Inteligência artificial possibilita diagnósticos mais precisos no pós-covid

Saúde

Inteligência artificial possibilita diagnósticos mais precisos no pós-covid

No Espírito Santo, apenas os hospitais da Rede Meridional têm essa tecnologia à disposição dos pacientes

Bianca Santana Vailant

Redação Folha Vitória
Foto: Divulgação/Meridional

Quando falamos em inteligência artificial, muitas pessoas resgatam na memória referências cinematográficas e futuristas. Mas o que muitos não imaginam é que para além dos roteiros de ficção-científica, falar em inteligência artificial hoje, é falar sobre maneiras mais eficazes de lutar contra a grande vilã do século: a covid-19.

De acordo com o coordenador do setor de radiologia e diagnósticos por imagem da Rede Meridional, Leonardo Amaral, a tecnologia trouxe para a realidade hospitalar mais precisão nos laudos e diagnósticos, principalmente no que diz respeito às sequelas deixadas pela doença. 

"A covid-19 tem uma predileção pelo acometimento pulmonar, mas ele pode gerar várias outras sequelas. Nesse período já vimos, por exemplo, AVC em pacientes jovens, alterações renais, alterações no miocárdio", afirmou o médico. 

De acordo com o especialista, estudos científicos mostram que as sequelas da covid podem acontecer a curto ou longo prazo. Daí a importância de manter o acompanhamento médico, principalmente nos casos de pacientes que tiveram a forma grave da doença. 

Foto: Divulgação/Meridional
"O interessante é ver que, de acordo com estudos e pesquisas científicas, 62% dos pacientes que tiveram mais de 70% de comprometimento pulmonar, e uma saturação menor que 90, têm algum tipo de alteração pulmonar mesmo depois de 6 meses de recuperados. Desses, 35% tem fibroses e 27% alterações mais sutis, chamadas de 'vidro fosco', que é uma espécie de opacidade no pulmão", explicou Leonardo.

Mas se engana quem pensa que somente as formas mais graves da doença deixam sequelas depois da recuperação. "Um outro artigo científico mostrou que dos pacientes acompanhados durante a pesquisa, que tiveram casos brandos e leves da covid-19, 24% desenvolveram alterações pulmonares depois de 12 meses", afirmou. 

Inteligência artificial garante mais precisão

Monitorar as sequelas da covid-19 não é uma tarefa simples. Isso porque, como o médico explicou, a doença é sistêmica. Ou seja, não afeta apenas um órgão específico e pode ter sintomas variados. 

Foto: Divulgação/Meridional
"Muitos pacientes aparecem nos consultórios com queixas de cansaço e dor muscular, por exemplo. Mas quando esse paciente faz uma tomografia de tórax, que é o exame indicado nesses casos, não tem nada, não aparece nenhuma alteração pulmonar capaz de desencadear esses sintomas. Mas quando esse mesmo paciente faz uma ressonância cardíaca, tem alteração do miocárdio, que pode variar de fibrose à edemas", explicou o coordenador.

Para tornar esses diagnósticos mais rápidos e precisos, a Rede Meridional investiu em uma nova tecnologia, que usa a inteligência artificial para detectar com mais clareza as alterações que podem ter sido desencadeadas pela covid-19. 

"Essa ferramenta que usa a inteligência artificial, quantifica o comprometimento pulmonar de forma exata, precisa. Esse equipamento criou um mecanismo específico e faz a leitura de uma forma que captura detalhes que o olho humano não consegue perceber", explicou Leonardo.
Foto: Divulgação/Meridional

No Espírito Santo, apenas os hospitais da Rede Meridional têm essa tecnologia à disposição dos pacientes. "Sabemos que 62% dos pacientes que tiveram a forma grave da covid podem ter um comprometimento pulmonar grave e tardio. Quem não tem esse sistema, faz a leitura de uma forma mais empírica, interpretativa, que pode variar de acordo com cada médico. Com esse equipamento, essa leitura acontece de forma mais precisa", disse.

Ouça abaixo o que o especialista diz sobre a incorporação dessas novas tecnologias para o enfrentamento à covid-19:

Entrevista com Leonardo Amaral

Aos 28 anos, mais de 12 dias internado em uma UTI

No Espírito Santo, mais de 521 mil casos de covid-19 foram confirmados desde o início da pandemia, sendo que mais de 495 mil capixabas já se recuperaram da doença. Um desses capixabas foi o representante comercial, João Vitor Santana Pena. Ele teve covid-19 em janeiro deste ano. 

"Era verão, eu estava me sentindo mal, mas achava que era insolação, porque estávamos ficando muito na praia. No início da semana comecei a perder o olfato e o paladar. O corpo piorou e eu fui para o médico já achando que seria covid", contou.

Foto: Reproducao/ Arquivo Pessoal

João disse que assim que chegou no hospital, tomou soro, fez o teste para covid e voltou para casa. "Passei o dia seguinte melhor, mas na sexta-feira eu comecei a sentir um cansaço muito grande", relembrou. Foi nesse momento que os sintomas começaram a piorar.

"Eu estava deitado no sofá de casa comecei a sentir muito cansaço, uma sensação bem ruim mesmo. Levantei e fui tomar um banho, mas não consegui. Eu não estava conseguindo mais respirar direito, sentindo um cansaço enorme e estava me faltando o ar. Eu nem consegui terminar o banho. Minha esposa entrou no banheiro e me ajudou", contou o representante comercial.

Com apenas 28 anos, a situação de João se agravou. Ele deu entrada no hospital, mas precisou esperar para ser transferido para uma UTI. Ele conta que esses são momentos que nunca sairão da memória. 

"Quando eu cheguei na UTI fizeram umas perguntas eu nem lembro direito, estava, sei lá, meio grogue. Graças a Deus não precisei ser entubado, mas foi por muito pouco. O médico falou para eu agradecer bastante até que foi por muito pouco mesmo", completou João Vitor.

A solidão ganhou ainda mais peso no dia 13 de janeiro. Os 28 anos de vida foram "comemorados" na UTI. "O ruim é ficar sozinho, né? Era meu aniversário e eu estava ali, sem poder ver ninguém, com medo de não conseguir me recuperar".

Check-up depois da internação

Se engana quem pensa que a preocupação com o vírus acaba quando o paciente se recupera. Depois de vencer a batalha contra o novo coranavírus, um sinal de alerta se acende, já que os riscos de apresentarem sequelas são altos.

Um estudo sobre os efeitos da Covid-19, feito com cerca de 47 mil pacientes do sistema de saúde público do Reino Unido (NHS), revelou que quase um terço dos pacientes que haviam sido internados com a doença deram entrada novamente ao hospital.

Diante desse número, especialistas afirmam que fazer os exames depois de se recuperar da infecção é fundamental. O ideal é que o paciente passe por uma avaliação médica em pelo menos 30 dias após a recuperação.

"A partir do momento que o paciente tem um quadro de covid, mesmo que ele seja assintomático, ele deve imediatamente, após o período da fase aguda - que são os 14 dias - procurar atendimento médico. Seja com pneumologista, infectologista, o importante é investigar como ficou seu organismo em uma avaliação médica, por meio dos exames físicos e clínicos. Depois de avaliado, passamos para os exames específicos, de acordo com as queixas do paciente. O mais importante é procurar atendimento médico", explicou a pneumologista da Rede Meridional, Cileia Martins.

Veja no vídeo abaixo a explicação da médica sobre quais são os principais exames realizados no pós-covid:

Saiba quais são os exames que precisam ser feitos após covid-19:

Casos leves: 

- Exames clínicos e laboratoriais: hemograma completo com diferencial de linfócitos e contagem de plaquetas. 

Casos moderados: 

- Exames de imagem: ecocardiograma ou tomografia

Casos graves:

- Investigação mais criteriosa com equipe multidisciplinar: clínico geral, cardiologista, endocrinologista e pneumologista.

Mais da metade dos capixabas têm consciência das sequelas

Um estudo publicado na revista Nature apontou que cerca de 80% dos pacientes recuperados sentem ao menos um sintoma até quatro meses após a infecção pelo coronavírus.

A pesquisa revelou que os casos graves da doença, que são aqueles que exigiram internações e UTIs, tendem a afetar ainda mais o organismo. Mas, diferente do que pensa a maioria, os episódios leves também podem deixar marcas depois da recuperação. 

Para os capixabas, essa informação não é uma surpresa. Em uma pesquisa inédita, realizada pela Rede Vitória com a Futura Inteligência, 68% dos entrevistados afirmaram que acreditam que a covid-19 deixa algum tipo de sequela nos infectados. Outros 21% acreditam que não.

A principal sequela apontada pelas pessoas ouvidas no levantamento foi a falta de ar, lembrada por 20,6% dos entrevistados. A fadiga (16,9%) e as dores musculares (16,8%) também foram bastante mencionadas.

Além disso, 27% disseram que acreditam que as sequelas podem durar entre quatro meses e um ano. Outros 20% acham que elas têm duração de um a quatro meses e 13% imaginam que elas podem se prolongar por até cinco anos.

As principais sequelas da covid-19

Embora a covid-19 afete principalmente os pulmões, é preciso estar atento ao corpo por inteiro. Algumas sequelas, como problemas cardíacos, diabetes ou doenças renais, podem se desenvolver mesmo nos casos mais leves da doença.

Segundo os pesquisadores, os sintomas mais comuns são fadiga, dores de cabeça e musculares, queda de cabelo, trombose, tontura, perda de paladar e olfato, e dificuldades de linguagem, raciocínio e memória.

"Acredita-se que uma síndrome tardia pós-covid pode te dar cerca de 55 sintomas, esparsos, variáveis e que muitas vezes não são perceptíveis logo no início, porque muitas vezes as pessoas que cercam esse paciente acham que se trata de reflexos emocionais da doença", explicou a pneumologista. 

Veja no infográfico abaixo algumas das sequelas mais comuns da covid-19:

Foto: Bianca Vailant

Além dos sintomas destacados no infográfico, outros órgãos podem ser afetados e desencadear sintomas e complicações. Veja na lista abaixo:

- Sistema renal: insuficiência renal aguda, caracterizada pela diminuição da função dos rins;

- Sistema dermatológico: formação de bolhas, coceira ou inchaço na pele, ou alopécia, que é a perda de cabelo;

- Sistema gastrointestinal: perda do apetite, náusea, refluxo gastroesofágico, diarreia, dor ou inchaço abdominal, ou fezes com sangue;

- Sistema oftalmológico: conjuntivite, ceratoconjuntivite ou conjuntivite hemorrágica, vermelhidão da pálpebra, obstrução dos vasos sanguíneos da retina ou inflamação do nervo óptico;

- Sistema endócrino: inflamação na tireóide, hiperglicemia em pessoas diabéticas, aumento da resistência à insulina ou desenvolvimento de diabetes tipo 1.