
Com a chegada das férias, o trânsito muda de ritmo. Estradas mais cheias, viagens em família, deslocamentos para praias, sítios e cidades turísticas fazem parte desse período tão aguardado.
Como médico cirurgião de coluna, aprendi ao longo dos anos que, infelizmente, essa também é uma época marcada pelo aumento de acidentes de trânsito — e, entre eles, os traumas na coluna cervical merecem atenção especial, sobretudo quando falamos dos pacientes idosos.
Escrevo este texto em primeira pessoa porque vejo, quase diariamente, histórias que começam com uma viagem tranquila e terminam em uma sala de emergência. A coluna cervical, localizada no pescoço, é responsável por sustentar a cabeça e proteger a medula espinhal. Em acidentes automobilísticos, mesmo colisões consideradas leves podem gerar lesões importantes nessa região, principalmente em pessoas mais velhas.
Mudanças naturais na coluna
O envelhecimento traz mudanças naturais à coluna. Com o passar dos anos, é comum ocorrer perda de elasticidade dos ligamentos, desgaste dos discos intervertebrais, artrose e diminuição da massa óssea. Isso torna a coluna cervical do idoso mais rígida e, ao mesmo tempo, mais frágil.
Em uma freada brusca ou colisão traseira, o famoso “efeito chicote” pode provocar fraturas, luxações e lesões neurológicas graves, mesmo sem grandes danos aparentes ao veículo.
Outro fator que merece destaque é o uso correto do cinto de segurança. Muitos idosos ainda têm resistência ou fazem uso inadequado do cinto, seja por desconforto, seja por hábito antigo. O cinto é um aliado fundamental na proteção da coluna, mas precisa estar bem posicionado.
Além disso, o ajuste correto do encosto de cabeça no banco do carro é essencial para reduzir o risco de lesões cervicais em impactos.
Durante as férias, o risco aumenta não apenas nas longas viagens, mas também no trânsito urbano. Mudanças de rotina, maior circulação de veículos, motoristas cansados ou distraídos e, infelizmente, o consumo de álcool ao volante elevam o número de acidentes. Para o idoso, uma queda dentro do ônibus, uma batida lateral em baixa velocidade ou até um atropelamento podem ter consequências desproporcionais quando comparadas às de um adulto jovem.
Cuidados simples e eficazes
É importante reforçar alguns cuidados simples e eficazes. Antes de viajar, revise o veículo, planeje o trajeto e evite horários de pico. Durante o trajeto, respeite os limites de velocidade e faça pausas regulares.
Para os idosos, recomenda-se que ocupem preferencialmente o banco traseiro, sempre com cinto de segurança, e que utilizem veículos com boa estabilidade e sistemas de segurança atualizados.
Caso ocorra um acidente, mesmo que pareça leve, é fundamental não subestimar os sintomas. Dor no pescoço, rigidez, formigamento nos braços ou qualquer alteração neurológica devem ser avaliados imediatamente. Muitas lesões cervicais não se manifestam de forma intensa no primeiro momento, mas podem evoluir rapidamente se não forem diagnosticadas e tratadas corretamente.
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As férias devem ser um tempo de descanso, encontro e celebração da vida. Proteger quem já acumulou tantas histórias é um gesto de responsabilidade e carinho. Como cirurgião de coluna, deixo aqui um alerta e um convite à reflexão: dirigir com prudência e atenção é uma forma de cuidado que pode evitar sequelas irreversíveis.
Que este período seja marcado por chegadas seguras, abraços na volta e memórias felizes — nunca por acidentes que poderiam ter sido evitados. A prevenção, no trânsito, também é um ato de amor