'Prévia da inflação' reforça aposta de mais cortes de 0,75 ponto na taxa de juros

Economia

'Prévia da inflação' reforça aposta de mais cortes de 0,75 ponto na taxa de juros

Redação Folha Vitória

São Paulo - O Índice de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de janeiro surpreendeu mais uma vez ao mostrar resultado aquém do previsto pelo mercado apesar de ter acelerado na margem de 0,19% para 0,31%, a menor taxa para o mês da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa persistência da inflação em níveis comportados reforça a percepção de que o processo desinflacionário continua em curso, tornando cada vez mais factível que o IPCA feche na meta de 4,5% este ano, segundo economistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. O dado também corrobora a manutenção do ritmo de corte da Selic em 0,75 ponto porcentual, conforme os analistas, mas as constantes surpresas positivas podem contribuir para aumentar o debate em torno de uma flexibilização monetária ainda mais intensa.

"Mais uma vez um resultado de inflação surpreende o mercado. Tratou-se da décima surpresa consecutiva em cinco meses (IPCA-15 e IPCA)", diz, em relatório, o Banco Safra, que calcula que as surpresas positivas acumularam 0,59 ponto porcentual de alívio neste período.

O resultado favorável decorre, segundo Flávio Serrano, economista-sênior do Haitong, de um conjunto de informações positivas em diversos grupos que compõem o indicador, que mostraram aceleração menor ou desaceleração maior que a prevista. "A surpresa foi espalhada pelo índice. Alimentação, Habitação, Artigos de Residência e Vestuário tiveram taxas ligeiramente mais baixas que o projetado, assim como a média dos núcleos", diz.

O economista Marco Caruso, do Banco Pine, destaca a alta menor que a esperada no grupo Alimentação e Bebidas e estima que os alimentos devem continuar contribuindo para o processo desinflacionário. Camila Abdelmalack, economista da CM Capital Markets, ainda menciona que a recessão prolongada tem esticado o efeito da atividade baixa na inflação.

O alívio consistente no IPCA fica ainda mais claro ao olhar a taxa acumulada em 12 meses e algumas aberturas do indicador, avalia o economista Daniel Gomes da Silva, do Modal Asset Management. Em 12 meses, o IPCA-15 apresentou desaceleração relevante de 6,58% para 5,94%. O alívio em serviços subjacentes é outro sinal da desinflação disseminada, acrescenta Caruso, do Banco Pine.

Esse conjunto de elementos, na visão dos economistas, aumenta a possibilidade de a inflação oficial fechar o ano no centro da meta. "É claramente um bom indício", diz Serrano, que atualmente projeta 4,8% para a inflação do ano. A Modal Asset já estima que o IPCA de 2017 deve atingir o limite de 4,5% imposto pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

A perspectiva positiva para o cenário de inflação ajuda o Banco Central (BC) na tarefa de promover a flexibilização monetária. Na visão dos analistas consultados, o bom desempenho do IPCA reforça que o BC deve manter o ritmo de afrouxamento da taxa de juro no patamar alcançado na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de janeiro, que reduziu a Selic de 13,75% para 13,00%.

"Tem espaço para seguir com pelo menos mais duas quedas de 0,75 ponto porcentual nos juros", estima Silva, da Modal Asset, para quem o BC se mostra bastante claro de que essa é a nova velocidade de declínio.

No entanto, para o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, o resultado do IPCA-15 de janeiro e em 12 meses pode ter implicações sobre a política monetária. "Não descarto corte de 1,00 ponto na taxa Selic na próxima reunião do Copom, ainda que o cenário mais provável seja de ciclo de 0,75 ponto", explica.

Camila, da CM Capital, complementa que, se as surpresas com a inflação persistirem, ganha força o debate sobre uma distensão mais agressiva da Selic, de 1,00 ponto, apesar de também acreditar que o BC deve manter corte de 0,75 ponto no Copom de fevereiro.

"Ainda é cedo para fazer essa avaliação, mas, se o processo de desinflação continuar intenso, o mercado pode começar a entender que o ciclo será mais longo ou que o Banco Central vai promover cortes mais intensos na Selic além da curva majoritária de 0,75 ponto", diz ela, que vê a taxa em 9,5% no fim de 2017.