Sede do MPES (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)
Sede do MPES (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

Encerram-se nesta segunda-feira (26) as inscrições para a formação da lista tríplice para o comando do Ministério Público Estadual no biênio 2026-2028. A eleição ocorre no dia 6 de março e, até a última sexta-feira (23), apenas o atual procurador-geral de Justiça, Francisco Berdeal, havia formalizado a candidatura.

Francisco se inscreveu logo no primeiro dia (19) e o cenário que se desenha é de uma candidatura única. Conforme noticiou a coluna De Olho no Poder na semana passada, dos seis candidatos que concorreram em 2024 – e que vinham sendo cotados para a disputa deste ano –, três já tinham desistido.

A promotora de Justiça Maria Clara Mendonça Perim foi a primeira a se posicionar. Em nota, ela informou que não concorreria, embora defenda uma oxigenação no comando da instituição. Na eleição passada, ela foi a terceira mais votada, com 97 votos, e integrou a lista tríplice.

Na sequência, os procuradores de Justiça Josemar Moreira e Marcello Queiroz revelaram à coluna que também não disputariam neste ano – Josemar, inclusive, declarou apoio a Francisco Berdeal.

Já os promotores Danilo Raposo Lírio e Pedro Ivo de Sousa – esse último o mais votado de 2024, com 146 votos – mergulharam. Mesmo após diversos contatos da coluna e já no final do prazo de inscrição, eles silenciaram e ainda não divulgaram se pretendem concorrer.

Ao que tudo indica, o silêncio e a espera fazem parte de um cálculo político que visa não só a eleição de agora, mas, sobretudo, a próxima.

Aposta na continuidade

Nas rodas de conversas de promotores e procuradores, há uma percepção praticamente consensual: Francisco Berdeal deve comandar o MPES por mais dois anos. E essa leitura não se apoia apenas na avaliação da sua gestão à frente da instituição.

Embora a expectativa seja a de que ele alcance uma votação maior que a de dois anos atrás – quando obteve 132 votos e ficou em segundo lugar na lista tríplice –, Francisco não é unanimidade. Há focos de insatisfação e oposição, entre a categoria, à sua condução.

Ainda assim, sua gestão à frente do MPES é associada à estabilidade institucional e a um diálogo bastante fluido com o Palácio Anchieta. Não há, ao menos que seja de conhecimento público, nenhum ruído entre o procurador-geral e o governador Renato Casagrande.

E esse ponto é central para entender a eleição do MPES.

Embora a votação interna forme a lista tríplice, cabe ao governador a escolha final do procurador-geral de Justiça — e este será o último PGJ a ser nomeado por Casagrande. Nesse cenário, o nome de Francisco agrada o governo.

Some-se a isso o histórico recente: nas últimas eleições internas do MPES, os candidatos à reeleição acabaram reconduzidos ao cargo. Resumindo: tudo sinaliza que Francisco, integrando a lista tríplice, seja o escolhido.

Perder perdendo x perder ganhando

No jogo de xadrez do MPES, o lance de agora visa o xeque-mate de 2028. Os potenciais adversários do atual PGJ pesam o custo de enfrentar as urnas num desfecho que já parece desenhado.

A derrota já é dada como certa. Mas, eles estariam avaliando se há chance de “perder ganhando” – ou seja, de performar melhor que em 2024, conquistando uma votação robusta – ou se o risco maior é de “perder perdendo”, minguando o capital político conquistado há dois anos acrescido de um desgaste desnecessário.

A leitura é que qualquer resultado obtido agora tende a impactar diretamente a próxima disputa do MPES, em 2028 – essa, sim, aberta e imprevisível, já que um novo governador estará à frente do Palácio Anchieta e Francisco não poderá disputar a reeleição.

Outra estratégia considerada pelos concorrentes seria a de não concorrer e preservar a imagem construída no último pleito, que foi bastante positivo, especialmente para os integrantes da lista tríplice – Pedro Ivo e Maria Clara. Nesse caso, não entrar em campo também seria uma forma de jogar.

Maria Clara fez esta escolha. Já Pedro Ivo, que tem sob seus ombros o peso simbólico de ter sido o mais votado na eleição passada, tem até o final do dia de hoje para se posicionar.

Disputa contra o espelho?

Nos bastidores, entre membros do MPES ouvidos pela coluna, a aposta majoritária é que Francisco seja candidato único. Se a previsão se confirmar e o atual procurador for candidato único, a eleição de 6 de março deixará de ser uma disputa entre nomes para se tornar, na prática, um referendo.

Nesse cenário, o procurador-geral não enfrentará adversários, mas os números. A votação – ou a taxa de abstenção – funcionará como termômetro da aprovação de sua gestão e indicará o tamanho da sua força para os dois anos finais de mandato.

O resultado das urnas também irá ajudar a desenhar, desde já, o caminho da sucessão de 2028. A conferir.

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Fabiana Tostes

Jornalista graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e acompanha os bastidores da política capixaba desde 2011.

Jornalista graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e acompanha os bastidores da política capixaba desde 2011.