Acordar, levantar da cama, sentir os sinais do corpo e perceber que aquele dia não será tão bom quanto o esperado. Essa é uma rotina comum para quem, em algum momento da vida, recebeu o diagnóstico de dor crônica.

Apesar de parecer uma realidade distante, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 30% da população do planeta sente dor frequentemente.

Segundo André Félix, médico especialista em dor crônica, para que uma condição seja classificada dessa forma, a dor deve persistir por longos períodos, geralmente mais de três meses.

Nesse estágio, a dor deixa de ser apenas um sintoma e passa a ser considerada uma doença em si.

O que acontece é uma sensibilização do sistema nervoso. É como se os nervos e o cérebro se tornassem excessivamente vigilantes, interpretando estímulos comuns — como um toque leve, o frio ou o próprio movimento — como mensagens de dor intensa.

André Félix, médico especialista em dor crônica

O médico explica que esse estado de alerta constante não afeta apenas o corpo, “ele ‘sequestra’ a qualidade de vida do paciente.”

Tipos de dor crônica

“Eu não posso levar meu filho à praia”

Adriano Silva dos Reis, de 36 anos, começou a sentir os primeiros sintomas da enxaqueca crônica aos 23. “Era uma dor de cabeça muito forte, que não resolvia com remédio em casa. Eu tinha que ir para o pronto-socorro e, muitas vezes, vomitava sem parar”, relembra.

A migrânia (enxaqueca) é a segunda maior causa de anos vividos com incapacidade no mundo, perdendo apenas para a dor lombar. Dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de 34 milhões de brasileiros convivem com a mesma condição que Adriano.

O programador e pai de dois filhos relata que sente dor de cabeça todos os dias. Durante toda a entrevista, que aconteceu em seu escritório, os remédios estiveram sempre sobre a sua mesa de trabalho.

Especial dores crônicas
Adriano usa medicamentos todos os dias para o alívio da dor. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

“Vou para o hospital pelo menos uma vez por mês. Às vezes eu tomo remédio na veia, continuo sentindo dor, durmo e só depois melhora”, afirma.

Além de conviver com a dor constante, Adriano ainda precisa lidar com a sensação de “culpa” que sente pelos impactos da doença para sua família.

Isso sobrecarrega a minha esposa e a rotina da casa. Por exemplo, meu filho adora praia, mas se eu ficar mais de 15 minutos no sol, eu passo mal, então, mesmo morando perto do mar, muitas vezes eu não posso levar meu filho à praia.

Adriano Silva dos Reis, programador
Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

“Em alguns dias eu não conseguia sair da cama”

As primeiras dores de Stefany Loureiro, de 36 anos, chegaram após o problema de saúde de um familiar, em 2018. Inicialmente, a nail designer achou que os sintomas fossem causados por outra doença.

“No começo eu achei que fosse dengue. O corpo inteiro queimava, eu não conseguia levantar da cama”, relembra. “Mas eu ia ao médico, fazia exames e estava tudo normal. Eu demorei cerca de nove meses para receber um diagnóstico de fibromialgia.”

De acordo com o Ministério da Saúde, 3% da população brasileira tem fibromialgia, que causa dor em todo o corpo, principalmente nos músculos e tendões. Além disso, a síndrome também provoca fadiga, distúrbios do sono, ansiedade, alterações de memória e de atenção, cansaço excessivo e depressão.

Lavar o cabelo era impossível. Precisava de ajuda para tomar banho e para me vestir. Eu me sentia presa ao meu corpo, estava frustrada e depressiva por tudo que sentia e já não conseguia mais trabalhar.”

Stefany Loureiro, nail designer

A saúde mental é diretamente impactada pela dor crônica, segundo Marília Zanette, psicóloga da Bluzz Saúde.

“A dor crônica gera insegurança, perda de previsibilidade e sensação de falta de controle, o que favorece ansiedade e desânimo. Ao mesmo tempo, ansiedade e depressão deixam a pessoa mais sensível, pessimista e focada no desconforto, o que intensifica a dor e mantém o ciclo de sofrimento”, explica.

“Eu me acostumei com a dor” – Um relato de quem escreveu esta reportagem

Era uma tarde comum de abril de 2024, quando eu senti as dores pela primeira vez. Começou devagar, em alguns pontos do lado direito do meu corpo e achei que era um problema de postura.

No mesmo dia eu procurei o hospital e, dali em diante, enfrentei uma bateria de consultas e exames que duram até hoje. Depois de quatro meses intensos, veio a confirmação de dor crônica, o que posteriormente levou a um quadro de epilepsia e de alopecia, relacionados ao estresse corporal constante da minha condição.

A dor impactou em todas as áreas da minha vida e, no início, precisei parar de trabalhar e estudar, pois não conseguia passar mais de 15 minutos em pé. Além disso, minha família e meu marido sentiram o impacto direto de todo aquele estresse, precisando mudar suas rotinas para cuidar de mim.

Hoje, a pior fase já passou, voltei a trabalhar e já me acostumei com a dor. Apesar disso, eu sinto dores diariamente, em alguns momentos mais e outros menos.

Existe cura para a dor crônica?

Stefany durante tratamento para controle da dor. Imagem: Acervo pessoal

Segundo André Félix, na medicina da dor, se pode falar em controle eficaz e remissão. “Em muitos casos, conseguimos reduzir a intensidade da dor de forma tão significativa que o paciente recupera total autonomia e funcionalidade”, explica.

De acordo com o especialista, o tratamento moderno da dor exige uma abordagem multidisciplinar e integrada. Não existe uma solução única, mas sim uma combinação de estratégias personalizadas para cada biotipo e histórico.

Os tratamentos também variam de acordo com o tipo de dor. Alguns deles são:

  • Medicamentos específicos para modular o sistema nervoso;
  • Fisioterapia especializada e reabilitação funcional;
  • Bloqueios anestésicos e procedimentos intervencionistas (para interromper o sinal de dor na origem);
  • Atividade física orientada e nutrição adequada;
  • Terapias de modulação do sistema nervoso, como o uso da PNL (Programação Neurolinguística) e Hipnoterapia, que auxiliam o cérebro a “desaprender” o caminho da dor.

Hábitos saudáveis como aliados

Apesar de não se falar em cura, alguns hábitos, além dos tratamentos específicos, ajudam a trazer mais qualidade de vida para pessoas diagnosticadas, como a alimentação balanceada e os exercícios físicos.

O personal trainer Henrique Louzada explica que movimento ajuda em vários níveis — fisiológico, psicológico e até neurológico —, fazendo dele uma ferramenta fundamental no controle das dores.

“Fisicamente, o exercício melhora a circulação sanguínea, reduz rigidez articular e fortalece a musculatura que protege as articulações e com isso, reduz a sobrecarga. Já no sistema nervoso, ele atua como estimulante de endorfinas e opioides naturais, que atuam como analgésicos, o que ajuda a modular a percepção da dor”, complementa o personal.

Tanto Adriano quanto Stefany relataram uma melhora significativa nos seus quadros após iniciarem a prática de alguma atividade física.

Além disso, a alimentação também é uma aliada essencial. A nutricionista e diretora da Clínica Versio, Sarah Arantes, afirma que grande parte das dores crônicas está ligada a processos inflamatórios no organismo, diretamente influenciados pela alimentação.

“Quando a dieta é rica em ultraprocessados, açúcar e gorduras ruins, o corpo tende a permanecer em inflamação constante, o que pode piorar as dores”, aponta.

“Por outro lado, uma alimentação mais natural, equilibrada e anti-inflamatória ajuda a modular essa inflamação e pode contribuir para a redução da intensidade e da frequência das dores.”

Uma vida inteira pela frente

Stefany se tornou piloto de parapente após o diagnóstico de fibromialgia. Imagem: Acervo pessoal

A ideia de lidar com uma dor crônica traz desafios para os pacientes, familiares e até especialistas. Apesar disso, depois de um tempo — falo por experiência própria —, aprendemos que é possível seguir em frente.

Adriano, por exemplo, pretende voltar a uma rotina mais saudável para conseguir controlar os sintomas da enxaqueca.

“Pretendo voltar para a academia, pois isso me ajuda a diminuir os remédios de forma natural. Preciso fazer isso por mim, pelos meus filhos e por minha esposa”, afirma.

Já Stefany está vivendo um momento de remissão da dor. Hoje, segue em acompanhamento, mas não precisa de remédios para fazer o controle da fibromialgia.

Senti ainda mais vontade de ter novas experiências depois do que passei, virei até piloto de parapente. Eu, você e todos com dor crônica temos uma vida inteira pela frente e precisamos vivê-la.

Stefany Loureiro, nail designer

Aline Gomes

Repórter

Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa e estudante de Publicidade e Propaganda na Unopar, atuou como head de copywriting, social media, assessora de comunicação e analista de marketing. Atua no Folha Vitória como Editora de Saúde desde maio de 2025.

Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa e estudante de Publicidade e Propaganda na Unopar, atuou como head de copywriting, social media, assessora de comunicação e analista de marketing. Atua no Folha Vitória como Editora de Saúde desde maio de 2025.