dinheiro foi entregue a Hilário nesse momento.

Foto: Reprodução/MPES
Ligações feitas por Pandolfi (laranja) foram feitas na zona rural de Fundão e nas proximidades da Chefatura da Polícia Civil

O relatório do MPES aponta ainda que, na tarde do mesmo dia, Hilário se encontrou com Luiz Alberto Lima Martins, advogado da Cecato Negócios Imobiliários, na sede da PCES.

Luiz Alberto:
"Já chegou? Tá na PÇ?"
Hilário Frasson:
"Cheguei"
Luiz Alberto:
"Tô recepção"
Hilário Frasson:
"Desc.o em três minutos"

O ex-policial e o advogado também realizaram chamadas telefônicas na mesma manhã. Segundo o Ministério Público, nos registros do histórico de chamadas, verificou-se que Luiz Alberto estava na região de Planalto Serrano, na Serra, às 11h02. 

Vinte minutos depois, o telefone dele acionou a antena localizada na Avenida Fernando Ferrari, em Jardim da Penha, sendo que, nesta última chamada, a Chefatura da Polícia Civil esteve dentro da área de cobertura.

O outro lado: o que dizem as defesas dos investigados no esquema

O advogado do juiz Alexandre Farina, Rafael Lima, disse que ainda não teve acesso ao processo na íntegra.

"O julgamento foi uma surpresa para todos nós porque o processo está em segredo de Justiça. Se falou tanto em apuração de vazamento do processo e, no entanto, o julgamento foi público. Nós respeitamos, vamos acatar a decisão do Tribunal e nos inteirarmos do processo para nos posicionarmos melhor".

Por nota, os advogados Israel Jorio e Raphael Boldt, responsáveis pela defesa de Carlos Alexandre Gutmann, negaram veementemente qualquer envolvimento do juiz com os fatos apurados pelo Ministério Público.

"Ao lado da certeza de sua inocência pesam os dezoito anos de serviços prestados com reconhecida qualidade e incólume reputação. A defesa acredita que a Justiça chegará à verdade", informaram os advogados.

Além disso, Gutmann se manifestou, também em nota, negando ter recebido dinheiro para proferir a sentença e que a decisão teve "embasamento legal e jurídico".

"Garanto que não há e não surgirá uma única comunicação minha com os demais investigados que possa ser associada a tratativas, negociações, favores indevidos ou infrações de deveres funcionais", ressaltou o magistrado, na nota.

O advogado Luiz Alberto Lima Martins informou que está seguro em relação à sua atuação profissional e à legalidade de seus atos, já tendo se colocado à disposição da Justiça para esclarecimentos. Acredita, ainda, que toda a verdade será esclarecida.

A reportagem não conseguiu contato com as defesas de Hilário Frasson, Valmir Pandolfi e Eudes Cecato.

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