Imagem: Freepik
Imagem: Freepik

As férias acabam e muita gente se pergunta: por que o retorno pesa tanto? Se descansar faz bem, por que o cérebro pode parecer mais lento, disperso ou sem ânimo nos primeiros dias de volta à rotina?

Essa sensação, bastante comum, costuma ser chamada de “depressão pós-férias”. Mas será que isso realmente existe? E, mais importante, o que de fato acontece com o cérebro quando o descanso chega ao fim?

Depressão pós-férias realmente existe?

A expressão “depressão pós-férias” é popular no Brasil e ajuda o leitor a nomear um desconforto real. Ainda assim, é importante esclarecer logo de início: na maioria das vezes, não se trata de uma depressão clínica.

O que ocorre é um período transitório de adaptação do cérebro ao retorno das exigências do dia a dia. Na literatura científica, esse fenômeno é conhecido como post-vacation blues.

Durante as férias, o cérebro funciona em outro ritmo. Há menos pressão por produtividade, menos cobrança por desempenho, horários mais flexíveis e mais espaço para prazer e descanso. Isso reduz o estresse e favorece um funcionamento mais equilibrado dos sistemas ligados ao humor, à atenção e à motivação.

Cérebro descansado funciona melhor?

Aqui vale uma pausa para uma pergunta que sempre surge: se o cérebro descansou, não deveria funcionar melhor assim que as férias acabam? A resposta é sim, mas não de forma imediata.

O descanso é extremamente benéfico. Estudos mostram melhora da atenção, da memória e do controle emocional após períodos de pausa. O problema é que o retorno costuma ser abrupto. De um dia para o outro, voltam os horários rígidos, as demandas constantes e a pressão por resultados. O cérebro precisa de um tempo para se reorganizar diante desse novo cenário.

Gosto de explicar isso de maneira simples. Durante as férias, áreas do cérebro responsáveis por planejamento, organização do tempo e tomada de decisões ficam menos exigidas. No retorno, elas precisam reassumir rapidamente um ritmo intenso.

Essa transição pode provocar:

  • Sensação de lentidão mental;
  • Dificuldade de foco;
  • Esquecimentos leves; queda inicial de produtividade.

Se você se reconhece nisso, é importante saber: essa sensação é comum e esperada.

Esse período de readaptação costuma durar de alguns dias até duas semanas. Nesse intervalo, podem surgir desânimo leve, irritabilidade, impaciência e vontade de adiar tarefas mais complexas. Não é preguiça, nem falta de capacidade. É o cérebro ajustando novamente seu funcionamento ao ritmo da rotina.

Quando se preocupar

O sinal de alerta aparece quando esse mal-estar não passa. Se, após três ou quatro semanas, o desânimo persiste, o interesse pelas atividades continua reduzido, o sono e o apetite se alteram de forma importante ou surgem pensamentos muito negativos, é preciso atenção.

VIDA SAUDÁVEL | Dor na mandíbula e estalos ao mastigar: quando indicam sono ruim?

Em alguns casos, o fim das férias pode desencadear ou revelar quadros de depressão ou ansiedade que já estavam se formando. Por isso, é importante não banalizar o sofrimento emocional. Nem tudo é depressão, mas nem todo desconforto deve ser ignorado.

Hábitos que tornam o retorno mais fácil

Algumas atitudes simples ajudam o cérebro a engrenar melhor nesse retorno. Sempre que possível, evite sobrecarga nos primeiros dias. Organizar tarefas em blocos menores, manter hábitos positivos das férias e respeitar o próprio ritmo faz diferença. Caminhar ao ar livre, dormir um pouco melhor e se expor à luz natural ajudam o cérebro a retomar o equilíbrio.

A atividade física também tem um papel importante. Ela estimula substâncias relacionadas ao bem-estar, à motivação e à adaptação do cérebro às novas exigências. Não precisa ser nada complexo. Regularidade costuma ser mais eficaz do que intensidade.

Quero deixar uma mensagem final para você. Um cérebro descansado é um cérebro mais saudável. Ele não perde capacidade ao voltar das férias. Apenas precisa de um tempo para sair do modo descanso e retomar o modo produtividade. Respeitar esse processo é uma forma de cuidado com a saúde mental.

E, se o peso do retorno não passa, buscar ajuda é um gesto de atenção consigo mesmo.

Dra. Camila Resende

Neurologista e Neurofisiologista

Médica. Neurologista e Neurofisiologista (Residência médica USP - RP). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica (SBNC). @dracamilaresende

Médica. Neurologista e Neurofisiologista (Residência médica USP - RP). Membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica (SBNC). @dracamilaresende