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'Vírus HIV pode ser controlado, discriminação, não', diz soropositivo

Saúde

'Vírus HIV pode ser controlado, discriminação, não', diz soropositivo

Salvador Corrêa, 34, está dentro da faixa etária na qual a doença mais avança no Brasil; antirretrovirais tornam carga viral indetectável mas estigma persiste

Foto: arquivo pessoal
O psicólogo Salvador Corrêa, 34, soropositivo desde os 27, trabalha na Abia. 

Superar a discriminação é mais difícil que lidar com o HIV. “O estigma vem junto com o vírus. Esse é o grande desafio da doença”, afirma o psicólogo Salvador Corrêa, 34, coordenador de treinamento e capacitação da Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids). Corrêa é soropositivo há sete anos, ele descobriu que tinha HIV em um exame de rotina e o resultado caiu como uma bomba.

“Estava no meio do meu mestrado e fiquei completamente bloqueado. Tive que passar por um processo de elaboração, resignificando tudo, até meus próprios preconceitos”, diz.

Uma forma de “colocar para fora a angústia” foi criar um blog anônimo no qual escrevia um diário. O blog acabou se tornando o livro “O Segundo Armário” (Autografia/2011), que foi adaptado para o teatro e está em cartaz no Memorial Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

“A internet foi um grande apoio social para mim. Por meio do blog, muitas pessoas acabaram participando da minha vida mais que meus amigos e familiares. Elas conheciam minha verdade nua e crua, que eu não tinha coragem de revelar a ninguém. Foi um momento de potência de solidariedade muito grande”, afirma.

Mas nem sempre foi assim. Ele conta que já teve que encarar o primeiro preconceito logo após o resultado do exame. “Ao saber o resultado, fui acolhido por uma enfermeira, que, muito solidária, saiu do seu lugar de profissional de saúde e me abraçou. No entanto, na minha primeira consulta, a médica foi extremamente preconceituosa, me responsabilizando pela infecção”, afirma.

Para o psicólogo, existe uma tendência da sociedade em responsabilizar a vítima. “Quando você joga a prevenção para o âmbito individual, você tira a responsabilidade do que é social, coletivo e governamental”, diz.

“O vírus HIV é controlado, mas a discriminação, não. O vírus social é tão perigoso e talvez mais mortal que o biológico. Ele te impede de ter relações sociais, te expulsa de casa. Nunca sei qual vai ser a reação de uma pessoa quando revelo que tenho HIV”, completa.

"O vírus social é tão perigoso e talvez mais mortal que o biológico. Ele te impede de ter relações sociais, te expulsa de casa. Nunca sei qual vai ser a reação de uma pessoa quando revelo que tenho HIV", disse Salvador Corrêa. 

Jovens 

Corrêa está dentro da faixa etária na qual o vírus mais avança no Brasil – homens entre 15 e 39 anos, segundo o infectologista Jean Gorinchteyn, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. “Cerca de 70% dos homens infectados estão dentro dessa faixa etária. A taxa de incidência é de 52 para cada 100 mil habitantes”, afirma.

O médico ressalta que, embora a prevalência do vírus HIV no país seja maior entre homens, ele está crescendo entre mulheres de 15 a 24 anos. Segundo ele, neste ano, a incidência passou de 16 para 32 mulheres infectadas a cada 100 mil habitantes.

“Chama a atenção o crescimento da doença em grávidas. Nos últimos 10 anos, mais de 120 mil mulheres jovens descobriam conjuntamente o diagnóstico do HIV e a gravidez. Uma tragédia que poderia ter sido evitada”, afirma.

'Pessoas bonitas não são associadas ao HIV'. 

Para o infectologista, o preconceito interfere na prevenção da doença. “As pessoas ainda olham os estereótipos. Veem pessoas bonitas e saudáveis e não associam ao vírus HIV. Realmente, essas pessoas não têm a doença, a Aids, mas podem ter o vírus, inclusive, muitas vezes, até a própria pessoa desconhece que o tem”.

Corrêa, que também trabalha na área, acredita que, para alcançar a população mais afetada pela epidemia, é preciso realizar um trabalho de prevenção nas escolas. “O jovem não está tendo mais acesso a informação como tinha antes e, quando tem, é informação equivocada vinda de fake news. Além disso, vive em uma sociedade em que não se fala sobre isso e ele desconhece a prevenção de uma forma combinada, que á e política do Ministério da Saúde”, afirma. 

Por: Deborah Giannini, do Portal R7