Em nova carta, coronéis da PM descartam greve da polícia no ES

Política

Em nova carta, coronéis da PM descartam greve da polícia no ES

Integrantes da alta patente da Polícia Militar negam que participarão de um plano de paralisação das atividades policiais como a que ocorreu em 2017

Marcelo Pereira

Redação Folha Vitória
Foto: Divulgação/ Prefeitura de Vitória/ Diego Alves

Em uma nova carta, 15 coronéis do alto escalão da Polícia Militar negaram que haveria a preparação para uma nova greve da corporação, como a ocorrida em 2017.

O documento, agora endereçado à sociedade capixaba, está circulando na tarde desta quarta-feira (08) em redes sociais dos militares e também em sites de associações dos agentes como a Associação dos Oficiais Militares do Espírito Santo (Assomes)/Clube dos Oficiais.

Em um trecho, eles afirmam que está havendo "inúmeras manipulações e distorções da verdade". A referência é à outra carta, escrita na semana passada e enviada ao secretário estadual de Segurança Pública, Alexandre Ramalho, com reclamações da categoria, com queixas sobre as atuais condições salariais dos policiais no Espírito Santo e cobrando mais diálogo com o Governo do Estado.

Foto: Reprodução
Carta foi publicada no site da Associação dos Oficiais Militares do Espírito Santo (Assomes)/Clube dos Oficiais

Os autores reforçaram que a última carta não conteria nenhuma ameaça ou plano de paralisação da categoria. 

"O que obviamente se trata de uma campanha caluniosa e difamatória perpetrada por interesses escusos, sem qualquer compromisso com a proteção da sociedade, o que não é o caso destes coronéis, fiéis defensores da lei e da ordem, da hierarquia e disciplina, conforme já se testemunhou no passado e até hoje por seus pares e subordinados. Quanto aos agentes responsáveis por tamanha leviandade serão adotadas as medidas judiciais próprias", afirmam os coronéis.

Os "agentes" a quem eles se referem não se tratam de policiais. Segundo fonte ligada ao grupo dos coronéis, ouvida pelo Folha Vitória, trata-se de um blog de notícias, que, na visão do grupo, está disseminando fake news.

A fonte também fala que a carta anterior respeitou toda a hierarquia e o tratamento profissional de acordo com a atual administração do Governo do Estado. 

Discussão interna

O texto da carta descreve que o documento era para discussão interna, "dirigido a autoridade máxima da segurança pública, mediante ciência dada ao Comandante-Geral". 

"Na última quinta-feira, (dia 1 de dezembro), logo após o secretário despachar de volta a solicitação de agenda de reunião, uma reunião de Alto Comando foi convocada pelo Comandante-Geral sendo que todos os assuntos corporativos foram apresentados e comprometendo-se o Cmt Geral em dar encaminhamento interno e aos escalões superiores para resposta ao Alto Comando da PMES, como sempre foi a praxe gerencial na PMES, de maneira que reafirmamos nosso compromisso com a ética, lealdade, verdade e integridade institucional, respeitando as autoridades legais e instituídas do Comando-Geral, Secretário de Segurança Pública e Governador do Estado", diz a carta.

A Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar do Estado do Espírito Santo (ACS-ES) foi procurada também para se posicionar a respeito das ações do governo estadual e os desdobramentos a partir da primeira carta assinada pelos 15 coronéis, onde cita que a tropa estava insatisfeita. 

 A instituição afirmou que irá se posicionar ainda na tarde desta quarta-feira (08).

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Leia carta na íntegra:

NOTA DE ESCLARECIMENTO À SOCIEDADE CAPIXABA

Os Coronéis que abaixo subscrevem, diante de inúmeras manipulações e distorções da verdade propagadas em redes sociais e em blogs de notícias falaciosas, vêem a público, diante da sociedade capixaba, repudiar com veemência as falsas ilações e afirmações de que o objetivo do documento produzido pelos signatários, remetido ao Exmo. Sr. Secretário de Segurança Pública, que dirige e coordena as corporações de Segurança Pública, teria relação com um suposto plano ou ameaça de paralisação dos serviços da Polícia Militar, o que obviamente se trata de uma campanha caluniosa e difamatória perpetrada por interesses escusos, sem qualquer compromisso com a proteção da sociedade, o que não é o caso destes coronéis, fiéis defensores da lei e da ordem, da hierarquia e disciplina, conforme já se testemunhou no passado e até hoje por seus pares e subordinados.

Quanto aos agentes responsáveis por tamanha leviandade serão adotadas as medidas judiciais próprias.

Por fim, os Coronéis signatários declaram que o documento era de natureza interna, dirigido a autoridade máxima da segurança pública, mediante ciência dada ao Comandante-Geral, pela mesma via, e visava tão somente solicitar agenda de reunião do coronelato justamente para que fossem restabelecidos os canais de comunicação internos essenciais para a boa gestão estratégica da corporação, sobretudo os que envolvem assuntos sensíveis de interesse geral da Instituição.

Na última quinta-feira, logo após o Secretário despachar de volta a solicitação de agenda de reunião, uma reunião de Alto Comando foi convocada pelo Comandante-Geral sendo que todos os assuntos corporativos foram apresentados e comprometendo-se o Cmt Geral em dar encaminhamento interno e aos escalões superiores para resposta ao Alto Comando da PMES, como sempre foi a praxe gerencial na PMES, de maneira que reafirmamos nosso compromisso com a ética, lealdade, verdade e integridade institucional, respeitando as autoridades legais e instituídas do Comando-Geral, Secretário de Segurança Pública e Governador do Estado.

CEL QOCPM ALESSANDRO JUFFO RODRIGUES

CEL QOCPM ALESSANDRO MARIN

CEL QOCPM CARLOS ALBERTO BARIANI RIBEIRO

CEL QOCPM CARLOS NEY DE SOUZA PIMENTA

CEL QOCPM EDMILSON BATISTA SANTOS

CEL QOCPM EVANDRO TEODORO DE OLIVEIRA

CEL QOCPM JOSE AUGUSTO PICCOLI DE ALMEIDA

CEL QOCPM LAURISMAR TOMAZELLI

CEL QOCPM MOACIR LEONARDO VIEIRA BARRETO MENDONÇA

CEL QOCPM MARCELO PINTO ABREU

CEL QOCPM MARCIO EUGENIO SARTORIO

CEL QOCPM ODILON JOSÉ PIMENTEL

CEL QOCPM OSCAR PATERLINE MENDES

CEL QOCPM PAULO CESAR GARCIA DUARTE

CEL QOCPM ROBSON ANTONIO PRATTI

Nesta terça-feira (08), o comandante-geral da PMES, coronel Douglas Caus, disse que já fez reuniões com os coronéis sobre os assuntos abordados na carta.

"A Polícia Militar já fez as devidas reuniões, as tratativas e encaminhou ao secretário de Segurança Pública, para que ele dê os encaminhados devidos", afirmou o comandante. 

O Folha Vitória procurou a Secretaria de Segurança Pública (Sesp), mas o órgão ainda não se manifestou sobre o assunto. 

Policiais e bombeiros foram os únicos servidores do ES a receber reajuste em 2020, diz governo

Um dos pontos de reivindicação dos 15 coronéis da Polícia Militar que assinaram a carta endereçada ao secretário estadual de Segurança Pública, Alexandre Ramalho, com reclamações da categoria, diz respeito às atuais condições salariais dos policiais no Espírito Santo.

De acordo com os coronéis, a Polícia Militar capixaba é uma das mais mal remuneradas do país, entre as 27 unidades da Federação. "Um soldado está penando para pagar suas contas. Tudo isto num estado com nota A no tesouro", destaca um trecho do documento.

Por outro lado, o governo estadual alega que os profissionais das forças de segurança foram os únicos que receberam reajuste salarial desde 2020.

Além disso, receberão normalmente o reajuste linear previsto para todos os servidores estaduais em 2022, como anunciou o governador Renato Casagrande, para a jornalista Fabiana Tostes, na estreia do programa "De Olho no Poder com Fabi Tostes", na Jovem Pan News Vitória (90.5 FM), na última quinta-feira (02).

Durante a entrevista, Casagrande afirmou que os profissionais das forças de segurança do Estado estão recebendo os devidos reajustes, aprovados em março do ano passado e que serão concedidos até o final do ano que vem.

"Nós estamos aplicando o acordo que a gente fez com eles, que termina em dezembro de 2022. Já tivemos alguns aumentos, teremos outros ao longo de 2022, no meio do ano e no final do ano que vem", frisou o governador, que lembrou ainda que ficou impedido de conceder reajustes a outras categorias em função da lei federal 173/2020, editada pelo governo federal em contrapartida ao socorro financeiro concedido a Estados e municípios durante a pandemia.

"Estamos proibidos até 31 de dezembro deste ano de conceder qualquer aumento", destacou.

O último reajuste concedido pelo governo estadual a todos os servidores ocorreu em dezembro de 2019, quando houve um aumento salarial de 3,5%. Na ocasião, os vencimentos dos coronéis ficaram entre R$ 14.987,62 a R$ 19.775,85 (para os profissionais com 30 anos de carreira), segundo informações do Portal da Transparência do governo do Estado.

Em março de 2020, quando foi aprovado o reajuste escalonado para policiais e bombeiros militares, os salários dos coronéis chegaram a R$ 20.566,88. Desde julho deste ano, os vencimentos para esses militares estão em R$ 21.389,56.

Pelo escalonamento, estão previstos mais dois reajustes no ano que vem: um em julho e outro em dezembro. Com isso, os salários dos coronéis chegarão a R$ 22.245,14 e R$ 23.382,68, respectivamente.

Oficiais afirmam que reajustes salariais não foram satisfatórios

Para o diretor administrativo da Associação dos Oficiais Militares do Espírito Santo (Assomes)/Clube dos Oficiais, major Lucio Bolzan, os reajustes concedidos ultimamente pelo governo estadual não foram satisfatórios para os policiais, já que não houve uma correção em relação à inflação.

"O governo estadual não aplicou os índices de revisão geral da inflação e, com isso, continuamos com um dos piores salários em nível nacional. Estamos em condições tão ruins quanto as do governo anterior", afirmou o major, que disse ainda que as reivindicações contidas na carta feita pelos coronéis são pleitos antigos das entidades que representam os policiais militares do Estado.

Na entrevista da última quinta-feira, Casagrande admitiu que a correção anual dos salários está pendente, mas afirmou que ela não pode superar a inflação.

"Nós ficamos de conceder anualmente uma correção linear do salário, que está pendente. Não é inflação, porque a correção linear é sempre abaixo da inflação".

Entretanto, o presidente do Clube dos Oficiais, coronel Marco Aurélio Capita, destacou que o governador havia se comprometido, durante a negociação salarial da categoria, no início do ano passado, a repor a inflação dos anos de 2020, 2021 e 2022.

"Ele já disse que não vai cumprir o pacto que fez com a categoria. Diante disso, se a proposta apresentada na época já não atendia às nossas expectativas, agora muito menos".

A proposta salarial do governo do Estado para policiais e bombeiros militares, apresentada no dia 2 de março de 2020, previa três reajustes de 4%, para março daquele ano, julho de 2021 e julho de 2022, além de reajuste linear da inflação para os meses de dezembro de 2020, 2021 e 2022, entre outras mudanças.

Casagrande nega possibilidade de mudar comando da PM e Sesp

De acordo com informações da coluna De Olho no Poder, da jornalista Fabiana Tostes, Renato Casagrande descartou mudar o comando da PM e da Secretaria de Segurança no Estado, postos ocupados atualmente pelo coronel Douglas Caus e pelo também coronel Alexandre Ramalho, respectivamente.

A coluna informa ainda que, na tarde de segunda-feira (06), foi publicado o “Boletim Especial do Comando Geral número 63”, com mudanças e transferências envolvendo dois dos coronéis que assinaram a carta-manifesto.

O coronel Carlos Ney de Souza Pimenta, que estava no comando do Policiamento Ostensivo Especializado (CPOE) — que atua em Vitória e é responsável, por exemplo, pelo Batalhão de Missões Especiais (BME) —, foi transferido para estar à frente do 6º Comando de Policiamento Ostensivo Regional (CPOR), na Serra.

Já o coronel Laurismar Tomazeli, que estava no comando do 6º CPOR, vai para o comando do CPOE. Também ocorreram outras mudanças entre as duas unidades e com outros quatro oficiais de patentes menores.

A coluna diz ainda que a carta escrita pelo coronéis pode ter relação com a eleição da Assomes, que acontece nesta quarta-feira (08). Duas chapas estão na disputa para assumir o comando da associação pelos próximos três anos e a leitura nos bastidores é que a carta pode ter sido uma jogada política para angariar votos.