A menopausa é uma fase marcante na vida da mulher. Com ela, vêm não apenas sintomas como ondas de calor, insônia e alterações de humor, mas também o risco cardiovascular da mulher aumenta significativamente.
O crescimento do interesse sobre menopausa nas redes sociais, aumentou também a circulação de termos como “hormônios bioidênticos” – frequentemente acompanhados da promessa de serem mais “naturais” e, portanto, mais seguros do que os tratamentos hormonais tradicionais. Mas será que essa percepção corresponde à realidade?
O que são hormônios bioidênticos?
Hormônios bioidênticos são aqueles que têm a mesma estrutura química dos hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano, como o estradiol e a progesterona.
Muitos hormônios usados na terapia hormonal aprovada pelas agências regulatórias, como a Anvisa ou o FDA (nos EUA), comprados no balcão da farmácia, são bioidênticos. Ou seja, o termo por si só não diferencia produtos aprovados de manipulados, nem indica maior segurança.
Regulação e testes de eficácia
A confusão começa quando esses hormônios são produzidos por farmácias de manipulação em doses e combinações personalizadas, o que chamamos de terapia hormonal bioidêntica manipulada.
Esses produtos não passam pelos rigorosos testes de eficácia, segurança, estabilidade e absorção exigidos para medicamentos industrializados. Além disso, muitas vezes são comercializados como “naturais”, “plant-based” ou “livres de riscos”, o que reforça uma falsa sensação de segurança.
Estudos mostram que hormônios manipulados podem ter variações significativas de dose, absorção incerta e, em alguns casos, riscos maiores, como sangramentos anormais, efeitos colaterais hormonais. Já os hormônios aprovados, por mais que também tenham riscos (como qualquer medicamento), têm eficácia e segurança bem estabelecidas , testadas, e são indicados de forma individualizada para cada paciente.
Sobre os implantes hormonais
Outro ponto de alerta são os implantes hormonais (pellets), que vêm sendo usados de forma crescente, muitas vezes fora das recomendações das sociedades médicas.
Esses implantes liberam doses fixas de estradiol ou testosterona por meses, sem possibilidade de ajuste após a colocação, e também não têm aprovação regulatória para a maioria das indicações clínicas. Os riscos incluem níveis hormonais muito elevados, efeitos colaterais severos e falta de dados confiáveis de segurança cardiovascular e oncológica.
Informação é essencial
Como cardiologista, me preocupo com a banalização da reposição hormonal fora dos critérios científicos. Toda mulher merece ser bem informada para tomar decisões conscientes sobre sua saúde na menopausa. E isso passa por saber que “bioidêntico” não é sinônimo de seguro, natural – mas que é possível, sim, contar com opções hormonais seguras e eficazes, desde que sejam prescritas com critério e base científica.
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A menopausa é uma janela de oportunidade para cuidar do coração. É o momento de rever hábitos, ajustar a alimentação, incluir atividade física na rotina, avaliar e controlar fatores de risco como hipertensão arterial, colesterol, glicose. A terapia de reposição hormonal tem sim o seu papel – desde que usada com critério, segurança e foco na saúde global da mulher.