
A recente divulgação de uma nova versão da pirâmide alimentar americana reacendeu o debate internacional sobre alimentação saudável, sustentabilidade e o papel da cultura na formulação de recomendações nutricionais.
O novo modelo propõe maior valorização de alimentos in natura ou minimamente processados, redução do consumo de açúcares adicionados e de gorduras saturadas, além de reforçar a importância de uma ingestão adequada de proteínas.
À primeira vista, trata-se de um avanço relevante frente a modelos anteriores, excessivamente centrados em produtos industrializados e em uma visão fragmentada dos nutrientes. No entanto, para quem acompanha a trajetória das políticas alimentares brasileiras, surge uma reflexão quase inevitável: esse movimento não representa, em grande medida, algo que o Brasil já vem defendendo há mais de uma década?
Guia alimentar brasileiro
Desde 2014, o Guia Alimentar para a População Brasileira é amplamente reconhecido como um dos documentos mais inovadores no campo da saúde pública nutricional.
Em vez de se limitar a tabelas de nutrientes e porções ideais, o Guia Alimentar Brasileiro propôs uma mudança paradigmática ao deslocar o foco para os alimentos, os modos de comer e o grau de processamento.
Ao alertar precocemente para os impactos negativos do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, o Brasil antecipou um debate que apenas recentemente passou a ocupar lugar central em diretrizes internacionais. Mais do que isso, o Guia Alimentar Brasileiro incorporou dimensões sociais, culturais e ambientais da alimentação, reconhecendo que comer é um ato que ultrapassa a simples ingestão de nutrientes.
Nesse sentido, a comparação entre a nova pirâmide americana e o Guia Alimentar Brasileiro evidencia um paradoxo recorrente: frequentemente celebramos como inovação aquilo que vem de fora, enquanto subestimamos ou negligenciamos políticas públicas e produções técnicas desenvolvidas internamente.
O Brasil construiu um documento baseado em evidências científicas sólidas, alinhado à realidade social do país e sensível às profundas desigualdades regionais que marcam o acesso aos alimentos. Ainda assim, muitas vezes o Guia Alimentar para a População Brasileira é pouco valorizado, pouco difundido e, em certos contextos, até relativizado frente a modelos estrangeiros.
Cultura alimentar
Outro aspecto central dessa discussão diz respeito à cultura alimentar de cada nação. Recomendações nutricionais não são universais nem neutras: elas refletem a história, a economia, o sistema produtivo e a gastronomia de cada país.
A alimentação tradicional americana, marcada por elevado consumo de produtos de origem animal e alimentos industrializados, ajuda a explicar algumas das escolhas feitas em suas diretrizes alimentares.
Já no Brasil, por décadas, a base da alimentação da população foi composta por arroz, feijão, hortaliças, frutas e preparações culinárias caseiras — um padrão alimentar reconhecidamente equilibrado do ponto de vista nutricional e profundamente enraizado na cultura nacional.
É justamente nesse ponto que surge uma reflexão crítica importante sobre algumas recomendações contemporâneas. Como conciliar a preconização da redução de gorduras saturadas com o estímulo ao aumento do consumo de proteína animal?
Em sistemas alimentares nos quais a principal fonte proteica continua sendo a carne vermelha e outros produtos de origem animal com maior teor de gordura saturada, essa equação se torna complexa.
Além das implicações metabólicas, há questões ambientais, econômicas e de acesso que precisam ser consideradas. O aumento indiscriminado do consumo de proteína animal pode aprofundar desigualdades, pressionar sistemas produtivos e gerar impactos ambientais relevantes.
No contexto brasileiro, discutir proteína de forma responsável significa também valorizar fontes vegetais, como as leguminosas — especialmente o feijão, alimento simbólico da nossa identidade alimentar.
Feijão, lentilha, grão-de-bico e ervilha oferecem excelente qualidade nutricional, são mais acessíveis, apresentam menor impacto ambiental e dialogam diretamente com a cultura alimentar do país. Ignorar esse patrimônio alimentar em favor de modelos importados representa não apenas um equívoco técnico, mas também uma perda cultural.
O Brasil produz conhecimento qualificado
Ao importar diretrizes ou celebrar mudanças externas sem uma análise crítica, corremos o risco de reforçar uma lógica colonial do conhecimento, na qual propostas só ganham legitimidade quando validadas por países centrais. Valorizar o que já temos não significa rejeitar o diálogo internacional, mas reconhecer que o Brasil produz conhecimento qualificado, contextualizado e comprometido com a saúde coletiva.
LEIA TAMBÉM | Quando a IA atrapalha: o risco do profissional de saúde que deixa de pensar
Talvez o maior desafio contemporâneo não seja criar novas pirâmides ou reformular guias, mas resgatar o reconhecimento social e institucional de que comer bem depende de políticas públicas consistentes, educação alimentar, valorização da cultura local e garantia de acesso real a alimentos de qualidade.
O Brasil já apontou esse caminho há anos. O que muitas vezes falta não é conhecimento ou evidência científica — é valorização, continuidade e compromisso com aquilo que já construímos.