Arthur Nogueira canta a solidão do agora

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São Paulo - Eram dias cinzentos, daqueles que o sol sequer dá as caras, incapaz de perfurar a camada de nuvens. Depois de passar horas fora de casa, Arthur Nogueira chegou em casa ao anoitecer. Jogou-se no sofá, pegou o violão. Fez um acorde - um Lá Maior com Sétima - e as palavras saíram: "tudo era tão bonito quando havia sol". A melancolia estava no ar. Nogueira, em vias de lançar um novo álbum, o quarto da carreira, capturou-a.

"Não dormi naquela noite", lembra o músico de Belém, no Pará. Daquele verso veio Era Só Você, canção na qual é possível sentir, na pele, a solidão do descaso, do desengano, do desgosto de perceber-se à beira do abismo que é o término de um relacionamento destinado ao fracasso. "Era um tempo tão bonito, mas havia amor / Hoje é tudo indo, lembra aquele som? Era a praia anoitecendo, quando havia amor", canta ele.

Nogueira cita o que já ouviu dos poetas para explicar o processo pelo qual viveu durante a confecção de Rei Ninguém, o quarto álbum da carreira, lançado pelo selo Joia Moderna e patrocinado pela Natura Musical. "O que eles, os poetas, dizem é que usam a técnica da 'inspiração e da transpiração'", conta. Primeiro, vem a inspiração, algo que nasce, uma música, um verso, um poema, uma ideia. A "transpiração" é o ato de trabalhar a partir daquela faísca criativa.

"Para mim, no meu processo, a inspiração é muito importante. Não adianta eu sentar com o violão se não tiver a chama de alguma coisa dentro de mim", explica Nogueira. "O meu processo de compor vem de outras coisas, de situações que vivo, de um amor, uma desilusão."

Nogueira descobriu que havia sido selecionado no edital da Natura Musical quando estava em Berlim, capital da Alemanha, em sua primeira viagem internacional sozinho, há quase um ano. Com pouco acesso à internet, ficou em pânico. "Tive medo de não conseguirem entrar em contato comigo e fossem atrás de outra pessoa", ele ri. E ali, mesmo, ele já passou a abrir-se à experiências.

No mesmo giro europeu, por exemplo, lia um livro com as correspondências do poeta Arthur Rimbaud (1854-1891). Em Londres, decidiu visitar a casa onde o francês havia morado. "Fiquei emocionado", conta. Caminhou a partir da estação Camden Town, na zona norte da capital inglesa, até a porta de uma residência que não era museu, nem algo do tipo, mas trazia uma placa na qual dizia que Rimbaud morou ali. Nogueira não bateu na porta, não tocou a campainha, nada disso. Ficou lá, só, a imaginar o caminhar do poeta cujos escritos gosta tanto. "Na hora, pensei na música do Bob Dylan", ele lembra. Era You're Gonna Make Me Lonesome When You Go, do mais melancólico e pessoal disco do bardo, Blood on the Tracks, de 1975. A partir dali foi criada Vou Ficar Tão Só Se Você Se For, uma tradução de Nogueira e Erick Monteiro Moraes.

A música, a primeira de Rei Ninguém, apresenta os conceitos explorados no restante do trabalho cujo título também nasceu de uma tradução - o poema da alemã e judia Rose Ausländer se tornou a canção Ninguém. Há a melancolia da finitude - dói sempre que se percebe o ciclo que se encerra. Sem a proteção dos aparatos eletrônicos, como nos discos anteriores, Nogueira se mostra mais, seja frágil ou forte. Exposto, ele canta o fim. Engana-se, contudo, quem entende a visão pragmática como um distanciamento do que é real. De um dia cinza paulistano, por exemplo, nasceu a canção Era Só Você. Há de se comemorar. É questão de perspectiva.

ARTHUR NOGUEIRA

'Rei Ninguém'

Joia Moderna; R$ 20 e plataformas digitais

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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