
Entre janeiro e dezembro de 2025, o Espírito Santo registrou 398 novos casos de hanseníase, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que em média, mais de 20 mil novos casos são registrados por ano.
A hanseníase não é uma doença nova. Conhecida como lepra, a condição foi citada em documentos que datam de 1700 antes de Cristo (a.C.), com os primeiros casos no Brasil em 1600, no Rio de Janeiro.
O Janeiro Roxo chama atenção para a doença que, apesar dos avanços da medicina, continua sendo um desafio para o país, que permanece entre os que registram maior número de casos no mundo.
O que é a hanseníase?

Segundo a dermatologista Elisabeth Lima, especialista em hanseníase, a doença é causada pela bactéria Mycobacterium leprae e tem evolução lenta, com longo período de incubação, o que favorece a transmissão silenciosa antes dos sintomas serem percebidos.
No entanto, mesmo com diagnóstico e tratamento disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Elisabeth explica que a hanseníase ainda persiste como problema de saúde pública.
Isso acontece por fatores como diagnóstico tardio, desconhecimento da população, dificuldade de acesso aos serviços de saúde em algumas regiões e estigma social. Além disso, o longo período de incubação da doença faz com que os sintomas demorem a ser reconhecidos, permitindo a transmissão silenciosa por anos antes do diagnóstico.
Dermatologista Elisabeth Lima, especialista em hanseníase pela Sociedade Brasileira de Hansenologia
De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a doença atinge principalmente adultos entre 30 e 59 anos, em idade produtiva, com maior ocorrência entre homens.
Quais são os sintomas?
De acordo com a SBD, a doença pode ser silenciosa no início, o que leva à demora no diagnóstico.
Por isso, alguns sinais importantes não podem ser ignorados. São eles:
- Manchas na pele com alteração da sensibilidade;
- Dormência ou formigamento;
- Áreas da pele que não sentem calor, frio ou dor;
- Caroços ou placas avermelhadas;
- Queda de pelos em algumas regiões;
- Diminuição da força nas mãos ou nos pés.
Como é a transmissão?
Segundo Elisabeth Lima, a hanseníase é transmitida principalmente pelas vias respiratórias. “Por partículas eliminadas pelo nariz e pela boca da pessoa doente ao falar, tossir ou espirrar”, explica.
Por isso, a especialista alerta que familiares e pessoas próximas aos pacientes diagnosticados devem ser acompanhados de perto. “O risco existe principalmente para contatos domiciliares próximos e prolongados, especialmente quando o paciente ainda não iniciou o tratamento”, aponta.
Existe tratamento?
A boa notícia é que a hanseníase é uma doença curável. O diagnóstico é feito a partir do exame da pele e dos nervos periféricos e o tratamento deve ser iniciado imediatamente.
“O tratamento é feito com a poliquimioterapia única (PQT-U), uma combinação de antibióticos fornecida gratuitamente pelo SUS. Após o início do tratamento, o paciente deixa de transmitir a doença geralmente nas primeiras doses, podendo manter vida social, familiar e profissional normalmente, desde que siga corretamente o esquema prescrito”, explica.
Porém, quando o diagnóstico é tardio ou o tratamento é abandonado, as consequências podem ser graves.
“O atraso no diagnóstico pode levar a lesões irreversíveis nos nervos, resultando em perda de sensibilidade, deformidades, dificuldades motoras e incapacidades permanentes. O abandono do tratamento aumenta o risco de complicações, recaídas e manutenção da transmissão da doença na comunidade, além de piorar a qualidade de vida do paciente”, alerta.
Qual o maior desafio para os pacientes?
Para Elisabeth Lima, um dos maiores desafios no enfrentamento é o preconceito. Como resultado, o estigma pode levar ao isolamento social, sofrimento emocional, abandono do tratamento e atraso na busca por atendimento médico.
O preconceito existe tanto por parte das pessoas que convivem com o paciente quanto do próprio paciente com ele mesmo. Combater o preconceito é tão importante quanto tratar a doença, pois a hanseníase é curável e não deve ser motivo de exclusão
Dermatologista Elisabeth Lima, especialista em hanseníase pela Sociedade Brasileira de Hansenologia