Imagem: Freepik
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A inteligência artificial vive um momento de fascínio coletivo. Nunca se falou tanto sobre seu potencial em acelerar diagnósticos, sugerir planos de tratamento ou organizar fluxos clínicos.

No entanto, enquanto parte da sociedade enxerga a IA como uma espécie de “oráculo moderno”, a verdade é que, no ambiente da saúde, ela pode atrapalhar — e muito — quando utilizada sem espírito crítico, sem experiência profissional e sem a dimensão humana que sustenta o cuidado.

A tecnologia nos devolve nossas próprias crenças

Um dos maiores riscos é bastante simples: modelos de IA são treinados para concordar conosco. Eles aprendem a seguir padrões de linguagem e tendem a reforçar a perspectiva do usuário, mesmo quando esta está equivocada.

Em estudos publicados sobre o comportamento desses sistemas, observa-se que eles exibem o que pesquisadores chamam de “efeito de aquiescência algorítmica”: quanto mais convicta a afirmação do usuário, mais a IA tende a validar a ideia, ainda que falha. Em outras palavras, a tecnologia nos devolve nossas próprias crenças — polidas, ampliadas e com autoridade artificial.

Esse fenômeno é particularmente perigoso na área da saúde, em que vieses cognitivos já são conhecidos por influenciar diagnósticos. O viés de confirmação, por exemplo, leva o profissional a buscar apenas informações que reforcem sua hipótese inicial, ignorando sinais contrários. Quando combinamos esse viés humano com um sistema que “concorda” por padrão, criamos um ambiente que desestimula o questionamento, a revisão de condutas e a investigação profunda do caso clínico.

Sem análise de contexto e particularidades

Além disso, a IA funciona essencialmente como uma máquina de padrões estatísticos. Ela reconhece regularidades em um volume gigantesco de dados, mas não compreende contexto, nuances emocionais, história clínica individual, sofrimento humano ou prioridades pessoais do paciente.

Em um estudo publicado na Nature em 2024, especialistas alertaram que, embora modelos avançados sejam capazes de sugerir opções terapêuticas, a performance desses sistemas cai drasticamente quando o caso foge ao padrão — algo extremamente comum na vida real.

Outro dado alarmante vem de pesquisas comparando respostas de IA a orientações clínicas consolidadas: em análises de 284 respostas de modelos generativos para condutas médicas, acima de 30% continham algum grau de informação incorreta, desatualizada ou pouco segura. A falha não está apenas na factualidade, mas na ilusão de precisão: respostas bem escritas podem dar ao profissional inexperiente a sensação de segurança, mascarando fragilidades graves no raciocínio.

A erosão da escuta clínica

Mas talvez o impacto mais preocupante seja silencioso: a erosão da escuta clínica. Na pressa de adotar sistemas que prometem eficiência, o profissional corre o risco de substituir o diálogo profundo com o paciente por um atalho tecnológico.

No entanto, é exatamente da escuta — das queixas, dos medos, das limitações reais, das experiências pessoais — que nasce a conduta verdadeiramente individualizada. Não existe algoritmo capaz de substituir a sensibilidade de perceber hesitações, desconfortos não verbalizados, mudanças sutis de expressão, ou contradições que só se revelam na consulta presencial.

Quando o profissional delega a reflexão à máquina, perde-se a essência do cuidado: a contextualização humana. Uma dor que parece “simples” à IA pode ser, para aquele paciente, o ponto culminante de uma trajetória emocional complexa.

Um plano tecnicamente perfeito pode ser inviável por barreiras sociais, financeiras ou psicológicas. E nenhum modelo preditivo, por mais avançado, pode captar esses elementos sem que o profissional esteja ali, presente, ouvindo e interpretando.

A IA é poderosa, mas demanda cautela

A IA é uma ferramenta poderosa — e como toda ferramenta, seu valor depende de quem a utiliza. Quando colocada nas mãos de um profissional crítico, experiente e comprometido com a individualização do tratamento, ela amplia capacidades, acelera processos e oferece uma nova camada de precisão. Mas quando usada de forma acrítica, deslumbrada ou substitutiva, ela se transforma em um ruído que atrapalha mais do que ajuda.

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A saúde não é uma ciência de atalhos. É uma ciência que exige tempo, raciocínio, empatia e responsabilidade sobre cada escolha. A IA pode — e deve — ser uma aliada. Mas nunca será protagonista.

O centro do cuidado continuará sendo a relação entre profissional e paciente, sustentada por aquilo que nenhuma máquina é capaz de reproduzir: escuta, ética, julgamento clínico e humanidade.

Dra. Daniela Feu

Cirurgiã-Dentista

Cirurgiã Dentista Graduada em Odontologia pela UFES. Especialista em Ortodontia pela UERJ. Mestre e Doutora em Ortodontista (UERJ). Diplomada pelo Board Brasileiro de Ortodontia (BBO). Diretora do Colégio de Diplomados do BBO. Editora associada da Revista Dental Press Journal of Orthodontics (DPJO) e editora da Revista Clinical Orthodontics. @dani_feu

Cirurgiã Dentista Graduada em Odontologia pela UFES. Especialista em Ortodontia pela UERJ. Mestre e Doutora em Ortodontista (UERJ). Diplomada pelo Board Brasileiro de Ortodontia (BBO). Diretora do Colégio de Diplomados do BBO. Editora associada da Revista Dental Press Journal of Orthodontics (DPJO) e editora da Revista Clinical Orthodontics. @dani_feu