Foto: Pixabay
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O Instagram é uma das redes sociais mais utilizadas pelos brasileiros, e quem navega por ele provavelmente já viu muitos usuários compartilhando conteúdos que expõem dados pessoais, rotina, intimidade e informações que mostram suas vulnerabilidades.

Na busca por aprofundar o engajamento com os seguidores, o que muita gente não se dá conta é que essas referências da vida pessoal funcionam como um prato cheio para criminosos como estelionatários, stalkers e até predadores sexuais.

Esta reportagem traz orientações sobre quais conteúdos são perigosos, por que não devem ser publicados e quais consequências legais podem surgir, desde riscos à integridade física até processos por crimes contra a honra.

O alerta foi dado pelo advogado criminalista e influenciador Rafael Paiva. Veja o vídeo publicado no Instagram:

A reportagem do Folha Vitória ouviu três especialistas que explicaram quais conteúdos devem ser evitados. Eles também orientaram sobre medidas de proteção digital.

Conteúdos que NÃO devem ser postados no Instagram:

1. Fotos de crianças com uniforme escolar

Os especialistas demonstram preocupação sobre a exposição da imagem de crianças e adolescentes nas redes sociais em qualquer contexto, pois elas podem ser capturadas por criminosos e replicadas de forma criminosa, como em grupos de pedófilos, por exemplo.

De acordo com a advogada Mariah Sartório Justi, especialista em Direito Penal Econômico, “essas imagens podem ser inseridas em perfis falsos que tendem a atrair adultos mal-intencionados. São informações que também podem ser armazenadas e usadas futuramente para bullying, discriminação, golpes, perseguição e aproximação indevida”.

Quando a imagem do menor de idade expõe o uniforme escolar, os riscos são ainda maiores, pois essa informação fornece aos criminosos a localização geográfica da criança. Isso expõe os pequenos a riscos como perseguição, sequestro e aliciamento.

2. Passagens aéreas, cartões de embarque e destinos de viagens

Inocentemente, na empolgação de uma iminente viagem, muitas pessoas postam foto do cartão de embarque. Mas essa imagem pode fornecer informações decisivas a criminosos, pois revela quando a casa ficará vazia.

“Publicações que revelam datas e destinos de viagens expõem a ausência da pessoa de sua residência, facilitando crimes como furtos ou invasões. Além disso, bilhetes de embarque contêm QR codes e dados que, se capturados, podem ser utilizados para acessar informações pessoais e até alterar reservas”, alertou o advogado Carlos Augusto Pena da Motta Leal, presidente da comissão de Tecnologia da Informação (TI) e Direito Digital da Ordem dos Advogados do Brasil no Espírito Santo (OAB-ES).

A recomendação é adotar a estratégia da “postagem tardia”, que consiste em compartilhar as fotos da viagem apenas depois de voltar para casa.

3. Desabafos emocionais e exposição de problemas pessoais

O que parece um simples desabafo, muitas vezes expõe fragilidades emocionais que podem ser exploradas em golpes e manipulações. Além disso, desabafos impulsivos que expõem a vida de outras pessoas podem configurar crimes contra a honra, como calúnia, injúria ou difamação.

O advogado Yago Motta, especialista em Direito Público, explica que “a vítima pode buscar na Justiça a remoção imediata do conteúdo, indenização por danos morais e até a retratação pública do ofensor”.

No caso de ser vítima de um crime contra a honra em meio digital, o primeiro passo é registrar a ofensa em uma ata notarial no cartório, documento com fé pública que serve de prova caso a publicação seja apagada posteriormente.

4. Placa do carro, fotos do veículo e rotinas de deslocamento

Imagens de veículos também são dados muito publicados em redes sociais. Essa exposição permite aos criminosos rastrear endereço, locais frequentados e pode facilitar ações criminosas como clonagem de placas.

Para a advogada Justi, “apesar de a placa do veículo não gerar, por si só, um risco imediato, ela funciona como um identificador que com a combinação de outras informações públicas pode aumentar os riscos para a clonagem de veículo, estelionato, fraudes e ainda facilitar crimes de stalking”.

5. Fotos de documentos pessoais (RG, CNH, OAB, passaporte)

Documentos pessoais como a carteira de identidade, a carteira de motorista ou o passaporte trazem dados extremamente sensíveis e com alto potencial de dano para quem expõe isso nas redes sociais. Advogados e profissionais liberais também correm risco ao exibir carteiras profissionais.

Segundo Leal, documentos pessoais divulgados na internet, mesmo que de forma aparentemente inocente, podem ser utilizados por criminosos para aplicar fraudes diversas, como abertura de contas bancárias, contratação de serviços em nome da vítima, solicitação de crédito ou até compras fraudulentas.

“Esses dados, quando combinados com outras informações obtidas nas redes sociais, permitem a prática do chamado “furto de identidade digital”’, alertou o advogado.

Os advogados Mariah Sartório Justi, Carlos Augusto Pena da Motta Leal e Yago Motta orientam sobre o que evitar nas redes sociais. Fotos: arquivo pessoal.

Dicas para se proteger

Além das orientações sobre o que não postar, os especialistas ainda alertaram para a necessidade de desabilitar a geolocalização automática das postagens, restringir a visualização do conteúdo apenas a contatos confiáveis e revisar periodicamente as permissões de aplicativos conectados às redes sociais.

A autenticação em dois fatores também é fundamental. Leal adverte que é necessário adotar uma postura preventiva, tratando os ambientes digitais com o mesmo cuidado que se tem com documentos físicos ou conversas privadas.

“Evitar excesso de exposição, manter os perfis restritos, desconfiar de mensagens suspeitas mesmo de contatos conhecidos e utilizar autenticação em dois fatores são medidas simples, mas eficazes. Também é importante conversar com crianças e adolescentes sobre os riscos da superexposição, pois eles são especialmente vulneráveis nesse ambiente”, orienta o especialista.

Sinais de alerta

Alguns sinais indicam que alguém já pode estar sendo monitorado ou vulnerável a criminosos. Justi adverte que é importante ficar atento à criação repetida de perfis falsos; notificações estranhas sobre tentativas de acesso às redes sociais; mensagens pedindo informações pessoais; notificações bancárias suspeitas; e imagens pessoais sendo publicados sem autorização.

Responsabilização das redes sociais

De acordo com Motta, a responsabilização das plataformas de redes sociais depende do contexto. O especialista lembrou que o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu recentemente duas regras distintas. Para crimes contra a honra como difamação e injúria, as plataformas só respondem se descumprirem uma ordem judicial de remoção.

Já para golpes, fraudes e contas falsas, a responsabilização pode ocorrer de forma mais simples: basta que a vítima notifique a plataforma sobre o perfil fraudulento. Se a rede social não agir rapidamente para removê-lo, passa a responder pelos prejuízos causados a partir daquele momento.

“É importante lembrar que a exposição voluntária de dados não anula a responsabilidade do criminoso nem das empresas que falharam em seus sistemas de segurança. A vítima nunca é culpada pelo crime que sofreu”, finaliza o advogado.

Patricia Maciel

Repórter

Jornalista formada em 2011, com experiência nas principais empresas de comunicação do Espírito Santo. Também atuou como assessora de comunicação e social media.

Jornalista formada em 2011, com experiência nas principais empresas de comunicação do Espírito Santo. Também atuou como assessora de comunicação e social media.