(Foto: Reprodução/ The Wall Street Journal)
(Foto: Reprodução/ The Wall Street Journal)

Nos últimos meses, uma mudança curiosa tem chamado atenção em ambientes de tecnologia no Vale do Silício. O café, tradicional combustível da produtividade, começa a ser substituído por produtos à base de nicotina, como sachês orais. Vendida como uma forma de aumentar foco e concentração, a substância passou a circular entre profissionais que nunca foram fumantes, sob a falsa ideia de ser uma alternativa “menos prejudicial”.

Esse movimento levanta um alerta importante. A nicotina não é um nutriente, não é inofensiva e é altamente viciante, mesmo quando utilizada fora do contexto do cigarro. Seu uso frequente pode levar à dependência química, criando um ciclo de estímulo, queda de energia e necessidade de reposição cada vez maior. Do ponto de vista da nutrição, seus efeitos vão muito além do foco momentâneo.

Supressão do apetite não é vantagem metabólica

Um dos efeitos mais conhecidos da nicotina é a redução do apetite. Ela atua diretamente em regiões do cérebro responsáveis pela fome e saciedade, o que pode levar a uma restrição alimentar involuntária. Na prática, isso se traduz em ingestão insuficiente de calorias, proteínas, vitaminas e minerais.

O resultado pode ser perda de peso às custas de pior recuperação, maior fadiga, queda de rendimento físico e perda de massa muscular. Menos fome não significa melhor nutrição. Muitas vezes significa apenas menos combustível para o corpo funcionar adequadamente.

Nicotina, cortisol e estresse crônico

A nicotina estimula o sistema nervoso simpático, aumentando a liberação de cortisol, o principal hormônio do estresse. Quando esse estímulo ocorre de forma repetida, o organismo passa a operar em estado de alerta constante.

Cortisol elevado de maneira crônica está associado a pior controle glicêmico, maior dificuldade de perda de gordura, perda de massa magra, inflamação sistêmica, alterações no sono e impacto negativo no humor e na saúde mental. Buscar foco por meio da nicotina pode aumentar o estresse fisiológico e comprometer a saúde no médio e longo prazo.

Impactos no intestino e na absorção de nutrientes

Além dos efeitos neurológicos e metabólicos, a nicotina interfere diretamente na saúde intestinal. Evidências científicas mostram que ela pode alterar a composição da microbiota, favorecendo quadros de disbiose. Esse desequilíbrio compromete funções essenciais do intestino, como digestão, absorção de nutrientes e regulação inflamatória.

A nicotina também pode afetar a mucosa intestinal e o fluxo sanguíneo gastrointestinal, reduzindo a eficiência com que o organismo absorve e utiliza macro e micronutrientes. Na prática, isso significa que, além de comer menos, o corpo pode aproveitar pior aquilo que é consumido, favorecendo deficiências nutricionais silenciosas ao longo do tempo.

Treino, estética e saúde cardiovascular

Apesar da associação equivocada entre nicotina e emagrecimento, ela não melhora a composição corporal de forma saudável. O estímulo constante do sistema cardiovascular, com elevação da pressão arterial e da frequência cardíaca, somado ao aumento do estresse fisiológico, prejudica a recuperação muscular e a adaptação ao treino.

Não existe estética sustentável construída sobre déficit nutricional, inflamação e dependência química.

Se você quer mais foco, comece pelo básico

Antes de recorrer a atalhos perigosos, vale lembrar que foco e produtividade começam com fundamentos simples e eficazes. Dormir bem, manter uma alimentação equilibrada ao longo do dia, garantir ingestão adequada de carboidratos, proteínas e micronutrientes, além de utilizar suplementação quando bem indicada, como magnésio, vitaminas do complexo B, ômega 3 ou adaptógenos.

Nenhum estimulante substitui um corpo bem nutrido, descansado e regulado.

O alerta que fica

O fato de produtos com nicotina serem permitidos para comercialização não significa que sejam seguros, especialmente quando usados como ferramenta de performance. A nicotina é viciante, eleva o cortisol, interfere no intestino, na absorção de nutrientes e na saúde cardiovascular.


Na nutrição e na saúde, o básico bem feito ainda é a estratégia mais potente.

Bruna Tommasi

Colunista

Nutricionista graduada pela Universidade Vila Velha e pós-graduada em Nutrição Esportiva e Estética. É apaixonada por promover saúde de forma prática, combinando ciência e estilo de vida para ajudar as pessoas a alcançarem seus objetivos com equilíbrio

Nutricionista graduada pela Universidade Vila Velha e pós-graduada em Nutrição Esportiva e Estética. É apaixonada por promover saúde de forma prática, combinando ciência e estilo de vida para ajudar as pessoas a alcançarem seus objetivos com equilíbrio