
Nas últimas décadas, a Venezuela passou a viver uma realidade que se tornou, aos olhos do mundo e de seu próprio povo, absolutamente insustentável. Um país que já figurou entre as economias mais prósperas da América Latina, sustentado por vastas reservas de petróleo, foi conduzido a um colapso econômico e institucional sem precedentes. Desde a consolidação do projeto chavista e, posteriormente, sob o governo de Nicolás Maduro, a combinação de autoritarismo político, desorganização econômica, corrupção sistêmica e isolamento internacional produziu efeitos devastadores.
Entre 2013 e 2025, o PIB venezuelano encolheu mais de 60%, a moeda foi dilacerada por ciclos prolongados de hiperinflação, e milhões de cidadãos passaram a depender de remessas externas ou da informalidade para sobreviver. Serviços públicos básicos deixaram de funcionar de forma minimamente regular, hospitais ficaram sem insumos, e a pobreza deixou de ser uma circunstância marginal para se tornar a condição predominante da população.
Esse colapso interno rapidamente transbordou as fronteiras nacionais, com significativo aumento do êxodo venezuelano a partir de 2015. Dessa forma, a crise venezuelana converteu-se em um problema regional de grandes proporções, gerando uma das maiores ondas migratórias da história contemporânea da América Latina. Países vizinhos, como Brasil, Colômbia e Peru, passaram a absorver milhões de venezuelanos em situação de vulnerabilidade, enfrentando pressões significativas sobre seus sistemas de saúde, assistência social e mercado de trabalho. Nesse contexto, qualquer perspectiva concreta de estabilização política e econômica da Venezuela interessa não apenas aos seus cidadãos, mas também às nações que há anos lidam com os efeitos colaterais do colapso institucional venezuelano.
Crise Venezuelana e Implicações Internacionais
A dimensão regional da crise revelou-se apenas a face inicial de um problema mais profundo e estrutural. O colapso do Estado venezuelano, a consolidação de um regime autoritário e o envolvimento crescente do governo Maduro com redes transnacionais de criminalidade, além de sua aproximação com potências globais interessadas em ampliar sua influência estratégica na região, fizeram com que a situação deixasse de ser percebida apenas como um problema sul-americano. Nesse contexto, a Venezuela passou a figurar como um fator relevante de instabilidade internacional. Ao longo dos últimos anos, os Estados Unidos intensificaram sanções, reconheceram lideranças opositoras e passaram a enquadrar o regime chavista como uma ameaça à segurança regional e hemisférica.
Foi nesse cenário de deterioração prolongada que, na madrugada de 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, retirando-os do poder e conduzindo-os para território americano para responder às acusações formais de narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína, tráfico de drogas e crimes relacionados ao uso e posse de armas de fogo. Em pronunciamento oficial após a operação, o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos assumirão temporariamente a administração da Venezuela durante o período de transição, com o objetivo declarado de restaurar a ordem institucional, garantir segurança interna e criar as condições necessárias para a reconstrução democrática do país. Segundo Trump, trata-se de uma administração transitória, voltada a assegurar uma passagem organizada para um novo arranjo político legitimado pelo voto popular.
Reações e Implicações da Intervenção Americana
Para muitos venezuelanos, sobretudo aqueles que permaneceram no país enfrentando anos de escassez, repressão e ausência de perspectivas, a captura de Maduro representa um marco simbólico e político de enorme relevância. Não se trata apenas da queda de um líder, mas da interrupção de um ciclo de poder que se sustentou pela corrosão sistemática das instituições, pela eliminação prática da alternância política e pelo uso do Estado como instrumento de autopreservação. A retirada desse núcleo autoritário abre espaço para a reconstrução democrática do Estado, para o restabelecimento das liberdades civis e políticas e para a reinserção da Venezuela no sistema econômico e diplomático internacional.
Essa intervenção, contudo, também deve ser compreendida como um movimento deliberado de reposicionamento estratégico dos Estados Unidos no tabuleiro energético global. A Venezuela concentra as maiores reservas de petróleo comprovadas do planeta e, ao longo dos últimos anos, tornou-se um ativo geopolítico relevante não apenas para Rússia e Irã, mas também para a China, que passou a absorver volumes significativos do petróleo venezuelano, financiar projetos no setor e utilizar essa relação como instrumento de segurança energética e projeção de influência no hemisfério ocidental. A desarticulação do regime chavista e a perspectiva de reorganização do setor petrolífero venezuelano sob parâmetros mais transparentes e alinhados à economia de mercado tendem a reduzir a margem de manobra desses três atores, afetando suas receitas, sua capacidade de contornar sanções e sua influência estratégica.
Como era previsível, surgiram críticas à ação americana sob o argumento de que ela configuraria uma violação da soberania venezuelana. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou-se nesse sentido em declarações públicas, por meio de postagens nas redes sociais, afirmando preocupação com a quebra da “soberania” de um Estado nacional. Essa posição, ainda que pareça coerente com uma tradição diplomática brasileira historicamente avessa a intervenções externas, não pode ser acolhida de forma automática. Ela merece um exame mais atento quando confrontada com a realidade concreta vivenciada pela Venezuela nos últimos anos, marcada por grave deterioração institucional, colapso econômico e sistemáticas violações de direitos fundamentais.
A soberania, em sua concepção liberal clássica, não é um conceito vazio nem um escudo absoluto para qualquer exercício de poder. Ela pressupõe a existência de um governo legítimo, fundado no consentimento dos governados, no respeito às liberdades individuais e na observância mínima do Estado de Direito. Quando um regime se perpetua por meio de eleições amplamente contestadas, repressão política, prisões arbitrárias e esvaziamento completo das instituições republicanas, a soberania popular já foi, na prática, violada de dentro para fora. O que se consolidou na Venezuela não foi um governo legítimo, mas uma ditadura, ainda que revestida de formalismos eleitorais.
Sob essa perspectiva, a ação que resultou na captura de Maduro não pode ser analisada exclusivamente como uma afronta abstrata à soberania, mas como uma resposta excepcional a uma situação igualmente excepcional, marcada por colapso institucional, crise humanitária e ausência prolongada de mecanismos internos eficazes de correção. Defender a intangibilidade de um regime que suprimiu liberdades, destruiu a economia e condenou milhões de pessoas à miséria significa, em última instância, relativizar o valor da liberdade em nome de uma soberania esvaziada de conteúdo democrático. A esperança que se abre agora, ainda que cercada de incertezas, é a de que a Venezuela possa finalmente iniciar um caminho de reconstrução institucional, justiça e desenvolvimento, devolvendo ao seu povo as condições mínimas de dignidade, liberdade e prosperidade.