O que são fintechs? Entenda a evolução, riscos e o caso do Will Bank

O universo financeiro vem sendo transformado por empresas de tecnologia que reinventam serviços tradicionais de bancos, seguradoras e outros intermediários. Essas empresas são conhecidas como fintechs, um termo que une “financial” (financeiro) e “technology” (tecnologia), representando negócios que usam tecnologia para oferecer serviços financeiros de forma mais simples, digital, acessível e muitas vezes mais barata do que os modelos tradicionais.

O conceito de fintech

Fintechs podem atuar em diversas áreas, como contas digitais, pagamentos via celular, carteiras digitais, empréstimos, investimentos, seguros (insurtech), câmbio, gestão financeira, entre outras soluções. Elas tipicamente operam por meio de aplicativos ou plataformas online com foco na experiência do usuário e na eficiência operacional.

Essas empresas se tornaram sinônimo de inovação no setor financeiro, competindo com instituições tradicionais ao oferecer serviços que tiram proveito de tecnologia, como automação, uso de dados e integrações rápidas, para simplificar o acesso ao crédito, pagamentos e investimentos.


Primeiras fintechs no mundo e no Brasil

Não existe um “primeiro fintech” oficialmente reconhecido, porque muitos bancos tradicionais já usavam tecnologia no início do século XX. Ainda assim, alguns marcos históricos ajudam a entender essa evolução:

  • PayPal (1998): Um dos primeiros serviços amplamente usados de pagamentos digitais, permitindo transferências de dinheiro online de forma prática e segura.
  • Stripe (2010): Plataforma que simplificou pagamentos online para empresas de todos os tamanhos.
  • Klarna (2005): Fintech sueca que popularizou o modelo “compre agora, pague depois”.

Essas empresas ajudaram a moldar o que hoje entendemos por fintech, soluções financeiras centradas em tecnologia, escala e experiência do usuário. O movimento das fintechs no Brasil ganhou força principalmente a partir da década de 2010. Alguns exemplos marcantes incluem:

  • Nubank: Iniciou com cartão de crédito sem anuidade gerenciado por aplicativo e evoluiu para uma plataforma financeira completa, tornando-se uma das maiores fintechs do mundo. Foi fundado em maio de 2013 por David Vélez, Cristina Junqueira e Edward Wible. O primeiro produto, o cartão de crédito roxo, foi lançado em 2014.
  • Neon: Conta digital com foco em simplicidade, atendimento totalmente digital e redução de tarifas, voltada principalmente para o público que buscava alternativa aos bancos tradicionais. Foi criado em 2016 por Pedro Conrade, inicialmente como fruto de uma parceria entre o Banco Pottencial e a fintech Controly. 
  • CloudWalk: Fintech especializada em meios de pagamento, com foco em soluções financeiras para empreendedores e pequenas empresas. Dona da marca de pagamentos InfinitePay, foi fundada em maio de 2013 por Luis Silva. Embora a empresa tenha sido fundada em 2013, sua entrada no mercado de aquisições (maquininhas) e o lançamento da plataforma de serviços financeiros InfinitePay ocorreram em 2019.
  • Banco Original: Foi fundado em 2011, fruto da fusão do Banco Matone com a incorporadora J&F. O banco consolidou sua operação 100% digital e voltada para o varejo a partir de 2013-2016, tornando-se uma das primeiras instituições a permitir a abertura de conta 100% pelo celular. Um dos primeiros bancos brasileiros a adotar o modelo 100% digital, combinando licença bancária tradicional com práticas e experiência típicas de fintech.
  • Banco Inter: Foi criado em 1994 em Belo Horizonte (MG), inicialmente como Intermedium Financeira, pertencente ao grupo MRV Engenharia. Em 2008, obteve licença de banco múltiplo e, em 2014, lançou a primeira conta corrente 100% digital do Brasil, consolidando-se como Banco Inter. Instituição que se transformou em banco digital de grande escala, oferecendo conta gratuita, marketplace e um ecossistema financeiro completo, sendo hoje classificado como um banco digital de perfil fintech.

Além dessas, o país abriga dezenas de startups financeiras em diferentes estágios de maturidade, oferecendo soluções que vão de crédito e investimentos a seguros e infraestrutura financeira.


Fintechs que já enfrentaram falência ou problemas graves

O crescimento acelerado do setor também trouxe casos de empresas que não conseguiram se sustentar financeiramente. O Will Bank, fintech que chegou a atender milhões de clientes, teve suas operações interrompidas após o Banco Central decretar sua liquidação extrajudicial, motivada por problemas financeiros, insolvência e descumprimento de obrigações operacionais. Com a decisão:

  • O aplicativo deixou de processar Pix e pagamentos.
  • Os cartões foram suspensos.
  • Os serviços foram paralisados.
  • Os depósitos passaram a integrar o processo de liquidação, com possibilidade de ressarcimento via Fundo Garantidor de Créditos, dentro das regras vigentes.

O episódio reforça que fintechs, apesar da imagem de inovação e agilidade, também estão sujeitas a riscos financeiros e regulatórios.

Além do Will Bank no Brasil, existem vários casos de fintechs e empresas de tecnologia financeira que enfrentaram falência, encerramento de operações ou problemas graves em outros mercados. Esses exemplos ajudam a entender que o risco não é isolado nem específico de uma região, e que desafios de sustentabilidade, regulação, modelo de negócio ou infraestrutura podem levar à interrupção de operações, perda de valor ou encerramento de atividades.

Synapse Financial Technologies: fintech americana de Banking-as-a-Service (BaaS) que fazia a ponte entre fintechs clientes e bancos tradicionais, permitindo que startups oferecessem contas e cartões (sem ser banco). A empresa entrou com pedido de falência em 2024 após enfrentar dificuldades financeiras, deixando milhares de consumidores sem acesso aos seus fundos e provocando um efeito cascata em fintechs que dependiam de sua infraestrutura tecnológica.

Solid (fechamento por dificuldades financeiras) fintech que havia arrecadado uma grande rodada de investimentos, mas encerrou operações em meio a batalhas legais e dificuldades de financiamento, um exemplo de como até startups bem capitalizadas podem não sobreviver.

Volt Bank (Austrália) neobank que voltou sua licença bancária por incapacidade de sustentar o crescimento diante de desafios de financiamento e competição intensa.

Wonga (Reino Unido) empresa de crédito de curto prazo que caiu em desuso e acabou encerrando as operações após enfrentar problemas financeiros e regulatórios relacionados a práticas de empréstimo predatório.

Exemplos em mercados de cripto e pagamentos (fintechs fornecendo serviços financeiros digitais)

  • Pivo: fintech que fechou em 2023 por conflitos internos e falta de captação de recursos.
  • Lazerpay: encerraram atividades por falta de financiamento ou dificuldades de escalabilidade.
  • Zazuu e Vibra: plataformas relacionadas a pagamentos e cripto que fecharam ou diminuíram drasticamente suas operações diante de desafios de crescimento ou receitas insuficientes.

FTX (2022) caso de plataforma de cripto (não uma fintech bancária tradicional)
Embora não seja uma fintech bancária no sentido clássico de oferecer serviços de conta ou crédito, a exchange de criptomoedas FTX foi uma das maiores falências no espaço financeiro digital, com bilhões de dólares de clientes impactados e processos de recuperação judicial. Esse caso evidenciou riscos sistêmicos em plataformas financeiras digitais altamente alavancadas e sem proteção regulatória equivalente à de bancos.

Estes exemplos ilustram que diferentes modelos de fintech, desde infraestrutura de serviços bancários (BaaS) até crédito, pagamentos e criptoativos, podem enfrentar dificuldades severas por fatores como:

  • Problemas de liquidez e capital
  • Dependência de terceiros (como bancos parceiros)
  • Falta de receitas sustentáveis
  • Regulação insuficiente ou complexa
  • Choques econômicos ou perda de confiança de investidores

Ainda que nem todos os casos sejam estritamente “bancos digitais” nem tenham impactado clientes da mesma forma, eles ajudam a contextualizar os riscos que podem surgir em um ecossistema tão conectado e dependente de tecnologia, parcerias e confiança do público.

Também houve fintechs que interromperam operações de forma abrupta, deixando clientes temporariamente sem acesso a recursos. Esses episódios evidenciaram riscos ligados à dependência de parceiros bancários, infraestrutura compartilhada e modelos de negócios ainda em consolidação.


Banco tradicional x fintech: principais diferenças

CaracterísticaBanco TradicionalFintech
AtendimentoPresencial e digitalMajoritariamente digital
CustosEstrutura elevadaEstrutura enxuta
InovaçãoRitmo mais lentoEvolução acelerada
RegulamentaçãoCompleta e rigorosaVariável conforme o modelo
EscopoServiços amplosPode ser focado em nichos

Bancos tradicionais mantêm grandes estruturas físicas e operacionais, enquanto fintechs operam com custos reduzidos e foco em tecnologia. Isso permite oferecer serviços mais baratos e experiências mais simples, mas também pode significar menor margem de segurança em cenários de crise, dependendo do modelo adotado.

Se preparar, entender os modelos e checar a saúde financeira das empresas antes de investir ou transferir fundos é essencial para reduzir a exposição a esse tipo de risco.

Quais os riscos de investir em fintechs?

1. Menor histórico operacional: Muitas fintechs ainda não atravessaram ciclos econômicos completos, o que dificulta avaliar sua resiliência em cenários adversos.

2. Dependência de parceiros e tecnologia: Falhas em bancos parceiros, sistemas ou provedores podem afetar diretamente a operação e o acesso dos clientes aos serviços.

3. Risco de crédito: Fintechs que atuam com empréstimos podem enfrentar níveis elevados de inadimplência, especialmente em períodos de instabilidade econômica.

4. Volatilidade de mercado: Empresas avaliadas com base em crescimento acelerado podem sofrer quedas bruscas de valor se não atingirem expectativas.


O que define uma fintech como mais segura hoje?

Quando falamos em “fintechs mais seguras”, é importante deixar claro o que está sendo avaliado. Segurança aqui não é só tecnologia, mas um conjunto de fatores: regulação, governança, solidez financeira, escala operacional, histórico de incidentes e capacidade de resposta. Aqui vale um “enquadramento” rápido dos critérios usados pelo mercado:

  • Regulação ativa pelo Banco Central (licença bancária, SCD, SEP ou IP)
  • Segregação de recursos (dinheiro do cliente separado do caixa da empresa)
  • Escala e base de clientes (quanto maior, maior o escrutínio)
  • Governança e transparência (conselho, auditorias, relatórios públicos)
  • Histórico de incidentes e resposta a crises
  • Capacidade de capitalização (caixa, investidores, rentabilidade)

Nubank

Nível de segurança: Alto. O Nubank já deixou de ser apenas uma fintech e hoje opera, na prática, como um banco digital de grande porte, com presença no Brasil, México e Colômbia.

Por que é considerado mais seguro:

  • Banco regulado pelo Banco Central, com todas as exigências de capital e compliance
  • Capital aberto (NYSE), o que impõe padrões elevados de governança e transparência
  • Bilhões em caixa e histórico recente de lucros consistentes
  • Estrutura robusta de gestão de riscos, antifraude e segurança cibernética
  • Forte segregação patrimonial dos recursos dos clientes

Ponto de atenção: Justamente por ser grande, é alvo constante de tentativas de fraude social (engenharia social), o que exige atenção do usuário, mas não fragilidade institucional.


Banco Inter

Nível de segurança: Alto. O Inter é um caso interessante porque já nasceu com ambição de banco completo e hoje opera com licença bancária plena.

Por que transmite segurança:

  • Banco múltiplo regulado pelo Banco Central
  • Modelo híbrido: banco + marketplace + investimentos
  • Presença internacional e estrutura corporativa madura
  • Governança mais próxima de bancos tradicionais do que de startups
  • Histórico de adaptação regulatória e expansão controlada

Ponto de atenção: A diversidade de produtos aumenta a complexidade operacional, o que exige vigilância constante em processos e UX, mas não representa risco estrutural.


PicPay

Nível de segurança: Médio-Alto. O PicPay começou como carteira digital e evoluiu para um ecossistema financeiro mais amplo, hoje também regulado pelo Banco Central.

Por que é considerado relativamente seguro:

  • Instituição de pagamento regulada
  • Forte escala no varejo digital brasileiro
  • Integração com serviços bancários, crédito e investimentos
  • Evolução clara em controles antifraude e KYC nos últimos anos

Ponto de atenção: Ainda carrega um DNA mais voltado a pagamentos e experiência do usuário do que a banco tradicional. A maturidade é crescente, mas não no mesmo nível de Nubank ou Inter em governança bancária.


CloudWalk / InfinitePay

Nível de segurança: Médio-Alto (especialmente para PJ). Aqui o foco é outro. A CloudWalk não é um banco para o consumidor final, mas uma infraestrutura financeira e de pagamentos, especialmente para pequenos e médios negócios.

Por que é vista como segura no seu segmento:

  • Forte especialização em adquirência e pagamentos
  • Crescimento consistente e sustentável
  • Tecnologia própria e arquitetura moderna
  • Regulação adequada ao seu modelo de negócio
  • Foco claro em B2B, reduzindo exposição a riscos típicos do varejo financeiro

Ponto de atenção: Não é uma fintech pensada para guardar grandes volumes de recursos pessoais. Seu uso é mais seguro quando alinhado ao propósito: meio de pagamento, não reserva financeira.

Se fôssemos classificar por maturidade e solidez institucional, o cenário ficaria assim:

  • Mais completas e robustas: Nubank e Inter
  • Bem estabelecida, mas com foco em pagamentos: PicPay
  • Muito sólida no B2B e infraestrutura: CloudWalk / InfinitePay

Nenhuma instituição é “à prova de falhas”, mas essas fintechs já operam em um patamar onde o risco sistêmico é baixo, desde que o usuário também faça sua parte: boas práticas de segurança, atenção a golpes e uso consciente dos serviços.

No fim das contas, a pergunta que vale deixar no ar é: você está escolhendo uma fintech pelo marketing ou pelo nível de maturidade financeira que ela já atingiu?


As fintechs representam uma transformação profunda no setor financeiro, trazendo inovação, competição e inclusão. No entanto, o caso do Will Bank mostra que crescimento rápido não substitui solidez financeira, governança e conformidade regulatória.

Para usuários e investidores, o principal aprendizado é claro: tecnologia melhora a experiência, mas segurança, regulação e sustentabilidade continuam sendo essenciais. Em um mercado cada vez mais digital, entender como essas empresas funcionam é fundamental para tomar decisões mais conscientes e seguras.


A tecnologia pode ser uma valiosa aliada para todos nós, desde que seja utilizada de maneira equilibrada e segura, garantindo que todos nós tenhamos acesso seguro e informações confiáveis.

Compartilhe com a gente as suas experiências, ou se precisar esclarecer alguma dúvida entre em contato, será uma satisfação para nós poder te ajudar de alguma forma. Fique sempre ligado no Folha Digital.

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Jackson Galvani

Empresário no mercado de tecnologia, foi eleito um dos melhores Gerentes de TI do Brasil, é Coordenador da ExpoTI, Palestrante e Presidente do HDI-Brasil no ES. www.jacksongalvani.com.br

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