O jovem de 24 anos, que se feriu após bater a cabeça em uma pedra durante um mergulho em uma cachoeira, apresentou recuperação de sensibilidade e movimentos nos membros superiores menos de duas semanas após receber tratamento experimental com polilaminina, proteína usada em casos de lesão medular grave.
O medicamento foi aplicado no dia 6 de janeiro e, em menos de 24 horas, já houve sinais de melhora, o que surpreendeu a equipe médica. O caso é considerado fora do prognóstico esperado para pacientes com lesão medular completa – condição que, sem tratamento, não apresenta expectativa de recuperação funcional.
Tempo para aplicação de medicamento foi decisivo, avalia especialista
O procedimento foi realizado pelos médicos Olavo Borges Franco, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Bruno Alexandre Côrtes, chefe do serviço de neurocirurgia da cidade do Rio de Janeiro, referências nacionais no uso da polilaminina.
Segundo Olavo Borges Franco, o fator tempo foi decisivo para o resultado obtido.
O paciente sofreu uma fratura cervical grave e a lesão foi classificada como lesão medular completa. Conseguimos realizar a aplicação em menos de 72 horas após o trauma, o que está dentro da chamada janela terapêutica ideal. Quanto mais cedo a intervenção, maior a redução do processo inflamatório e maior a chance de preservar neurônios.
Olavo Borges Franco, médico e pesquisador
O médico destaca que o tratamento atua diretamente no controle da morte neuronal e na criação de novas conexões entre os neurônios. “Essa redução do processo inflamatório é muito mais eficaz quando feita precocemente. Isso ajuda a conter a progressão da lesão e favorece a reorganização neurológica”, afirmou.
Evolução fora do prognóstico
De acordo com o pesquisador, a evolução clínica do jovem é considerada excepcional. Em apenas dez dias após a aplicação da polilaminina, o paciente já apresentava ganhos neurológicos significativos, como a capacidade de flexionar e estender os braços, vencer a força da gravidade, movimentar as mãos e recuperar sensibilidade até a região da clavícula, nos membros superiores e até a cintura.
O quadro é considerado totalmente fora do prognóstico esperado para um paciente com lesão medular completa sem tratamento. Historicamente, esse tipo de lesão não apresenta recuperação motora ou sensitiva, e, sem intervenção, não há expectativa de retorno desses movimentos, o que reforça a diferença entre a evolução natural da doença e a resposta apresentada pelo paciente.
A história natural da doença é completamente diferente da evolução que ele teve. Sem tratamento, não havia expectativa alguma de que ele voltasse a apresentar esses movimentos.
Olavo Borges Franco, médico e pesquisador
Perfil do paciente favoreceu o resultado
O médico também destacou que o perfil clínico do jovem contribuiu para a resposta positiva. “Ele foi um paciente excelente do ponto de vista clínico: jovem, sem comorbidades e recebeu o medicamento em tempo recorde. Esses fatores fazem muita diferença”, avaliou.
Apesar dos avanços, o especialista reforça que o tratamento está apenas no início e que a recuperação depende, agora, de um longo processo de reabilitação.
Estamos em um momento inicial. A partir de agora, ele vai iniciar um trabalho intenso de fisioterapia. Nos estudos, a evolução acontece ao longo de meses ou até anos.
Olavo Borges Franco, médico e pesquisador
Segundo Olavo, os pacientes que mais evoluem são aqueles que mantêm fisioterapia contínua. “A fisioterapia é um estímulo neurológico essencial. Os pacientes que mais melhoraram foram os que mais se dedicaram à reabilitação. Após a alta, ele será encaminhado para o Crefes, onde dará continuidade ao tratamento fisioterapêutico”, completou.

Caso surpreendeu especialistas
O coordenador do Grupo de Trabalho Intersetorial (GTI) da Polilaminina no Espírito Santo, Mitter Mayer Volpasso Borges, afirmou que a resposta rápida ao tratamento surpreendeu até os especialistas. “Em poucas horas após receber a medicação, ele já começou a apresentar sensibilidade abaixo da região da lesão. Para um paciente jovem, esse primeiro sinal de melhora tão rápido é extremamente positivo”, destacou.
O jovem permanece internado no Hospital São Lucas, em Vitória, onde também passou por um procedimento cirúrgico invasivo na coluna.
Tratamento ainda experimental
O jovem foi o segundo capixaba a receber o tratamento com polilaminina. O primeiro foi o pintor e praticante de motocross Luiz Fernando Mozer, de 37 anos, no final do ano passado.
Já no último sábado (17), um idoso, de 70 anos, que perdeu os movimentos após cair de um telhado foi o terceiro capixaba a receber o tratamento.
A polilaminina é uma proteína que vem demonstrando potencial para regeneração de lesões na medula espinhal e coluna cervical. Recentemente, estudos clínicos para avaliar a segurança do medicamento foram autorizados no país, sendo considerados um marco para o tratamento de lesões medulares.