voluntariado
Foto: Pixabay

*Artigo escrito por Neidy Christo, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH/ES) e doutora em Administração e Consultora em Desenvolvimento Humano

Em um mundo marcado por desigualdades sociais persistentes, crises humanitárias e desafios estruturais complexos, o Terceiro Setor assume um papel cada vez mais estratégico na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.

Nesse contexto, o voluntariado deixa de ser apenas um gesto de boa vontade e passa a se configurar como uma poderosa ferramenta de transformação social, organizacional e humana.

Ser voluntário é, antes de tudo, um ato de consciência cidadã. É reconhecer que o desenvolvimento de uma sociedade não depende apenas do Estado ou do mercado, mas também do engajamento ativo das pessoas.

Dados recentes da Organização das Nações Unidas indicam que o trabalho voluntário contribui significativamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente aqueles relacionados à redução das desigualdades, educação de qualidade e fortalecimento das instituições.

No Brasil, o voluntariado ainda carrega, em muitos casos, uma visão assistencialista. No entanto, observa-se uma evolução importante: cresce o entendimento de que iniciativas voluntárias bem estruturadas geram impacto social consistente, fortalecem comunidades e promovem autonomia.

Segundo levantamento do IBGE em 2022, mais de 7 milhões de brasileiros atuam como voluntários(as), movimentando não apenas causas sociais, mas também redes de colaboração e desenvolvimento humano.

Do ponto de vista da gestão de pessoas, o voluntariado traz benefícios que extrapolam o campo social.

Pesquisas conduzidas pela Harvard Business School demonstram que indivíduos engajados em atividades voluntárias desenvolvem competências essenciais para o mundo do trabalho, como empatia, comunicação, trabalho em equipe, liderança e inteligência emocional.

Essas habilidades, cada vez mais valorizadas pelas organizações, não se aprendem apenas em salas de aula ou treinamentos formais, mas na vivência real com o outro.
Além disso, estudos da Gallup apontam que pessoas que atuam como voluntárias apresentam níveis mais elevados de bem-estar, senso de propósito e engajamento com a vida.

O voluntariado contribui para a saúde mental, reduz sintomas de estresse e fortalece o sentimento de pertencimento — um ativo fundamental em tempos de individualismo crescente.

No âmbito organizacional, programas estruturados de voluntariado corporativo têm se consolidado como importantes instrumentos de fortalecimento da cultura organizacional e da responsabilidade social.

Empresas que incentivam o engajamento voluntário de seus colaboradores observam impactos positivos na reputação institucional, no clima organizacional e na retenção de talentos.

A McKinsey ressalta que profissionais, especialmente das novas gerações, buscam cada vez mais trabalhar em organizações alinhadas a valores sociais e éticos claros.

Como presidente de uma associação de recursos humanos que atua de forma voluntária, vivencio diariamente o poder transformador desse engajamento.

O voluntariado qualificado, quando orientado por propósito, governança e compromisso, amplia repertórios, gera aprendizado coletivo e constrói pontes entre diferentes setores da sociedade.

É uma via de mão dupla: transforma quem recebe e, sobretudo, quem se doa.
Mais do que tempo ou recursos, o voluntariado exige presença, escuta e disposição para aprender.

Ele nos convida a sair de nossas bolhas, a olhar realidades distintas e a repensar privilégios. Ao mesmo tempo, nos fortalece como cidadãos, líderes e seres humanos mais conscientes de nosso papel no mundo.

Em tempos em que tanto se fala sobre propósito, talvez o voluntariado seja uma das expressões mais genuínas desse conceito. Afinal, quando escolhemos servir, também escolhemos crescer. E quando crescemos juntos, transformamos realidades.

Neidy Christo é presidente da ABRH/ES. Foto: Acervo pessoal