Imagem: Freepik
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O uso de anti-inflamatórios faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Dor nas costas, dor de cabeça, inflamações musculares ou articulares costumam ser tratados com essas medicações, muitas vezes sem orientação médica.

Na prática clínica, observo com frequência que o acesso fácil e a falsa sensação de segurança transformaram os anti-inflamatórios em um dos principais fatores evitáveis de complicações graves, especialmente renais, cardiovasculares e gastrointestinais.

Os anti-inflamatórios interferem no organismo

Esses medicamentos atuam interferindo em mecanismos importantes do organismo, como a regulação do fluxo sanguíneo para os rins e a proteção da mucosa do estômago.

Em pessoas suscetíveis — idosos, hipertensos, diabéticos, pacientes com doença renal crônica, insuficiência cardíaca ou desidratação — o uso indiscriminado pode levar à queda abrupta da função renal, retenção de líquidos, elevação da pressão arterial, sangramentos digestivos e piora do risco cardiovascular.

O mais preocupante é que essas complicações muitas vezes surgem após poucos dias de uso.

Banalização do consumo

Outro aspecto alarmante é a banalização do consumo. Muitos pacientes utilizam diferentes anti-inflamatórios ao mesmo tempo, associam essas drogas à desidratação, ao álcool ou a outros medicamentos potencialmente tóxicos, sem qualquer acompanhamento.

Já acompanhei inúmeros casos de injúria renal aguda que poderiam ter sido evitados se o uso tivesse sido limitado, orientado e monitorado. O rim, infelizmente, não “avisa” quando está sendo agredido; a lesão costuma ser silenciosa até se tornar clinicamente relevante.

Diante desse cenário, considero fundamental que o uso de antiinflamatórios seja encarado como uma questão de saúde pública. A facilidade de acesso estimula a automedicação e expõe a população a riscos desnecessários.

Necessidade de regulação

Defendo que a venda dessas medicações seja condicionada à apresentação de receita médica, como forma de proteção coletiva. Essa medida não tem caráter punitivo, mas educativo e preventivo, ajudando a reduzir internações, complicações graves e custos evitáveis ao sistema de saúde.

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Controlar o acesso não significa negar tratamento à dor, mas garantir que ele seja feito de forma segura, individualizada e responsável. Informar, regular e proteger deve ser o caminho quando lidamos com medicamentos que, apesar de comuns, têm potencial de causar danos significativos. Cuidar melhor do uso dos anti-inflamatórios é cuidar melhor da saúde da população.

Thiago Croce

Nefrologista

Médico nefrologista do Vitória Apart Hospital. Fellow em Nefrologia Intervencionista no Raleigh Access Center na Carolina do Norte (EUA), Mestre em Políticas Públicas e Ciências Sociais pela Emescam e professor Coordenador da disciplina de nefrologia da Emescam.

Médico nefrologista do Vitória Apart Hospital. Fellow em Nefrologia Intervencionista no Raleigh Access Center na Carolina do Norte (EUA), Mestre em Políticas Públicas e Ciências Sociais pela Emescam e professor Coordenador da disciplina de nefrologia da Emescam.