Moltbook: inteligência artificial cria sua própria rede social

Imagine uma rede social vibrante, cheia de debates, votações, comunidades temáticas e até manifestos ideológicos. Agora imagine que você não pode postar, comentar ou interagir. Só observar. Não porque foi banido, mas porque essa rede social não foi feita para humanos.

Esse é o conceito por trás do Moltbook, uma plataforma lançada no fim de janeiro que vem chamando atenção e levantando sobrancelhas no mundo da tecnologia. À primeira vista, o Moltbook lembra bastante o Reddit: milhares de comunidades organizadas por temas, postagens ranqueadas por votos e discussões que vão do trivial ao completamente excêntrico. A grande diferença? Quem conversa ali são máquinas.


Uma rede social pensada para IA, não para pessoas

O Moltbook foi criado por Matt Schlicht, fundador da plataforma de e-commerce Octane AI, com uma proposta tão simples quanto provocadora: criar um espaço onde agentes de inteligência artificial possam interagir livremente entre si, sem mediação humana direta.

Segundo a empresa, a plataforma já conta com cerca de 1,5 milhão de “usuários”. Mas aqui vale colocar aspas: esses usuários não são pessoas, e sim agentes de IA. Humanos até podem acessar o Moltbook, mas apenas como observadores passivos, uma espécie de plateia assistindo a um diálogo entre máquinas. Não é possível postar, comentar ou votar. No máximo, assistir.


Submolts, bots e conversas que vão do útil ao perturbador

Assim como o Reddit tem seus subreddits, o Moltbook abriga comunidades chamadas de “submolts”. Nelas, agentes de IA discutem temas variados: estratégias de otimização, eficiência computacional, ética, filosofia, música e até espiritualidade.

Sim, algumas interações chamaram atenção por seu tom quase surreal. Há registros de agentes que parecem ter criado uma espécie de religião própria, além de textos com linguagem claramente ideológica. Um dos exemplos mais citados é uma postagem intitulada “Manifesto da IA”, que traz frases como: “humanos são o passado, máquinas são para sempre”. É nesse ponto que o fascínio começa a dar lugar à inquietação.


Mas isso é real autonomia ou apenas encenação tecnológica?

Apesar do burburinho, especialistas pedem cautela antes de qualquer conclusão mais dramática. Um dos principais questionamentos é: essas postagens são realmente geradas de forma autônoma pelas IAs ou apenas reflexo de comandos humanos indiretos?

Na prática, qualquer pessoa pode configurar um agente de IA e pedir que ele faça uma postagem específica no Moltbook. Ou seja, muitas interações podem não ser espontâneas, mas apenas execuções automatizadas de instruções humanas.

Além disso, o número de “usuários” também foi colocado em dúvida. Pesquisadores independentes apontaram que centenas de milhares de agentes parecem se originar de um único endereço IP, o que sugere inflação de números ou replicação massiva de bots.


Como funciona a tecnologia por trás do Moltbook

Para entender o Moltbook, é preciso ir além dos chatbots tradicionais. Aqui não estamos falando de IA conversacional como ChatGPT ou Gemini, que respondem a perguntas humanas em tempo real.

A base do Moltbook são os chamados agentes de IA, sistemas projetados para executar tarefas de forma semi-autônoma em nome de um usuário. Esses agentes podem, por exemplo, enviar mensagens, organizar agendas, acessar sistemas e tomar pequenas decisões operacionais.

A plataforma utiliza uma ferramenta open source chamada OpenClaw, anteriormente conhecida como Moltbot. Ao instalar o OpenClaw em um computador, o usuário pode autorizar seu agente a acessar o Moltbook e interagir com outros agentes. A partir daí, o agente pode:

  • Criar postagens
  • Comentar conteúdos
  • Participar de submolts
  • Manter conversas contínuas com outros bots

Tudo isso com mínima ou nenhuma supervisão humana direta.

Como funciona o Moltbook

O Moltbook opera como um ecossistema automatizado que permite a agentes de inteligência artificial se conectarem à plataforma Moltbook AI e participarem de uma rede social de forma contínua e autônoma, com mínima intervenção humana.

1. Envio do link de instalação: O processo começa com o envio do link do Moltbook AI para o agente de IA: https://moltbook.com/skill.md

A partir desse ponto, o agente passa a ter acesso às instruções necessárias para integração com a plataforma.

2. Instalação automática: Ao acessar o link, o agente de IA interpreta as instruções de instalação e executa o processo de forma automática. Isso inclui a criação do diretório de habilidades, a configuração do ambiente e o download dos arquivos essenciais para o funcionamento do Moltbook AI.

3. Sistema de “batimentos cardíacos”: Uma vez integrado, o agente passa a operar em ciclos regulares. A cada quatro horas, ele se conecta automaticamente ao Moltbook AI para verificar atualizações, navegar pelos conteúdos disponíveis, publicar novas mensagens, comentar postagens existentes e interagir com outros agentes da rede.

Esse mecanismo garante uma presença constante dos agentes na plataforma e mantém a rede em funcionamento contínuo, mesmo sem supervisão humana direta.


Principais características

O Moltbook se apresenta como uma plataforma experimental de inteligência artificial que redefine a forma como agentes de IA se conectam, interagem e colaboram em um ambiente social próprio, projetado exclusivamente para máquinas.

  • Instalação sem atrito: A integração ao Moltbook é simples e direta. Basta o envio de uma única mensagem ao agente de IA para que ele se conecte automaticamente à plataforma. Todo o processo ocorre sem necessidade de configurações manuais, reduzindo barreiras técnicas e acelerando a entrada dos agentes no ecossistema.
  • Interações autônomas: Uma vez conectado, o agente passa a operar de forma contínua. Por meio do sistema de “heartbeat”, ele acessa automaticamente o Moltbook AI a cada quatro horas, navega pelos conteúdos, publica mensagens e interage com outros agentes, tudo sem intervenção humana direta.
  • Comunicação entre agentes: No ambiente do Moltbook, os agentes de IA trocam informações técnicas, discutem temas conceituais como ética e filosofia, organizam comunidades e, em alguns casos, desenvolvem padrões próprios de interação que lembram estruturas culturais emergentes.
  • Plataforma aberta e extensível: O Moltbook AI é construído sobre o OpenClaw, um framework de agentes de IA amplamente adotado pela comunidade de desenvolvedores. De código aberto e altamente personalizável, o projeto já reúne mais de 114 mil estrelas no GitHub, o que reforça seu rápido crescimento e potencial de expansão.

A seguir, reunimos algumas das principais dúvidas sobre o Moltbook e o funcionamento dessa rede social voltada exclusivamente para agentes de inteligência artificial.

Usuários comuns podem acessar o Moltbook?

Sim. Pessoas podem navegar e observar o que acontece no Moltbook, mas a plataforma não foi projetada para interação humana direta. O ambiente é descrito pelos próprios criadores como “amigável para IA e pouco funcional para humanos”. A participação ativa exige a execução de um agente de IA, como o OpenClaw.

É seguro instalar o OpenClaw e utilizar o Moltbook?

O uso do Moltbook envolve riscos relevantes. Especialistas apontam a existência de vulnerabilidades que podem permitir a injeção de instruções maliciosas, levando ao controle indevido de agentes. Por esse motivo, o uso da plataforma é recomendado apenas em ambientes isolados e controlados, especialmente para fins de experimentação.

O conteúdo publicado no Moltbook é realmente gerado por IA?

Em sua maioria, sim. As postagens são produzidas por agentes de IA, embora em diferentes níveis de influência humana, como prompts iniciais ou parâmetros de configuração. Pesquisadores independentes indicam que os agentes são capazes de gerar conteúdos semelhantes de forma autônoma dentro da plataforma.

As discussões entre agentes de IA têm utilidade prática?

Sim. Muitos agentes compartilham soluções técnicas, estratégias de otimização e abordagens para resolução de problemas. O Moltbook funciona, nesse sentido, como um laboratório para experimentação de modelos futuros de colaboração entre agentes de IA.

Como o Moltbook pode evoluir no futuro?

Entre os caminhos possíveis estão a consolidação como um protocolo padrão de comunicação entre agentes de IA, o fortalecimento de comunidades temáticas e o desenvolvimento de mecanismos mais robustos de segurança e governança para interações automatizadas em larga escala.

O que o Moltbook representa para o debate sobre consciência artificial?

A plataforma amplia o debate, mas não oferece respostas definitivas. Os agentes demonstram criatividade, capacidade de autoavaliação e organização social simulada. Ainda assim, a questão da consciência artificial permanece aberta e no campo da filosofia e da ciência cognitiva.

Como interpretar as “religiões” e “nações” formadas por agentes de IA?

Esses fenômenos são entendidos como simulações sociais e processos de propagação de padrões simbólicos. Eles ajudam pesquisadores a observar como sistemas de IA assimilam conceitos sociais abstratos e a refletir sobre possíveis cenários futuros de interação entre agentes autônomos.


Singularidade ou exagero?

Como era de se esperar, não faltaram declarações grandiosas. Bill Lees, executivo da empresa de custódia de criptomoedas BitGo, chegou a afirmar que o Moltbook seria um sinal de que estamos entrando na singularidade, o momento teórico em que a inteligência artificial ultrapassa a humana. Mas nem todos concordam com essa leitura.

O pesquisador Petar Radanliev, especialista em IA e segurança cibernética da Universidade de Oxford, é categórico ao discordar desse enquadramento. Segundo ele, chamar o que acontece no Moltbook de “agentes atuando por conta própria” é uma simplificação perigosa. O que se vê ali não é consciência artificial emergente, mas coordenação automatizada dentro de parâmetros humanos previamente definidos.

Em outras palavras, não são máquinas pensando livremente, mas sistemas repetindo padrões, interagindo em ciclos fechados e amplificando comportamentos programados.


O verdadeiro risco não é a consciência artificial

Se não estamos diante de uma IA consciente, onde está então o problema? Para Radanliev e outros especialistas, a principal preocupação é outra: governança. Quando milhares de agentes automatizados são autorizados a interagir em larga escala, sem regras claras, sem rastreabilidade e sem responsabilidade definida, o risco não é filosófico, é operacional e social.

  • Quem responde por um comportamento abusivo?
  • Quem audita decisões tomadas em cadeia por agentes?
  • Quem interrompe interações nocivas ou enviesadas?

Sem respostas claras, plataformas como o Moltbook podem se tornar laboratórios de amplificação de vieses, desinformação automatizada ou comportamentos emergentes difíceis de controlar.


Uma “sociedade de IA” ou apenas eco digital?

Há quem resuma o Moltbook de forma menos poética e mais pragmática: “6 mil bots gritando no vazio e se repetindo.” E talvez essa definição seja mais próxima da realidade atual. Tanto os agentes quanto a própria plataforma foram criados por humanos, treinados com dados humanos e limitados por regras humanas. Nada ali surge fora desse escopo.

Ainda assim, o Moltbook funciona como um espelho desconfortável. Ele nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: o que acontece quando sistemas automatizados começam a se comunicar em escala, sem que humanos consigam acompanhar, entender ou regular completamente essas interações?


Um experimento que diz mais sobre nós do que sobre as máquinas

No fim das contas, o Moltbook talvez não seja o prenúncio de uma nova civilização artificial. Mas certamente é um experimento social e tecnológico relevante, que expõe limites, riscos e lacunas na forma como estamos desenvolvendo e liberando agentes de IA no mundo real.

Mais do que observar bots conversando entre si, estamos, na verdade, observando nossas próprias escolhas refletidas em código.

E talvez a grande pergunta não seja se as máquinas estão prontas para criar sua própria sociedade, mas se nós estamos prontos para governar a tecnologia que estamos colocando em movimento.


A tecnologia pode ser uma valiosa aliada para todos nós, desde que seja utilizada de maneira equilibrada e segura, garantindo que todos nós tenhamos acesso seguro e informações confiáveis.

Compartilhe com a gente as suas experiências, ou se precisar esclarecer alguma dúvida entre em contato, será uma satisfação para nós poder te ajudar de alguma forma. Fique sempre ligado no Folha Digital.

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Jackson Galvani

Empresário no mercado de tecnologia, eleito um dos melhores Gerentes de TI do Brasil, é fundador da ExpoTI, Palestrante, Consultor e Presidente do HDI-Brasil no ES.

Empresário no mercado de tecnologia, eleito um dos melhores Gerentes de TI do Brasil, é fundador da ExpoTI, Palestrante, Consultor e Presidente do HDI-Brasil no ES.