Porque você procrastina
Imagem: freepik

“Eu sei o que preciso fazer, mas não consigo.” Essa frase aparece com frequência no consultório e também fora dele — em casa, no trabalho, na escola. Muitas vezes, quem a diz carrega junto um sentimento de culpa, frustração e a sensação de estar sempre falhando, mesmo se esforçando.

Para quem observa de fora, o comportamento pode parecer falta de interesse, preguiça ou desorganização na rotina. Mas, na prática, a explicação costuma ser bem diferente.

Saber o que precisa fazer não é o suficiente

Saber o que precisa ser feito não garante que o cérebro consiga executar. Entre a intenção e a ação existe um conjunto de habilidades cognitivas chamadas funções executivas. Elas são responsáveis por planejar, organizar, iniciar tarefas, manter o foco, controlar impulsos, administrar o tempo e concluir atividades.

Em outras palavras, são elas que ajudam a transformar pensamento em ação.

Quando essas funções não estão funcionando de forma eficiente, a pessoa até entende o que precisa ser feito, mas encontra dificuldade para começar, manter ou finalizar tarefas.

É como ter clareza do caminho, mas não conseguir dar o primeiro passo. Esse funcionamento pode gerar adiamentos constantes, sensação de sobrecarga, esquecimento de compromissos e uma exaustão mental que não aparece nos olhos de quem observa.

As consequências

Esse tipo de dificuldade não é exclusivo da infância. Ela pode aparecer em crianças, adolescentes, adultos e idosos. Em crianças, costuma surgir como dificuldades escolares ou comportamentais. Em adultos, frequentemente é confundida com procrastinação, falta de disciplina ou desorganização crônica. Em todos os casos, a consequência costuma ser a mesma: críticas externas e uma autocrítica interna ainda maior.

É comum ouvir frases como “é só se esforçar mais”, “é só se organizar” ou “você sabe fazer”. Embora bem-intencionadas, essas falas desconsideram que o problema não está no conhecimento, mas no funcionamento do sistema cerebral responsável pela execução. Com o tempo, essa incompreensão pode gerar baixa autoestima, ansiedade, desânimo e sensação de incapacidade.

Dificuldades nas funções executivas podem estar associadas a diferentes fatores, como TDAH, ansiedade, depressão, estresse crônico, sobrecarga emocional ou a um perfil cognitivo específico. Elas também tendem a se intensificar em fases da vida que exigem mais adaptação, como adolescência, maternidade, envelhecimento ou momentos de grandes mudanças.

É preciso saber como estão funcionando processos

Nesse contexto, a avaliação neuropsicológica tem um papel fundamental. Ela permite compreender, de forma cuidadosa e científica, como estão funcionando processos como atenção, memória, planejamento e autorregulação.

Mais do que identificar dificuldades, a avaliação ajuda a entender o modo único de funcionamento de cada pessoa, orientando estratégias mais adequadas para o cotidiano, a escola, o trabalho e as relações.

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Avaliar não é rotular. É organizar informações que antes estavam confusas. É substituir culpa por compreensão. E, muitas vezes, é o primeiro passo para que a pessoa deixe de se cobrar por algo que nunca foi falta de esforço, mas sim uma dificuldade real de funcionamento.

Quando alguém sabe o que precisa fazer, mas não consegue fazer, o problema raramente é falta de vontade. Na maioria das vezes, é o cérebro pedindo para ser compreendido — e não julgado.

Psi. Renata Bedran

Neuropsicóloga

Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga, pós-graduada em Neuropsicologia e Educação Positiva. Apaixonada por compreender o funcionamento da mente e das emoções, atua com avaliação neuropsicológica e psicologia clínica de crianças e adultos. Seu trabalho é voltado para o autoconhecimento, o desenvolvimento emocional e a orientação de pais e educadores em práticas mais conscientes e respeitosas.

Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga, pós-graduada em Neuropsicologia e Educação Positiva. Apaixonada por compreender o funcionamento da mente e das emoções, atua com avaliação neuropsicológica e psicologia clínica de crianças e adultos. Seu trabalho é voltado para o autoconhecimento, o desenvolvimento emocional e a orientação de pais e educadores em práticas mais conscientes e respeitosas.