Imagem: Freepik
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Quem convive com pacientes em tratamento oncológico, ou já passou por essa experiência, sabe: poucas complicações são tão limitantes quanto a mucosite oral. Ela não é apenas uma “afta mais forte”.

Em muitos casos, trata-se de uma inflamação intensa da mucosa da boca, que pode evoluir para feridas dolorosas, dificultar a alimentação, comprometer a fala e até interferir na continuidade do tratamento do câncer.

Nos últimos anos, um recurso tem ganhado destaque por apresentar resultados consistentes e respaldo científico: a laserterapia de baixa potência. Quando bem indicada e aplicada com protocolos adequados, ela pode reduzir a intensidade da mucosite, aliviar a dor e acelerar a cicatrização.

O que é mucosite oral?

A mucosite oral é uma inflamação do revestimento interno da boca — a mucosa. Ela pode se manifestar inicialmente como vermelhidão, ardência e sensibilidade e, com a progressão, evoluir para úlceras abertas, extremamente dolorosas.

É uma condição comum em pacientes submetidos a:

  • quimioterapia
  • radioterapia em cabeça e pescoço
  • quimiorradioterapia combinada
  • transplante de medula óssea

Além da dor, a mucosite pode causar: dificuldade para comer e beber, perda de peso e desidratação, piora da higiene bucal, por desconforto, maior risco de infecções, necessidade de reduzir doses, adiar ou interromper o tratamento oncológico.

Por isso, hoje a mucosite é entendida como um problema de saúde global, e não apenas bucal. Ela impacta diretamente a qualidade de vida e pode influenciar os resultados do tratamento.

Por que a mucosite acontece?

Os tratamentos oncológicos atuam sobre células que se multiplicam rapidamente. Esse é o objetivo no combate ao câncer. O problema é que a mucosa da boca também possui alta taxa de renovação celular.

Com a ação da quimioterapia e da radioterapia, ocorre dano direto às células da mucosa, aumento da inflamação local e alteração da barreira de proteção do tecido. O resultado é um ambiente mais vulnerável, inflamado e doloroso, propenso ao surgimento de feridas.

Esse processo é bem descrito em diretrizes internacionais que abordam a mucosite como uma condição multifatorial, envolvendo lesão tecidual, inflamação e resposta imunológica alterada.

Quando a mucosite vira sinal de alerta?

Os primeiros sinais costumam ser leves, como ardor ou sensibilidade aumentada. Alguns sinais, no entanto, indicam necessidade de avaliação imediata: dor intensa que impede a alimentação, feridas extensas ou profundas, sangramento frequente, febre ou sinais de infecção, dificuldade para engolir líquidos, piora rápida em poucos dias

Nesses casos, o paciente não deve “esperar melhorar”. A mucosite precisa ser avaliada pela equipe de saúde, idealmente com atuação conjunta entre oncologia e odontologia.

Onde entra a laserterapia?

A laserterapia de baixa potência, também chamada de laser terapêutico, utiliza luz em comprimentos de onda específicos para estimular respostas biológicas no tecido. De forma simples, a luz atua nas células ajudando a modular a inflamação, reduzir a dor e favorecer a cicatrização.

Na mucosite oral, a laserterapia pode ser utilizada tanto para:

  • prevenção, iniciando antes ou no começo do tratamento oncológico
  • tratamento, quando as lesões já estão instaladas

Diversos estudos mostram que pacientes que recebem laserterapia apresentam menor gravidade da mucosite, menos dor e recuperação mais rápida da mucosa, quando comparados a grupos que não recebem essa intervenção.

O que dizem as diretrizes científicas?

Um dos principais referenciais mundiais sobre mucosite é a MASCC/ISOO.

A MASCC (Multinational Association of Supportive Care in Cancer) é uma associação internacional que reúne especialistas de diversas áreas da saúde com foco no cuidado de suporte ao paciente oncológico.
A ISOO (International Society of Oral Oncology) é uma sociedade científica dedicada às manifestações orais relacionadas ao câncer e ao seu tratamento.

Juntas, essas instituições produzem diretrizes baseadas em evidências científicas, revisando estudos clínicos de alta qualidade para orientar profissionais de saúde no manejo de complicações como a mucosite.

As diretrizes da MASCC/ISOO reconhecem a laserterapia de baixa potência como uma intervenção eficaz, especialmente na prevenção e redução da gravidade da mucosite em pacientes submetidos à radioterapia de cabeça e pescoço e em determinados esquemas de quimioterapia.

Ou seja: não se trata de uma prática alternativa ou empírica, mas de um recurso respaldado por ciência e consenso internacional.

Laserterapia não é tudo igual:

Um ponto importante — e muitas vezes pouco esclarecido — é que laserterapia não é simplesmente “passar um laser”.

Para que ela funcione de forma segura e eficaz, é fundamental respeitar: tipo de equipamento, comprimento de onda, dose de energia, tempo de aplicação por ponto, número de pontos tratados, frequência das sessões.

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Protocolos inadequados podem reduzir a eficácia ou até não gerar benefício clínico. Por isso, a laserterapia deve ser realizada por profissionais capacitados, geralmente integrados a equipes hospitalares ou de oncologia.

O cuidado vai além do laser

A laserterapia é uma ferramenta poderosa, mas faz parte de um plano de cuidado mais amplo, que inclui:

  • avaliação odontológica antes do início do tratamento oncológico
  • controle rigoroso de focos infecciosos
  • orientação de higiene bucal adaptada e não traumática
  • manejo adequado da dor
  • atenção à alimentação e hidratação
  • acompanhamento contínuo durante o tratamento

Quando esses cuidados são integrados, a mucosite deixa de ser um fator limitante tão severo.

A mucosite também é uma complicação relevante em oncologia pediátrica. Estudos recentes indicam que a laserterapia pode ser benéfica na prevenção e no tratamento da mucosite em crianças, especialmente em neoplasias hematológicas, embora ainda exista a necessidade de maior padronização dos protocolos.

Uma das complicações mais impactantes do câncer

A mucosite oral é uma das complicações mais impactantes do tratamento oncológico. Ela provoca dor, limita funções básicas e pode interferir no próprio andamento da terapia.

A laserterapia de baixa potência se consolidou como uma estratégia segura, eficaz e respaldada por diretrizes internacionais, especialmente quando aplicada com protocolos adequados e integrada a um cuidado multidisciplinar.

Mais do que tecnologia, o laser representa uma abordagem humanizada: aliviar dor, acelerar a recuperação e devolver qualidade de vida a quem já enfrenta um tratamento tão desafiador.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação individual. Pacientes em tratamento oncológico com dor oral ou feridas persistentes devem sempre procurar sua equipe de saúde.

Dra. Flávia Gama

Cirurgiã-Dentista

Cirurgiã-dentista. Especialista em Ortodontia. Mestre em Radiologia e Habilitada em Laserterapia. @flaviagama.orto

Cirurgiã-dentista. Especialista em Ortodontia. Mestre em Radiologia e Habilitada em Laserterapia. @flaviagama.orto