EXCLUSIVO: Imagens inéditas revelam momento em que ex-assessor mata Gerson Camata

MORTE gerson camata

Polícia

EXCLUSIVO: Imagens inéditas revelam momento em que ex-assessor mata Gerson Camata

O assassinato de Gerson Camata aconteceu no dia 26 de dezembro do ano passado. No mesmo dia, Marcos Venicio Moreira Andrade, que havia trabalhado por quase 20 anos como assessor do político, foi preso em flagrante

André Vinicius Carneiro

Redação Folha Vitória

Imagens inéditas de câmeras de segurança mostram o momento em que o ex-senador e ex-governador do Espírito Santo, Gerson Camata, de 77 anos, foi assassinado, em frente a um restaurante, na Praia do Canto, em Vitória. A reportagem especial, exibida com exclusividade no Balanço Geral, da TV Vitória/Record TV, foi feita por André Vinicius, Douglas Camargo e Marcella Lage.

O assassinato de Gerson Camata aconteceu no dia 26 de dezembro do ano passado. No mesmo dia, Marcos Venicio Moreira Andrade, que havia trabalhado por quase 20 anos como assessor do político, foi preso em flagrante dentro de uma loja pelo então delegado Danilo Bahiense. A motivação teria sido uma ação judicial movida por Camata contra o ex-assessor, que culminou em um bloqueio no valor de R$ 60 mil na conta de Marcos Venicio.

Foto: Divulgação / Polícia Civil
Marcos Venicio Moreira Andrade, de 66 anos, segue preso. 

Em janeiro, Marcos Venício Moreira Andrade foi denunciado pelo Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) pela morte do ex-governador. De acordo com o MPES, Marcos Venício foi acusado por homicídio qualificado por motivo torpe e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima, além de porte de arma de uso permitido.

De acordo com a Secretaria Estadual de Justiça, o ex-assessor Marcos Venicio Moreira Andrada segue preso no Centro de Detenção Provisória de Viana II. 

Cronologia do crime

16:07:40 - O ex-governador Gerson Camata chega `à Praia do Canto, em Vitória. Camata conversa com dois amigos em uma calçada, em frente a um restaurante, próximo a uma banca de revista.

Foto: Reprodução TV Vitória

16:08:55 - Camata se despede dos amigos e caminha até a banca de revista. 

Foto: Reprodução TV Vitória

16:09:07 - Marcos Venicio Moreira Andrade, ex-assessor de Camata e acusado do crime, aparece nas imagens. De calça jeans e camisa verde, Marcos passa pelos dois homens que conversavam com Camata e caminha até a banca de revista. Aparentemente, ele não segurava nenhum objeto nas mãos. 

Foto: Reprodução TV Vitória

16:09:15 - Marcos Venicio para em frente à banca de revista. Com a mão no bolso, neste momento, segundo testemunhas, o ex-assessor conversa com Gerson Camata. 

Foto: Reprodução TV Vitória

16:09:38 - Gerson Camata sai andando pela calçada. Marcos Venicio segue o ex-governador. 

Foto: Reprodução TV Vitória

16:09:45 - Um tiro é disparado. As pessoas que estavam próximas ao local se assustam e correm. 

Foto: Reprodução TV Vitória

16:09:51 - Ferido, Camata retorna correndo para o local onde conversava com os dois amigos.

Foto: Reprodução TV Vitória

16:10:01 - Depois de ser baleado, Camata ficou caído na calçada. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou a ser acionado, mas Camata não resistiu. 

O autor do disparo, Marcos Venicio, fugiu caminhando pelas ruas do bairro. Ele foi preso em flagrante, no interior de uma loja, pelo então delegado Danilo Bahiense. 

"Naquele dia, eu estava em Vila Velha. Um amigo me ligou perguntando se eu sabia que tinham matado o Camata. Eu perguntei onde foi, ele disse que era na Praia do Canto. Ele mal desligou o telefone, um outro amigo, dono de uma loja na Praia do Canto, me ligou. Ele disse que estava desesperado. Eu perguntei o que houve e ele disse: 'o Marquinhos acabou de atirar em uma pessoa e deixou a arma aqui na loja. Cheguei na loja dele e o Marcos Venicio estava na recepção da loja. Dei voz de prisão, apreendi a arma e o encaminhei até a DHPP", disse o atual deputado estadual. 

Justiça

Nos próximos dias 22 e 23 de abril, será realizada a audiência de instrução do caso. Serão ouvidas testemunhas de acusação, arroladas pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES). Também serão realizados depoimentos das testemunhas de defesa do réu. 

O advogado da família de Gerson Camata, Renan Sales, disse que não há dúvidas, nos autos do processo, da autoria do crime. "O que mais nos deixa satisfeito é que o Poder Judiciário acerta nas suas decisões. O acusado, merecidamente, encontra-se preso preventivamente. Além disso, recentemente, a Justiça determinou o bloqueio de bens do acusado, como forma de garantir potenciais indenizações para os familiares. Há fartas provas nos autos de que o acusado é, realmente, o autor do disparo que levou a vítima a óbito", declarou. 

Defesa

Os advogados responsáveis pela defesa de Marcos Venicio Moreira Andrade foram procurados pela reportagem, mas não deram retorno. 

O crime

Foto: Matheus Bonela

O ex-governador do Espírito Santo e ex-senador pelo estado por três mandatos, Gerson Camata (MDB) foi assassinado com um tiro no pescoço na tarde de quarta-feira (26), na Praia do Canto, em Vitória.

Marcos Venício Moreira Andrade, de 66 anos, confessou ter assassinado o ex-governador. Marcos é economista e trabalhou com Gerson de 86 a 2005. Gerson moveu processo contra Marcos depois que o ex-assessor foi a publico apontar possíveis irregularidades no governo de Camata. Eles tinham uma briga desde então e o processo motivou o crime. 

Motivação do crime

Uma disputa judicial teria motivado o assassinato do ex-governador do Estado Gerson Camata, em dezembro do ano passado. O acusado de cometer o crime, Marcos Venicio Moreira Andrade, de 66 anos, era responsável pelas finanças e pelas campanhas políticas de Camata entre os anos de 1986 e 2005.

Andrade foi condenado pela Justiça por calúnia e difamação, após dar uma entrevista ao jornal "O Globo", em 2009, acusando Camata de cometer supostas irregularidades durante o período de governo, como o envio de notas fiscais frias e ter cobrado mensalidade de empreiteiras para votar projetos que fossem de interesse das empresas. A multa inicial para Andrade, na ação por difamação, foi estipulada no valor de R$ 50 mil.

Andrade recorreu da decisão, mas não conseguiu reverter a pena. Porém, a multa foi reduzida para R$ 20 mil. Com o passar dos anos e com os juros cobrados, o valor triplicou, alcançando a quantia de R$ 60 mil.

Em 2018, a Justiça bloqueou as contas de Marcos Vinícius para o pagamento da indenização. Na última quarta-feira, Andrade encontrou Camata na rua e resolveu tirar satisfações por ter suas contas bloqueadas na Justiça. O ex-governador teria dito que "o assunto seria tratado pela Justiça e pelos advogados". Após isso, Andrade sacou a arma e disparou um único tiro que transpassou o corpo de Camata.

Confira a cronologia

1986 a 2005

Marcos Vinícius Moreira Andrade ocupava o cargo de assessor de Gerson Camata, sendo o responsável pelas finanças e pelas campanhas eleitorais do então governador.

2009

O ex-assessor vai a público denunciar supostas irregularidades durante o período em que Gerson Camata esteve à frente do Governo.

O ex-governador move uma ação contra o ex-assessor por calúnia e difamação no caso da acusação sobre supostas irregularidades durante a gestão.

2016

A Justiça entende que a acusação feita pelo ex-assessor não continha provas suficientes e dá ganho de causa para Camata.

Marcos Vinícius Andrade é condenado a pagar uma indenização de 50 mil reais a Gerson Camata.

Andrade recorre da decisão da Justiça e perde em segunda instância, mas consegue reduzir a indenização para 20 mil reais.

2018

Com o passar dos anos e com os juros cobrados, o valor da multa alcançou a quantia de 60 mil reais.

Recentemente a Justiça bloqueou as contas de Marcos Vinícius para o pagamento da indenização.

Depoimento

O depoimento de Marcos Venicio para a Polícia Civil durou aproximadamente 50 minutos. Na ´época, de acordo com o titular da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que acompanhou algumas testemunhas, não houve discussão entre a vítima e o acusado.

"O depoimento dele durou cerca de 50 minutos, mas as perguntas eram feitas e ele apenas dizia que falaria em juízo sobre todo o ocorrido. Eu acompanhei algumas testemunhas e, na minha opinião como delegado de polícia, eu acredito que esse crime tenha sido premeditado sim. Conforme depoimentos e relato das testemunhas, não houve discussão alguma e essa parte onde ele afirma que foi ofendido pelo ex-governador não procede. Segundo o depoimento das testemunhas, elas são firmes em dizer: não houve ofensa alguma, eles conversavam normalmente", afirmou.

O delegado Luiz Gustavo Ximenes da Silva reforçou que o acusado deu detalhes sobre o dia do crime e afirmou ter saído de casa armado para renovar a posse de arma. "Ele disse que saiu da residência dele porque a posse de arma de fogo estava vencido. Ele não tem o porte de arma de fogo, ele tem a posse da arma para ficar no interior da residência dela. Então ele disse que iria na polícia federal renovar essa posse. Ele não precisava estar com essa arma para fazer essa renovação", afirmou. 

Trajetória

Gerson Camata possuía um longo histórico na política capixaba. Além da carreira política, Camata iniciou a vida profissional como jornalista e apresentador do programa Ronda da cidade, na Rádio Cidade de Vitória, em 1964. O ex-governador também se formou em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O início da trajetória política de Camata aconteceu em 1967, na câmara dos Vereadores de Vitória. Depois ele foi eleito deputado estadual, no período de 1971 a 1975, ano em que se tornou deputado federal.

Líder de audiência

Foto: Divulgação/Governo do Espírito Santo

A morte do ex-governador Gerson Camata, em dezembro do ano passado, também causou comoção na Rede Vitória, onde o jornalista trabalhou entre 1965 e 1978. Naquela época, Camata apresentava o programa Ronda da Cidade, na rádio Vitória, que ia ao ar todos os dias a partir das 12h.

O vice-presidente da Rede Vitória, Fernando Machado, falou, na época, sobre a importância de Camata para o estado e para a imprensa capixaba. "Hoje é um dia muito triste para o Espírito Santo e para todo o setor de comunicação do estado. Camata trabalhou na Rádio Vitória no início da carreira, atuando de maneira brilhante e comprometido com a boa informação como competente jornalista, radialista e apresentador que era. Seu programa Ronda da Cidade era líder de audiência. Ele só afastou do rádio quando se licenciou para tomar posse como deputado federal", lembrou.

A rádio era naquele período uma afiliada dos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand. Machado, que não chegou a trabalhar com Camata na Rede Vitória, também contou da experiência que teve com o ex-governador quando ainda era estudante da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). "Como deputado federal ele me acolheu na Câmara, junto com Neivaldo Bragatto, como representantes da Ufes. Ele, como político e cidadão, era um militante por um sopro de liberdade no período da redemocratização do Brasil", afirma.

Gerson Camata, na época no PMDB, foi o primeiro governador eleito por voto direto durante o processo de restauração da Democracia e do Estado de Direito no país, em 1982. Ele deixou um legado principalmente para o homem do campo, ao abrir estradas no interior do Espírito Santo que ajudaram os produtores agrícolas a escoar a produção.

"Perdemos todos nós. A Rede Vitória sente muito, ele faz parte da história da comunicação capixaba. Sempre foi um parceiro e nos visitava nos eventos mais importantes que realizamos. É uma perda para todos nós, colaboradores da Rede Vitória", finaliza.

Após sua vitória, sofreu uma ameaça de processo com base na Lei de Segurança Nacional por ter supostamente chamado o presidente João Figueiredo de "general mentiroso" durante a campanha eleitoral, fato rechaçado.